Sexta-feira, 23 de dezembro de 2016, há que aproveitar as minhas férias da época festiva do Natal e ir caminhar. O dia estava cinzento e bastante nublado, mas não chovia, o que é bom, uma vez que não existe coisa mais aborrecida do que ir caminhar com chuva porque esta não permite que consiga fotografar!!!!
Não sabendo para onde ir comecei por espreitar um site que mostra as condições meteorológicas em tempo real da ilha de São Miguel (bom a realidade é que este site mostra as condições meteorológicas em tempo real para todas as nove ilhas do Arquipélago dos Açores) e vi que o tempo estava mais ou menos igual em toda a ilha.
Apetecia-me caminhar para algum lugar que ainda não conhecesse, mas como só iria encetar esta aventura após o almoço comecei a queimar tempo, vagueando pela internet. Tanto vagueei que acabei por dar com a existência de um novo trilho municipal na cidade da Ribeira Grande, na página que a “Visit Maia, São Miguel, Azores” mantém numa rede social. Este trilho segundo sei foi inaugurado em outubro de 2016, mas ainda não há informação disponível nem no site da Câmara Municipal da Ribeira Grande, nem em papel, pelo que decidi ir até à freguesia da Maia para espreitar e explorar o mesmo.
De mencionar que a freguesia da Maia é uma das mais antigas do concelho da Ribeira Grande, tendo-se desenvolvido num intervalo de tempo muito curto, pois tinha terras muito férteis e um porto marítimo seguro. A sua toponímia deve-se a Inês da Maia, uma fidalga que aqui se estabeleceu nos finais do século. XV.
Por volta 13h 32m chegava à Fábrica de Chá da Gorreana para ir, então, explorar o novo trilho municipal. Comecei por entrar no edifício da fábrica, que é a mais antiga fábrica de chá da ilha de São Miguel, a laboral desde 1883 e, como era dia de semana, finalmente, pude ver partes do processo do fabrico do chá. A destacar o enrolar do chá e o seu empacotamento em pequenas saquetas numa máquina. Resta referir que a planta usada para fazer o chá aqui na Gorreana é a Camellia sinensis. Daqui segui para o portão principal da fábrica, pois é nesta zona que começa o trilho, antes de iniciar a caminhada aproveitei para ler o placard informativo com as características do mesmo. O seu nome oficial é “TM05 – Caminho da Água da Gorreana”, sendo este um trilho linear, com duração de 40 minutos, 1700 metros de comprimento e com um nível de dificuldade fácil.
Com a leitura interpretativa do trilho em dia meti-me a caminho, o mesmo começa por serpentear por entre as plantações do chá até chegar a um mirante, cujo sinal indica ser o caminho errado, mas não resisti e subi as escadas para ir espreitar a vista. Daqui temos uma vista soberana sobre as plantações de chá, um tanque e a casa anexa à fábrica do chá. Posto isto, voltei ao caminho oficial e a próxima paragem foi junto ao tanque. Este coleta a água que chega de uma levada de 800 metros, sendo esta captada na Ribeira da Cafua. A função principal deste tanque é acumular água para criar caudal de modo a alimentar uma turbina de produção de energia hidroelétrica. Segundo uma placa informativa que se encontra junto ao tanque, as máquinas que produzem a energia hidroelétrica foram instaladas no início do século passado, mas, na atualidade, continuam a funcionar na perfeição, o que me leva a pensar que tudo o que é de fabrico antigo é que é bom!
Deixando o tanque para trás caminhei longos metros junto da levada que corre pelo meio da plantação do chá, o que é muito aprazível porque neste momento só se ouve o barulho da água a correr e dos pássaros. Metida com os meus pensamentos lá fui eu relaxada a pensar no enorme privilégio que estava a ter o de poder caminhar numa paisagem única em toda a Europa, uma plantação de chá, até que cheguei a umas escadas que me levaram a uma ponte em arco romano. Este arco é construído em pedra, a qual não está nem rebocada nem pintada e no tabuleiro há uma cartela onde se pode ler “J.G. 1962”.
O trilho prossegue atravessando a Ribeira da Cafua e passando por baixo da ponte, mais à frente umas escadas, subindo as mesmas damos com uma bifurcação, na qual à direita se encontra um miradouro de onde se pode observar uma primeira cascata e à esquerda o caminho que nos levará ao Salto da Cideira.
Depois de uma paragem no miradouro segui caminho até chegar a um moinho. Em outros tempos este moinho moía milho para produção de farinha, na atualidade e em virtude de os tempos serem outros, este encontra-se em estado de ruína bastante avançada, mas não pude deixar de reparar na zona do telhado onde ainda é possível observar o local pelo qual a levada chegava para alimentar o mecanismo que fazia a roda girar e moer o milho.
Uns longos metros mais à frente e sempre a acompanhar a levada chega-se ao Salto da Cideira, que é uma cascata da zona alta da Ribeira da Cafua. Esta ribeira nasce na zona axial da Ilha de São Miguel e desagua a poente na freguesia da Maia, o seu caudal é sazonal, ou seja, depende da época do ano, obviamente que de inverno tem um caudal mais forte.
Sendo este um trilho linear todo o caminho que andei num sentido tive voltar fazê-lo no sentido inverso, no entanto, no caminho descendente notei que ao longo de toda a ribeira existiam mais cascatas. Houve pelo menos uma que prendeu a minha atenção e cujo acesso era mais fácil. Para poder alcançá-la tinha era de subir a ribeira na zona da ponte e, obviamente, não deixei passar esta oportunidade de a ir explorar, uma vez que havia um bom caudal.
A zona desta primeira cascata é muito fotogénica, mas claro que para lá chegar foi necessário ter um cuidado e atenção redobrados, uma vez que ia sozinha e como tinha saído do caminho indicado no trilho oficial estava consciente que se acontecesse algum percalço estava por minha conta e risco.
Às 16h 11m e 2,9 km depois cheguei à fábrica, local onde entrei novamente e tomei um chá quente, o que é sempre bom para retemperar forças.
Enquanto tomava o chá fazia mentalmente uma análise ao trilho comparando o que havia lido no placard informativo com o que havia experienciado e constatei que o trilho é realmente muito fácil e acessível. Sendo que é muito relaxante, fotogénico e bom para ir esticar as pernas para quem como eu está habituada a fazer caminhadas muito longas. Aproveitei ainda o momento para refletir sobre o porquê de ter levado horas a fio para fazer o trilho e cheguei à conclusão que tinha feito longas paragens em alguns locais do mesmo para fotografar, o que mostra que o trilho estás cheio de pormenores e recantos que são realmente encantadores e fotogénicos.
Valeu e muito ter lá ido, espero lá voltar em breve com melhores condições meteorológicas para conseguir repetir algumas fotos. Texto e Fotografias: Sandra Botelho
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