Dias felizes são aqueles dois que passam a correr (sábado e domingo) e estes últimos meses, tenho andado empenhada em ir explorar caminhos usados pelos antigos para ligarem as antes povoações, agora as freguesias com o intuito de nas próximas férias concretizar um projeto que há muito almejo realizar, ou seja, uma peregrinação à volta da ilha de São Miguel e por este motivo os meus fins-de-semana parecem passar a voar, como dizia o antigo “quando fazes o que gostas o tempo não passa, voa”.
Durante a semana, nas horas vagas do trabalho estive a explorar mapas em papel, complementando esta exploração com mapas digitais, porque no terreno uso um GPS, se bem tento sempre levar na mala uma cópia do mapa estudado durante a semana.
Este sábado, como é habitual acordei com as galinhas. O dia estava ensolarado, mas com algumas nuvens e o projeto mental era ligar a Vila das Capelas ao Lugar das Calhetas de Rabo de Peixe. Pelo que despachei-me e lá fui rumo às Capelas. Aqui chegada, estacionei o carro e observei que o tempo na costa norte não estava com cara de bons amigos, no entanto decidi levar avante o meu plano delineado porque não iria ser a chuva e o vento que me iriam impedir de ir meter em prática o plano previamente estruturado. Sai do carro, certifiquei-me que estava no largo certo, e toca de caminhar que já se fazia tarde comecei por descer uma canada de terra que me levaria à zona das pias antigas (finais do século XIX, a julgar pela data que se encontra no fontanário 1867) das Capelas, era aqui que em outros tempos as senhoras desta freguesia se dirigiam para lavar a roupa, a sua e a das senhoras endinheiradas que pagava para que lhes lavassem a roupa. De referir que esta zona encontra-se em obras de recuperação e requalificação. Deixando as pias passei por uma zona de banhos de calhau rolado, subindo umas escadas cheguei às ruínas da primeira fábrica de baleação da ilha da São Miguel pelo menos é o que tem escrito num azulejo.
Seguindo o trilho passei por vários miradouros, por um moinho de vento (tenho um fascínio por moinhos de vento, este moinho é privado) e pelo caminho desci ao antigo Cais das Laranjas, nada resta deste antigo cais, no entanto quem gosta de fotografar vale a pena fazer o desvio porque lá em baixo existe uma ponta de pedra basáltica com umas pocinhas muito fotogénicas.
De volta ao trilho, mais um desvio desta feita para ir ver um dos portos mais bonitos da ilha, o pequeno porto de pescas das Capelas, que foi construído no século XIX. De notar que na encosta de onde sai o molhe do porto há muitas cavidades nela escavadas de formas regulares (quadrados e retângulos) muitos pensam que aquela cavidades foram escavadas pelas aves que ali nidificam, no entanto estas cavidades foram ali escavadas pelo Homem durante a II Grande Guerra Mundial, para ali se colocarem explosivos, no caso de as tropas inimigas decidirem desembarcar mandar-se rebentar o local, ainda bem que não houve desembarque porque assim salvou-se o porto. Daqui subi ao Morro das Capelas para seguir caminho para São Vicente Ferreira, de referir que toda a área do Morro das Capelas é uma área protegida de gestão de recursos, sendo uma área de interesse geológico e natural, pelo caminho passei por um farolim e por um miradouro.
No entretanto a mãe natureza teimava em não querer colaborar e no cimo do Morro das Capelas ponderei em voltar para o carro, porque até chegar às Calhetas ainda faltavam uns quilómetros grandes, mas o meu espírito aventureiro questionava-me se era o que realmente queria fazer, se seria uma chuva de tolos que molha os discretos e o vento a impedir-me de atingir o meu objetivo e no meio das minhas dúvidas decidi optar por continuar a caminhar a mãe natureza havia de dar uma trégua pensava eu. Apesar de também não ter a certeza se haveria ligação entre Capelas e São Vicente Ferreira, pelo que tinha estudado durante a semana parecia haver, mas teria de passar por um caminho aberto no meio dos campos de cultivo, e assim foi os meus estudos e marcações no mapa estavam certos havia mesmo ligação entre Capelas e São Vicente e cheguei a uma zona conhecida pelo nome de Lugar das Pedras Negras ou Sertão, bom pelo menos foi assim que alguns pescadores com quem falei se referiram a este lugar. Este lugar é muito procurado por pescadores que nas reentrâncias da costa arranjam uma ponta ou uma cavidade para lançarem as suas linhas ao mar, alguns pescam por desporto, outros pescam por necessidade, mas em ambos os casos todos acabam por levar uma refeição para casa. Lembrei-me das épocas em que também eu ia pescar com o meu pai, a verdade é que nunca fui grande pescadora a minha especialidade era pescar peixe que não servia para comer como por exemplo o peixe-sapo. Bom voltando ao que interessa a caminhada por este Lugar das Pedras Negras, encontrei um buraco escavado na encosta do Morro das Capelas, ao qual batizei de buraco das Capelas, uma pequena ponte lávica e várias grutas escavadas na encosta, algumas são acessíveis por pequenos percursos conhecidos pelos pescadores (aqui tomei uma nota mental porque decidi seguir um pescador para o seu “spot” de pesca e atenção as grutas que se conseguem chegar os acessos são extremamente perigosos não sendo aconselhável ir), outras só são acessíveis pelo mar. Voltando ao trilho que não é oficial, é um trilho que foi calcorreado por muitos anos de utilização por parte dos pescadores e gentes locais, caminhei até chegar aos poços de São Vicente Ferreira. Estes poços são uma zona balnear vigiada e já há alguns anos para cá tem vindo a ser hasteada a bandeira azul. Nesta zona antigamente existia um porto de baleação e uma fábrica de desmancha da baleia (atualidade da fábrica só existe a chaminé).
Segui caminho deixando para trás os poços, caminhando sempre junto à costa até chegar à Freguesia dos Fenais da Luz. Ao longo de toda a caminhada encontrei vários pescadores, passando por um pequeno troço de relheiras (marcas dos antigos carros de bois que ficaram gravadas na rocha), mas a paisagem que me acompanhava era deslumbrante, porque finalmente a mãe natureza deu tréguas o sol chegou e passou a ser possível ver a Ponta de São Pedro, a Ponta do Cintrão e a Ponta dos Fenais da Ajuda.
Aqui nos Fenais da Luz existe um buraco que é considerado monumento geológico e é uma zona de nidificação de Garajaus. O buraco de São Pedro é uma cavidade com 30 metros de diâmetro e 40 metros de altura (de louvar que antes que acontecesse desgraça o Governo Regional tenha metido uma proteção). Antes de chegar ao buraco de São Pedro passei pela zona balnear dos Fenais da Luz (não vigiada) e nas imediações deste buraco existe uma pequena ermida de invocação a São Pedro de construção do século XVI.
E 2 quilómetros depois atingia o meu objetivo as Calhetas de Rabo de Peixe, aqui ainda pensei em prosseguir caminho pelo menos até Rabo de Peixe, uma vez que não me sentia cansada, mas acabei por optar não fazê-lo por duas razões, primeira o sol estava alto e quente e segundo o meu meio de deslocação tinha ficado nas Capelas, já estava a 11 quilómetros de distância. Se tivesse decidido ir até rabo de Peixe a distância aumentaria, resumindo todos os quilómetros que fizesse para a frente estaria a gastar energia que seria necessária para voltar ao ponto de partida.
O regresso ao ponto de partida optei por fazer passando dentro das freguesias, o que se revelou ser uma excelente escolha, uma vez que tive a oportunidade de entrar nas igrejas paroquiais dos Fenais da Luz e das Capelas que não conhecia o seu interior.
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