Peregrinação Turística Ponta Delgada – Monte da Nossa Senhora da Paz Capitulo III: Vila Franca do Campo

Finda a passagem pela Ribeira Chã chegámos à primeira freguesia do concelho de Vila Franca, a freguesia de Água d’Alto. Pouco se sabe acerca da formação desta freguesia, Gaspar Frutuoso em Saudades da Terra, apenas refere que neste lugar existia uma ermida, junto da qual se situava um hospital de leprosos, ao qual foi atribuído o nome de Lazareto, origem do nome de São Lázaro ou Gafaria.

Em 1602, este lugar de Água d’Alto, recebeu a visita do Bispo D. Gerónimo que o achou um local pequeno e maltratado, pelo que ordenou a transferência do padre para a freguesia de São Pedro. O Hospital que aqui funcionava foi, igualmente, transferido para a beira-mar, tendo sido edificado no local onde hoje fica a praia do Degredo, assim chamada pelo facto de todos os leprosos serem degradados para lá.

No ano de 1832, verificou-se um aumento do número de habitantes, pelo que a população local solicitou ao Bispo autorização para instituir aqui um santuário, onde se pudesse colocar o Santíssimo Sacramento.

Este lugar fez parte da freguesia de São Pedro até início do século XX, no entanto, em 1908 foi promovido a freguesia pelo governo de João Franco.

A toponímia desta freguesia deve-se ao facto de nela existir uma queda de água com cerca de trinta metros, localizada na ribeira do Degredo, e por a água cair de tão alto, deu origem o nome de Água d´Alto.

No início desta freguesia de Água d’Alto existe uma ponte muito diferente das que habitualmente vemos na ilha porque a sua construção assenta sobre duas filas de arcos quebrados em vez de ter o frequente arco de volta perfeita. Esta ponte passa sobre a grota do barro. O nome desta deve-se ao facto de ali se ter encontrado bom barro. Esta grota também é conhecida como a Grota do Tamborileiro, porque tem uma lenda a ela associada. Segundo Ângela Furtado-Brum em seu livro Açores: lendas e outras histórias, reza a lenda o seguinte: “Decorriam os primeiros anos do século XVI e a vida, no lugar de Água d’Alto, corria como na maioria das povoações costeiras dos Açores, divididos os habitantes entre as tarefas do arranjo da terra, do pastoreio e da pesca, que lhes permitiam subsistir.

Certo dia, pela boquinha da noite, quando os homens voltavam a casa dos seus trabalhos, convidados pelos toques das trindades e as mulheres preparavam a magra ceia na cozinha coberta de palha, sem que ninguém desse conta, um navio de piratas, possivelmente argelinos, aproximou-se do areal. A coberto da sombra da noite, passando despercebidos aos vigias, o grosso grupo de piratas trepou as íngremes veredas que conduziam ao lugarejo e surpreendeu os seus habitantes.

Então, foi o fim do mundo. Saquearam casas, maltrataram e feriram os homens, violentaram mulheres e crianças. Outro grupo avançava, entretanto, para o interior, levando à frente um tamborileiro que não se fartava de rufar o instrumento com quanta força tinha, para amedrontar as populações. O som do tamboril ecoava entre os gritos angustiados das mulheres e das crianças. Mas, insensíveis à dor, os hereges continuavam a tarefa de pilhagem e destruição.

Os vigias de Vila Franca aperceberam-se finalmente do que se passava, lançaram barcos ao mar com homens bem armados e mandaram outros por terra, a cavalo, para ajudar. Recebendo um aviso de bordo, os piratas regressaram à nau o mais depressa que puderam. Só o tamborileiro, ensurdecido pelo barulho do tambor, continuou a caminhar, sem se aperceber do que se estava a passar e, quando caiu na realidade, já era demasiado tarde. Não teve coragem de descer as margens da ribeira aonde tinha chegado, mas não se calou. Desesperadamente, tentou com o seu barulho afugentar quem se atrevesse a aproximar dele e, com sorte, porque nessa noite ninguém lhe deu busca.

No dia seguinte procuraram o tamborileiro em vão, mas com a noite, o som do rufar do tamboril encheu de novo de pânico as populações. Por fim, o tambor calou-se e, ao mesmo tempo, um agudo grito cortou a escuridão.

Ao amanhecer, os guardas foram pela ribeira fora e encontraram o cadáver do tamborileiro caído no fundo da grota, esfacelado da grande queda. As populações sentiram-se aliviadas por se verem livres de raça tão má, mas, nas noites seguintes, um estranho rufar de tambor continuava a ouvir-se, claramente, vindo do lado da ribeira.”

Diz-se que o fantasma continua a tanger o seu tamboril e ainda hoje assombra os caminhantes que por ali passam às altas horas da noite.”

De referir que a passagem por esta freguesia de Água d’Alto foi sempre feita pela antiga Estrada Regional pelo que fez com que se passasse junto da praia dos Trinta Reis e da praia de Água d’Alto. Mais à frente, a freguesia de São Pedro, Gaspar Frutuoso refere em Saudades da Terra que toponímia de São Pedro deve-se ao facto de existir “uma ponta de pedra e terra, pouco saída do mar, chamada ponta de São Pedro”. Ainda segundo o mesmo autor existia neste lugar “uma ermida deste glorioso santo que dantes do primeiro terramoto havia somente daquela parte da ribeira”, sabe-se que este terramoto a que se refere Gaspar Frutuoso foi o grande terramoto que atingiu a ilha em outubro de 1522, podendo-se concluir, assim, que esta ermida já existia antes desta data.

Devido a este terramoto Vila Franca do Campo teve que ser reconstruída, o que levou a que esta Vila se expandisse para ocidente e foi aí que se construiu o novo Convento de São Francisco, em 1524, que veio substituir um outro existente junto do monte da Senhora da Paz que havia ficado soterrado durante o abalo sísmico. Este mosteiro desempenhou um importante papel na vida intelectual da época, visto que os franciscanos eram, por norma, os pregadores de São Miguel. Este convento foi reformado e ampliado no século XVIII e exerceu funções até 1832, data em que foram extintas as ordens religiosas. A primeira paragem efetuada na Vila foi no Jardim Dr. António da Silva Cabral que fica em frente ao convento de São Francisco para almoçar. Findo o almoço foi hora de meter as mochilas às costas e seguir caminho ainda faltava alguns quilómetros para chegar ao destino final.

Ainda na freguesia de São Pedro passámos pela Igreja Paroquial de São Pedro. A atual igreja foi edificada sobre uma ermida gótica que ali existia sendo construída entre 1746 e 1758, o que para a época pode ser considerada uma construção rápida. Este templo distingue-se pela sua fachada barroca em pedra basáltica. A fachada tem um frontão coroado por volutas e ao centro tem um nicho com a imagem do padroeiro, datada do século XVIII.

Seguindo caminho, entrámos na freguesia de São Miguel, é aqui que está sediado o edifício da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo. O presente edifício data do séc. XVIII, embora a criação do concelho remonte ao século XV. É um belo exemplar arquitetónico, com escadaria exterior e torre sineira. A sul do edifício ergueu-se em tempos o Pelourinho da vila.

Outros locais de passagem obrigatória foram a Igreja e Hospital da Misericórdia e a Igreja da Matriz de São Miguel. No que concerne à Igreja e Hospital da Misericórdia estes foram originalmente erigidos nos finais do século XV, tendo sido este o primeiro hospital dos Açores, já a igreja é dedicada ao Espírito Santo e foi reedificada nos séculos XVII-XVIII. No que toca à Igreja da Matriz de São Miguel, e tal como o nome inica, esta é de invocação a São Miguel Arcanjo, é um dos templos mais antigos da ilha. A primitiva igreja foi instituída pelo Infante D. Henrique, que ordenou a sua construção, tendo sido Rui Gonçalves da Câmara (séc. XV), terceiro Donatário da ilha, o responsável pela sua edificação, cumprindo, assim, a vontade e as ordens do Grão-Mestre da Ordem de Cristo. O templo original foi destruído pelo terramoto de 1522, mas a sua reconstrução foi imediata e mantiveram-se os traços originais da igreja anteriormente aqui existente. É um templo de três naves, com uma imponente fachada e torre sineira em basalto negro, onde se inscreve um pórtico em ogiva, encimado pela rosácea em estilo gótico e arrematado o frontispício pela Cruz de Cristo. Na torre pode-se encontrar o sino mais antigo da ilha.

Antes de iniciarmos a subida para o Monte da Nossa Senhora da Paz passagem pela lateral do Convento de Santo André: Este convento data dos séculos XVI-XVII. Tendo sido parcialmente destruído após a extinção das ordens religiosas, em 1832, restam ainda de pé o Parlatório e a Igreja. Este é um templo de duas naves, albergando um interessante altar-mor em talha e azulejos, com a imagem de Santo André. Posto isto, deu-se, então, início à subida para o Monte da Nossa Senhora da Paz de referir que nesta subida pode-se encontrar várias zonas de estufas de produção de ananás.

A Ermida de Nossa Senhora da Paz e como já referi está localizada no alto do Monte que dá nome à ermida. Esta ermida foi edificada em 1764, mas segundo consta a sua construção mais primitiva remonta, possivelmente, ao século XVI. De referir que a mesma encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público pelo Governo Regional dos Açores desde 1991.

Existem várias lendas que relatam o porquê desta ermida ter sido aqui construída, a que me foi relatada foi a seguinte, “nos montes ao redor de Vila Franca do Campo trabalhavam muitos pastores. Num certo dia, alguns deles recolheram-se a uma das grutas ali existentes, para se abrigarem do mau tempo, encontrando uma imagem de Nossa Senhora. Admirados com o achado, trouxeram a imagem consigo e entregaram-na ao padre da Igreja da Matriz de São Miguel. No dia seguinte, os pastores voltaram ao monte e encontraram novamente a imagem, na mesma gruta e trouxeram a imagem novamente para a Igreja da Matriz. O fenómeno repetiu-se por alguns dias, até que o povo compreendeu que a imagem desejava ter uma ermida naquele sítio. Assim, o povo começou a transportar os materiais de construção para um local mais abaixo da gruta, pois este local era mais abrigado dos ventos fortes, e iniciando ali os trabalhos de construção, mas no dia seguinte, quando os trabalhadores chegaram para iniciar um novo dia de trabalho, encontraram o local revirado e as pedras colocadas no local onde a imagem fora encontrada pela primeira vez. Decidindo, então, construir neste sítio a Ermida de Nossa Senhora da Paz, com o Menino Jesus ao colo, tendo na mão um ramo de oliveira.”

Às 15:30 horas iniciamos a nossa descida do monte da Nossa Senhora da Paz e 31,5km depois chegávamos à paragem do autocarro para iniciarmos o caminho de retorno ao concelho de Ponta Delgada dando assim por terminada a peregrinação turística.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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