Crónica “Columbário Fenício” da Povoação

Dezembro, pleno inverno na ilha de São Miguel e, no entanto, o tempo continuava a convidar à prática de atividades ao ar livre (no ano transato tivemos um inverno atípico em que pouco ou nada choveu, tendo sido muito raro o fim-de-semana em que não se pude fazer atividades fora de portas).

No último trimestre de 2017 começaram a surgir notícias da descoberta de um columbário Fenício aqui na ilha de São Miguel, dizia-se que o mesmo estava situado na freguesia de Nossa Senhora dos Remédios, na Povoação, mais precisamente numa das margens da Ribeira dos Bispos e que o início do trilho, que levava ao tal columbário, era junto à Ponte Nova. A primeira vez que me desloquei a este lugar foi a 24 de dezembro e desde então já lá fui umas quantas vezes, umas com amigos e outras sozinha. Esta última hipótese proporcionou-me paz, sossego e silêncio para observar o local e, assim, poder ter mais discernimento para pensar /refletir sobre se aquela construção é ou não um columbário. Na minha humilde opinião e tendo eu formação na área de história, a edificação em questão levanta-me sérias dúvidas de que se seja realmente um columbário. Com base naquilo que estudei um columbário, regra geral, é uma cavidade subterrânea com vários compartimentos, nos quais alguns povos antigos colocavam urnas com as cinzas dos seus entes que haviam sido cremados. Até aqui não há problema de maior, uma vez que o local em questão tem alguns compartimentos onde se até se poderiam colocar as tais urnas contendo as cinzas, no entanto a questão que se coloca é a seguinte: Como é possível haver um columbário de tais dimensões e não existirem vestígios de permanência prolongada de uma antiga civilização naquele local?

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Do meu ponto de vista, acho que para existir um local como este para enterrar os mortos, cuja dimensão é relativamente grande, teria de haver, também, vestígios da existência de uma antiga comunidade que ali habitasse de forma permanente, como por exemplo, ruínas de habitações, utensílios de uso quotidiano, uma lixeira, entre outras coisas. Apesar de haver quem refute com a teoria de que os Fenícios atravessavam o Atlântico e que ao fazê-lo paravam na ilha para enterrar os mortos, esta não é uma hipótese muito viável, uma vez que em tempos idos todos aqueles que morriam a bordo de uma embarcação eram atirados de imediato ao mar, de modo a evitar a proliferação de doenças entre a tripulação e as minhas dúvidas em relação ao local se tratar de um columbário ganham ainda mais força devido à sua localização geográfica, visto situar-se a uma distância significativa da orla marítima. Para virem aqui enterrar os mortos, os Fenícios teriam de percorrer uma extensão bastante considerável e desbravar muita mata, o que implicaria gasto de tempo e energia bastante elevados. Para quem argumente que enterravam os mortos naquele local quando vinham à ilha em busca de cedro para a construção dos seus barcos, é verdade que a ilha era rica neste tipo de madeira, contudo, se os ditos barcos fossem construídos cá por certo existiriam vestígios no arquipélago da permanência deste povo, uma vez que a construção de um barco é uma tarefa que demora alguns meses

Para além disto, aquando das minhas explorações ao local observei que na fachada principal da construção há vestígios de dobradiças que parecem ser de fabrico recente e também notei que a mesma foi escavada de uma forma grotesca dando a sensação de ter sido usado para o efeito uma picareta ou escopro. 

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Ainda durante as minhas deslocações a esta área inquiri algumas pessoas que encontrei pelas ruas da freguesia e que todas elas foram unanimes e afirmaram que a referida construção se tratava de um antigo pombal pertença de um moleiro que trabalhava num dos moinhos existentes nos arredores daquela localidade.

Apesar da minha opinião pessoal aqui expressa acerca do columbário, não sou defensora que os primeiros a pisarem as ilhas foram os portugueses, porque não é este o caso, apesar de ter orgulho em ser portuguesa e de, no fundo, querer acreditar que sim, sei que esta hipótese é pouco provável, uma vez que há documentação que atesta que as ilhas já eram conhecidas muito antes dos portugueses aqui chegarem, no entanto, para meu contentamento, fomos os primeiros a colonizar o arquipélago. Acredito ser muito provável que outros povos, ao cruzarem o Oceano Atlântico, tenham aqui passado e parado para se abastecerem de água potável e alimentos, contudo afirmar-se que tenham aqui ficado a viver de forma permanente é uma hipótese que acho pouco provável.

Para finalizar, quero que fique esclarecido que o que aqui escrevi reflete somente a minha opinião pessoal, não é minha pretensão afirmar que a dita construção se trata ou não de um columbário, porque, até que se prove o contrário, a tal edificação poderá mesmo ser um cemitério antigo e se tal se vier a confirmar será uma descoberta fantástica. Posto isto, resta referir que para se chegar a este local demora-se apenas cerca de cinco minutos a caminhar e tratando-se de uma caminhada muito leve, em duas das ocasiões que aqui estive aproveitei para explorar os arredores, uma vez que ainda não conhecia esta freguesia (da qual ainda ficou muito por explorar pelo que conto, em breve, poder voltar). Da primeira vez subi a Ribeira dos Bispos e terminei o meu percurso junto ao Museu do Trigo, pelo caminho encontrei vários moinhos de água, uns melhores conservados do que outros e alguns dos quais ainda conservam as suas levadas. Ao longo da subida da ribeira é possível observar algumas cascatas. Da segunda vez aproveitei para explorar o interior da freguesia acabando a caminhada no Monte Simplício. Durante esta tive a companhia de um amigo que é residente no local, o qual me informou que é possível ver todos os moinhos de água, que tinha encontrado aquando a minha subida da ribeira, da rua principal que leva ao Monte Simplício se fizermos alguns desvios durante o percurso. Contudo, é preciso ter atenção que pelo menos um destes moinhos situa-se em propriedade privada pelo que é preciso autorização para poder atravessá-la.

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Pelo que pude apurar, a Junta de Freguesia de N.ª Sr.ª dos Remédios tenciona abrir um trilho para dar a conhecer os seis moinhos que se situam ao longo da Ribeira dos Bispos, assim sendo, fico a aguardar com alguma expetativa o percurso escolhido para o referido trilho, uma vez que este é um local com muito potencial.

 

Galeria das fotografias legendadas: Aqui     

Nota: Situada numa das encostas da vila da Povoação, a freguesia da Nossa Senhora dos Remédios é constituída pelas Lombas do Loução e Alcaide, tendo sido elevada a esta condição em 1957. O topónimo de “Loução”, atribuído a esta Lomba, teve a sua origem no nome de um habitante local, João de Loução, personalidade dos meados do séc. XVI, que construiu uma caravela numa entrada da bacia hidrográfica da Povoação. Por sua vez, o nome da outra Lomba, indica o lugar onde tiveram assento os Ferreiras de Azevedo que foram alcaides da Vila da Povoação no séc. XVII.


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