Quinta-feira, 15 de setembro de 2016, o dia estava bastante agradável para caminhar, apesar do vento que se fazia sentir, o sol lá aparecia pelo meio das nuvens. Encontro-me de passagem pela ilha do Faial e como estou com algum tempo livre nem pensei duas vezes no que fazer, arrumo a mochila e vou caminhar, porque é no meio do mato que me encontro e sinto bem.
O relógio marca oito horas e quarenta e oito minutos e eu estou estacionada no meu ponto encantado da ilha azul, o Vulcão dos Capelinhos (este vulcão situa-se na freguesia do Capelo), aproveitando um pouco do silêncio que ali se faz sentir e a pensar que trilho fazer. Silêncio, este não tarda iria acabar ou não fosse meados de setembro e este ser um dos lugares mais procurados do Faial, não só pela história intrínseca ao lugar, mas também pela nostalgia que ali se vive.
No meio dos meus pensamentos, absorvendo e apreciando o lugar mais uma vez, dei com uma placa numa encosta um pouco mais à frente do local onde me encontro, decido ir lá espreitar o que tem escrito e por mera coincidência dou com uma placa informática de um circuito interpretativo. Que feliz coincidência estava escolhida a minha próxima caminhada! Através deste circuito poderia juntar o útil ao agradável e fazer três coisas que gosto, caminhar, fotografar e alimentar a minha sede de conhecimento.
O circuito chama-se “Caminho de Baleeiros” e retrata a importância do antigo Porto do Comprido. Este Porto do Comprido foi uma das maiores e mais produtivas estações baleeiras dos Açores e funcionou até 1957, ano em que o Vulcão dos Capelinhos entrou em erupção.
Voltei ao carro para ir buscar a minha mochila e neste pequeno espaço de tempo já o local se tinha enchido de turistas e num ápice lá se tinha ido o meu silêncio, mas o ter “companhia” nunca foi nem nunca será impeditivo para caminhar, bem pelo contrário, sempre se encontra algum turista simpático com quem se pode trocar um dedo de conversa, sempre se aprende e descobre alguma coisa nova. Assim, lá fui eu à minha caminhada, saí do parque de estacionamento do Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos e segui para norte, rumo a uma antiga vigia baleeira que se encontra a escassos metros da minha posição inicial, esta foi completamente destruída pela à erupção do Vulcão dos Capelinhos. Ao chegar às suas ruínas tenho uma visão magnífica sobre a cratera e sento-me a imaginar aquele local antes daquele acontecimento, dali só se devia ver o mar e os dois ilhéus existentes, que desapareceram engolidos pelas escórias e cinzas vulcânicas. Absorvida pelos meus pensamentos vem-me à cabeça a informação que havia lido naquela placa informativa, foi daquele local que se avistaram as primeiras manifestações vulcânicas dos Capelinhos e começo a imaginar o dia do Sr. José Soares da Cunha, o vigia de serviço a 27 de setembro de 1957, ao chegar ao seu local de trabalho, por volta das sete horas da manhã, sentar-se para mais um dia de trabalho que pensava ele ia ser rotineiro e que afinal acabou por ser tudo menos rotineiro. Penso na cara de espanto que deve ter feito quando se sentou e olhou para o mar e viu a menos de um quilómetro quatro pontos efervescentes que lançavam escórias e vapores de água e penso será que correu para o aglomerado de casas em sobressalto ou veio a andar calmamente até à vila para avisar aquilo que tinha visto. Neste dia, por certo, não lançou o foguete, pois se o tivesse lançado seria sinal de avistamento de baleia e os pescadores ter-se-iam feito ao mar para mais um dia de trabalho. Não pude deixar de pensar que o vulcão manteve-se ativo e em erupção durante treze meses, a última manifestação é datada de 24 de outubro de 1958 e claro durante todo este tempo a população residente na Ilha do Faial viveu com medo e em sobressalto e, obviamente, que isto trouxe consequências para a ilha, uma vez que durante a ocorrência deste evento 35% da população aqui residente acabou por emigrar para o Canadá e América originando grandes mudanças demográficas.
Após ter absorvido a energia do lugar e tirado algumas fotografias sigo caminho rumo a outra vigia baleeira, sigo encosta acima e ao longo de todo o caminho observo os recortes da ilha que chegam à ponta da Praia do Norte. Desço a encosta e caminho no sopé do Costado da Nau até chegar à estrada regional, a qual atravesso entrando num caminho de terra batida, que percorro até chegar à vigia baleeira. Estas vigias para além de serem construídas em locais de observação privilegiados ofereciam também abrigo à pessoa que se encontrava de serviço. Esta vigia encontra-se muito bem conservada, mas infelizmente o vandalismo também já chegou à ilha do Faial e a porta de acesso do referido edifício encontra-se destruída. No interior deste podem-se observar umas placas que contêm um pouco da história da atividade de baleação, incluindo os nomes dos pescadores que faziam desta atividade o seu ganha-pão.
Na atualidade, a atividade da caça à baleia foi proibida e, de certa forma, foi uma medida que acabou por ser benéfica e ajudar na conservação destes grandes cetáceos, caso contrário, algumas destas espécies já poderiam estar extintas. Estas vigias agora são usadas por empresas de Whale Watching e, por coincidência, quando aqui cheguei havia um senhor muito afável a fazer vigia de cetáceos para uma empresa local.
Quando faço trilhos e encontro alguém ao longo do caminho se tenho oportunidade troco um dedo ou dois de conversa, claro que não perdi oportunidade de trocar umas palavras com o senhor vigia e palavra puxa palavra lá comentou comigo que a manhã não estava a ser muito produtiva no avistamento de cetáceos, mas como ainda era cedo podia ser que ao longo do dia as coisas mudassem. Despedi-me e continuei o meu caminho, desta feita pela estrada regional, a mais ou menos oitocentos metros encontrei uma pequena eira. Estas eiras pelo que li numa placa informativa encontram-se espalhadas por toda a ilha, preferencialmente localizadas em zonas onde se cultivavam cereais e as mesmas cumpriam uma função social, onde, frequentemente, se realizavam cerimónias, bailes e missas.
Continuei caminho pela estrada descendo em direção ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos (este centro é subterrâneo por forma a ficar camuflado na paisagem), no qual fiz uma pequena paragem para descansar e repor energias. Feita a interrupção continuei o meu trajeto descendente, mas, desta vez, por entre as cinzas e escórias resultantes da erupção em direção à zona do Porto Baleeiro do Comprido, passando junto do antigo farol. Uns metros mais à frente, apesar de ter visto uma placa a avisar dos perigos de se visitar a cratera, não resisti e fui visitar o local. Aproveitei e subi ao cone vulcânico indo até à zona da erupção. Esta zona assemelha-se muito a uma paisagem do planeta Marte e acredito que quem suba o cone vulcânico dos Capelinhos queira por lá ficar por tempo prolongado devida à vista deslumbrante que dali se tem. Fiquei encantada!!!!
No entanto, o tempo não para e era altura de seguir caminho para o Porto do Comprido. Este porto, tal como já referi, foi a maior estação baleeira do Faial e dos Açores tendo funcionando até setembro de 1957, altura em que o vulcão entrou em erupção. A toponímia deste local deve-se à referência num mapa do século XVIII de uma Ponta Comprida. O porto conserva até hoje a sua estrutura original, sendo constituído por uma rampa comprida e ampla dirigida a sudoeste e onde a escoada lávica proporcionava proteção natural às embarcações que ali acostavam das ondulações de oeste e noroeste. Neste porto chegaram a estar varadas cerca de 20 botes baleeiros, bem como, outras pequenas embarcações e na sua baia ancoravam 7 lanchas baleeiras a motor. Uns metros mais à frente avista-se a antiga Casa dos Botes. Esta casa servia para arrumar e reparar as embarcações e ao mesmo tempo também servia para preparar o material para a faina. Quando passei à porta a mesma encontrava-se aberta pelo que decidi ir espreitar como era o seu interior, lá dentro conserva-se um bote baleeiro e outros objetos usados na caça à baleia. Nas paredes uma exposição alusiva à caça da baleia e à forma como os baleeiros e as suas famílias viviam na época da baleação. Em conversa com o senhor que se encontrava de serviço na Casa do Bote descobri que a rua de terra batida, mesmo em frente à referida casa, liga esta localidade com a do Varadouro, que é uma zona balnear muito procurada, tanto por moradores, como por turistas que passam pela ilha.
Olhei para o GPS para ver se ainda tinha tempo de lá ir, pois tinha um compromisso às quinze horas e trinta minutos, o relógio batia doze horas e quinze minutos e pensei para mim: “Ah!!!! Isto dá para fazer quinhentas vezes o caminho ida e volta” e segui para Varadouro. No caminho cruzei-me com três turistas vindos da Alemanha, pelo que aproveitei logo para meter em prática o meu curso de alemão iniciante que havia tirado recentemente, bom quem ler isto ainda pensa que tive uma longa e erudita conversa, mas só os cumprimentei e perguntei como estavam e se estava a gostar da ilha, foram poucas as palavras no entanto deu para nos entendermos, se bem o meu alemão era bastante enrolado. Durante o percurso também vi uns coelhos e descobri que a rua é usada por carros. Ao longo de todo o caminho houve tempo de parar junto do farolim do Vale Formoso (este farolim é que controla a navegação marítimo daquela costa na atualidade) e num miradouro que tem vista para o Varadouro.
Chegada ao destino final, o Varadouro, fui até às piscinas naturais, ao porto e à zona das termas (encontram-se encerradas). Desta zona temos vista muito boa para a encosta do Morro do Castelo Branco. Aproveitando a paisagem almocei e quando acabei era altura de fazer o caminho de regresso. Quando cheguei ao Vulcão dos Capelinhos e já no caminho ascendente para o parque de estacionamento, uma última paragem nas ruínas da aldeia dos baleeiros, aqui nestas casas de pedra alojaram-se baleeiros do Faial e de outras ilhas.
E pelas catorze horas e cinquenta e sete minutos chegava ao Centro Interpretativo do Vulcão dos Capelinhos, a distância percorrida nesta minha caminhada foi de 21,7 Km.
Neste trilho pode-se experienciar as sensações vividas numa época em que a baleação era um importante recurso económico. Ao mesmo tempo este local é uma cápsula do tempo na qual se encontram encerradas nas cinzas e escórias vulcânicas as casas, o farol e o porto. De certa forma este local conserva toda a história de vida que ali se passou e quem o visita só pode vislumbrar ou imaginar o susto e agonia que as pessoas que ali viviam passaram aquando a erupção do Vulcão dos Capelinhos.
Resta referir que toda esta zona do Vulcão dos Capelinhos e do Varadouro é uma Área Protegida para Gestão de Habitats ou Espécies, devido às suas características geológicas e biológicas. Esta área alberga aves como o cagarro, o garajau-comum e o pombo-torcaz-dos-Açores e a costa oeste do Vulcão dos Capelinhos é o único local da ilha onde o garajau-rosado nidifica. Aqui podemos encontrar espécies de flora endémica que importa salvaguardar a destacar a urze e o pau-branco. Assim, quem decidir fazer este circuito interpretativo deve deixar tudo intacto, tal como o encontrou porque a natureza é de todos nós e é nosso dever protegê-la.
Uma curiosidade acerca do nome dado à ilha, segundo o que me foi dito, esta tem o nome de Faial porque aquando da sua descoberta existiam aqui muitas faias (árvore ou arbusto) e pelo verifiquei aquando da minha estadia aqui, na atualidade, continuam a existir muitas Faias, em especial, nas áreas protegidas.
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