Domingo, dia 15 de janeiro de 2017, há que aproveitar o último dia do fim-de-semana para ir caminhar. O dia estava bastante nublado, mas aqui e acolá o sol lá dava um ar da sua graça, como não havia ameaças de chuva decidi ir caminhar e, desta feita, voltei a um lugar ao qual já não ia há muitos anos, a Ribeira Chã! Tantas memórias boas desta freguesia, tão rica em história e cultura. Esta deve ser a freguesia que mais museus tem na ilha, contudo, os mesmos só funcionam em horário de função pública pelo que para conseguir visitá-los só mesmo durante as férias. O website da Junta de Freguesia anuncia que os mesmos abrem ao final de semana, das 14h às 17h, mas pelo que pude constatar tal não se verifica, uma vez que passei por alguns dos núcleos museológicos e os mesmos encontravam-se fechados.
A freguesia da Ribeira Chã pertence ao concelho de Lagoa e deve o seu nome à Ribeira das Barrelas, que corre por uma grota coberta de lajes rasas ou chães. Esta ribeira localiza-se na zona nascente da freguesia e vai desaguar no mar.
A freguesia da Ribeira Chã é uma das povoações mais antigas da ilha de São Miguel, há relatos de haverem aqui habitações no século XVI, se bem que estas mesmas habitações encontravam-se dispersas umas das outras, porque os primeiros habitantes que aqui se fixaram apenas tinham o intuito de se dedicar à caça e à cultura do pastel (cultura que teve um papel de relevo e importância para a economia açoriana entre os séculos XV e XVI), uma vez que o lugar era de difícil acesso. O primeiro aglomerado populacional só surgiu no século XVII.
Assim, pelas 13:01 horas chegava à freguesia iniciando a minha caminhada na Rua da Igreja. Nesta rua situa-se a “Casa da Adega” e a igreja. Esta igreja de construção recente tem como invocação S. José e a sua construção é datada de 1964, e a mesma surge devido aos esforços desenvolvidos pelo Padre João Flores. A sua edificação foi relativamente rápida, visto que só demorou 3 anos. Ao chegar ao final da Rua da Igreja subi a Rua de S. José, que é paralela à Ribeira das Barrelas. Nesta rua passei pela casa do pároco, no final desta há um tanque junto ao qual virei à esquerda, acedendo a uma canada de terra batida. Serpenteando por esta canada, passei por zonas de pastagem, por zonas de matas com criptomérias, faias e outras espécies de árvores e por zonas com algumas plantas endémicas, a destacar a urze e cheguei ao cimo da Serra de Água de Pau. Olhando para trás a vista é soberana, vemos grande parte da costa sul da ilha, que vai desde a Vila de Água de Pau até a Vila Franca do Campo, esta última com o seu Anel da Princesa (ilhéu de Vila Franca do Campo) a coroar o mar.
A meio do caminho foi necessário atravessar a Ribeira das Barrelas, hoje tive sorte estava seca, contudo o piso nas suas imediações, devido à sua elevada altitude e densidade de criptomérias, estava bastante lamacento e escorregadio. O caminho descendente que iria realizar ficava uns metros mais à frente da ribeira, junto de uma zona de captação de água da Câmara Municipal de Lagoa. A minha descida foi feita por uma canada, passando por pastagens e, mais uma vez, fui acompanhada durante o meu percurso por uma vista sobranceira sobre Vila Franca do Campo e o seu ilhéu. Da última vez que tinha descido esta canada ela era toda de terra batida, mas, pelo que pude constatar, a partir de 2004, a referida canada transformou-se num caminho de betão e atualmente, chama-se Caminho Rural do Correia.
Ao longo da minha descida reparei que colocaram alguns barrotes de marcação de trilho, mas estes não se encontravam pintados com as indicações a seguir, pelo que deduzo que em breve ou a Junta de Freguesia ou o Governo Regional irá inaugurar naquela zona um trilho. Se assim for fico, por um lado, expetante para descobrir qual o traçado definido e, por outro, esperançosa que o mesmo me traga algo de novo para descobrir naquela zona.
De referir que tanto no percurso ascendente, como no percurso descendente encontrei muitos tanques de abastecimento de água.
Já de volta ao meu ponto de partida, ou seja, à Rua da Igreja, dei conta que junto à igreja ficava um dos três Núcleos Museológicos que foram criados em 1981, nomeadamente, o Núcleo de Arte Sacra e Etnografia. A verdade é que já visitei este núcleo há muitos, muitos anos e nunca me tinha apercebido que ficava tão próximo da igreja. Foi um local que gostei muito de visitar, pois neste encontram-se, entre outras peças, as de arte sacra que pertenceram à primitiva igreja de São José. Em frente a este núcleo está localizada a sede da Junta de Freguesia e ao lado desta há um parque infantil. Pelo que pude verificar, a Ribeira Chã evoluiu muito nestes últimos anos, as ruas encontram-se todas asfaltadas e as casas, pelo menos no centro, estão todas bem arranjadas e conservadas.
Pelas 15:17 horas chegava ao local onde havia iniciado o meu percurso e dava por finda esta minha caminhada de 8,1km, efetuada em trajeto circular e tendo como altitude máxima 473 m. As condições atmosféricas ao longo do caminho variaram. Assim, nas zonas mais baixas, mais concretamente, no centro da Ribeira Chã, o tempo apresentava-se bastante ensolarado. Pelo contrário, nas zonas altas da serra, o céu estava bastante cinzento, havendo mesmo zonas com algum nevoeiro. No entanto, o que importa é que a chuva não apareceu e eu consegui caminhar, apanhar ar e refletir sobre a sorte que tenho em ainda poder desta natureza, praticamente, intacta, na qual há pouca presença humana e ainda se consegue ter o chilrear dos pássaros como música de fundo.
Nota: No entretanto ouvi dizer que o trilho se encontra marcado, não sei se já foi inaugurado, mas vai chamar-se “Trilho Pedestre Pedras Brancas” e será um trilho municipal.
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