Lisboa, 9 de novembro, do ano da graça de 2018, neste dia inicio a minha jornada rumo à terra das especiarias, Índia.
India, the last frontrier! Terra das mil cores! Parto para esta viagem sem expectativas, para não ter depois desilusões, apenas levo comigo espírito aberto para novas experiências, vivências e cultura. Entro no avião sento-me e vem-me ao pensamento, não sei bem porquê, a viagem que Vasco da Gama empreendeu no ano de 1498, a qual o levaria à descoberta do caminho marítimo para a Índia. Obviamente, que em nada se podem comparar as duas viagens, mas lá no fundo em tudo poderão vir a ser iguais, visto que um dos meus objetivos para esta é o de descobrir e explorar a Índia. Assim, deixo-me embalar por estes pensamentos ao longo de toda a viagem.
Aterro em Nova Delhi e acordo de forma brusca para a realidade que aqui se vive. Abate-se sobre a cidade uma nuvem de poluição, há lixo em todos os cantos, pessoas a dormir na rua, muita pobreza e no céu para coroar todo este cenário triste, águias e corvos. Sou invadida por uma mescla de sentimentos, na realidade já estava à espera dum cenário destes. Respiro fundo e encaminho-me para o autocarro que me levará ao hotel.
Apesar de todo este cenário triste, e por incrível que pareça, fico com a sensação de que as pessoas à sua maneira são felizes, mesmo levando uma vida pesada e cansativa. Sigo para o hotel, o trânsito nesta terra é caótico, a condução é ao estilo inglês, pela esquerda. Muito carro com condução agressiva, ninguém respeita as regras e muita apitadela, que quero crer seja para avisar aos outros condutores a realização de alguma manobra perigosa, Contudo, no meio de tamanha confusão deve haver uma espécie de código secreto de conduta, porque para o caos que assisto, o número de acidente não é muito significativo. Depois de ver todo este cenário só me resta admitir que conduzir em Lisboa é muito fácil…
Da passagem por Delhi levo muitas recordações e a sensação de que muito ainda ficou por ver. Dos locais que visitei, encheu-me a alma o Raj Ghat pela simbologia que encerra. Devo confessar que sou uma grande admiradora da filosofia de vida de Mohandas Karamchand Gandhi ou, como é mais conhecido, Mahatma Ghandi.

Estava na hora de partir rumo ao estado de Rajastão (cidade do rei) e deixar para trás Nova Delhi. Jaipur, a cidade que visitei é bastante mais limpa quando comparada a sua congénere anterior e o trânsito também é um pouco mais calmo, ouvem-se menos buzinadelas. No entanto, é preciso mencionar que nesta localidade há zonas onde buzinar é proibido.
Nesta cidade fiquei dois dias, que foram bastante agradáveis. Comigo trago o Forte de Amber, nos seus tons térreos e amarelados, no cimo da Colina das Águias, sendo praticamente impossível ignorar a sua grandiosidade, que é, em parte, representada através dos seus muros que se estendem pela paisagem de Jaipur. Enquanto subia para chegar ao forte não consegui evitar que a minha imaginação viajasse e se perdesse na fantasia de como teria sido a vida dentro daquele edifício no tempo dos marajás, mas logo fui acordada pela realidade com vendedores de rua que do nada aparecem e quase impedem de avançar na direção do forte.
Aqui na Índia tudo fica longe de Jaipur a Kalakho, a minha próxima paragem são duas horas de viagem de autocarro, mas vale a pena fazer um desvio e, consequentemente, uma paragem em Kalakho. Ainda antes de deixar o Rajastão tempo houve para ir visitar o Chand Baori, famoso por ser uma construção, inacreditavelmente, geométrica. Este edifício tem onze níveis de escadas e uma profundidade de 20 metros. O mesmo já foi escolhido por algumas grandes produções de Hollywood para rodar cenas dos seus filmes, a destacar Batman, o Cavaleiro das Trevas e o Exótico Hotel Marigold.

Deixo o Rajastão já com saudades e sigo para Kalakho, ao longo da viagem de ligação vem-me à memória o Mr. AshoK, personagem do livro “O Tigre Branco”, de Aravind Adiga, no qual assassina o seu patrão. Nesta viagem já só me faltava matar o patrão, roubar-lhe a fortuna, fugir para outro estado e começar uma vida nova, porque tudo o resto que é referido na história, desde o ver gente a urinar e defecar em via pública, ver as lojas de uísque, multidões de gentes nas ruas e animais a passear a seu belo prazer, já eu tenho vivido e visto em tão poucos dias de viagem. Reconheço que ver tanta pobreza já me começava a afetar pelo que nesta viagem de ligação decidi que seria melhor fazer uma introspeção e tornar todos os pontos negativos em energia positiva, levantar a moral e deixar fluir, porque ainda faltavam muitos dias para que a viagem acabe e foi mesmo o que decidi fazer. Chegada a Kalakho com a moral e o espírito nutridos, tive a melhor experiência de vida que alguma vez me foi proporcionada. Tive a honra de poder privar com pessoas puras de coração dispostas a partilhar o pouco que têm, coisa que nos dias que correm seria impensável, porque cada vez mais o ser humano vive fechado no seu mundo e pouco disposto a partilhar. Vivemos numa selva de egoísmo, na qual ninguém pensa nos sentimentos do próximo, estando a maioria preocupada apenas consigo própria. A partir da minha passagem pela cidade Kalakho devo confessar que a minha vida mudou e, dificilmente, voltará a ser o que era.
Saio de KalaKho e rumo a Agra, mas vou com o coração cheio e acreditando que nem tudo está perdido neste Mundo.
Agra, a cidade que todos os românticos convictos, como é o meu caso, devem visitar pelo menos uma vez na vida. Aqui o amor verdadeiro está eternizado, através do Taj Mahal (o nome “Taj”, é de origem Persa e significa Coroa; “Mahal” é arábico e significa lugar). Apesar de toda a simbologia que encerra o local confesso que em nada me impressionou, bem pelo contrário, uma vez que o sítio escolhido para descanso eterno, onde supostamente deveria reinar o silêncio e a paz, transformou-se num “mercado”, pilhado de pessoas que em tudo se assemelham a “sardinhas enlatadas”, gentes a falar e a andar por tudo o que é lado. Dentro do Taj Mahal, no local onde se encontram os túmulos, há um homem de apito na boca, que pouco a pouco apita para que as pessoas avancem. Shah Jahan e Mumtaz Mahal devem estar às voltas nos seus túmulos, uma vez que o seu lugar sagrado foi brutalmente profanado, o ruído que ali se faz sentir elimina qualquer tipo de privacidade e sossego para que possam prosseguir com a sua história de amor. Saio do Taj de coração apertado e até mesmo desiludida por não ter conseguido absorver o local, sinto que também eu própria contribui para o distúrbio da paz local.
Na manhã seguinte sigo para o Forte de Agra local onde Aurangzeb prendeu o pai Shah Jahan que aí ficou contemplando a sua grande obra até à data da sua morte.

A última paragem desta minha jornada é em Varanasi. Varanasi, o expoente máximo da pobreza. Aqui existe um cheiro e uma atmosfera muito própria. Nesta cidade espero conseguir finalmente fazer as pazes com a minha espiritualidade, sigo viagem deixando que tudo flua não me metendo restrições ou proibições, pois de que vale querer fazer as pazes com a espiritualidade e andar a impor-me limites. Aqui desloco-me ao Rio Ganges e visito um Ghat e um crematório, se no primeiro encontro o ponto alto da exteriorização da religiosidade hindu, no segundo, encontro o êxtase de quem parte para o eterno descanso e deixo-me ali ficar no rio a refletir sobre a minha vida enquanto o sol vai subindo na linha do horizonte. Este último dia pela terra das especiarias foi muito intenso para mim. Para finalizar este longo dia dirigi-me ao Ganges e assisti a uma oração Hindu, gente e mais gente, tanto nas margens, como no rio, a presenciar esta cerimónia e confesso, não sei se pelas rezas cantadas associadas a danças, senti uma paz interior muito grande.

E num ápice estava na hora de regressar a casa, parto de coração cheio e ainda mais consciente que a vida é muito curta para andarmos a complicar. Agradecida por tudo o que tenho na vida e a pensar que por mais problemas que tenhamos há sempre alguém que vive numa situação pior que a nossa.
Já no aeroporto enquanto esperava para entrar no avião veio-me ao pensamento o primeiro viajante global Marco Polo. Recordo-me que no seu diário este refere os habitantes da Índia e pelo que vivi vem-me à memória que desde os tempos idos de Marco Polo até à atualidade, à exceção das novas tecnologias, que chegam a todas as parte do planeta, pouco ou nada mudou na cultura indiana, as pessoas continuam a sentar-se no chão para conversarem, mantém-se a existência de uma ligação muito grande entre os membros do agregado familiar, há uma grande variedade de recursos naturais e, acima de tudo, as pessoas continuam a ser afáveis e calmas. A índia é um país muito rico, mas ao mesmo tempo muito pobre. Entro no avião e despeço-me, parto já com muitas saudades e com muita vontade de voltar!!! Até breve Índia e Namastê!!!
Nesta jornada que aqui partilho, conto a experiência pessoal e privada da minha passagem pela Índia, no entanto, devo referir que realizei esta viagem em grupo. Desde já gostava de deixar um agradecimento a todos que fizeram parte deste grupo, conheci pessoas fantásticas que em muito me vieram enriquecer a todos os níveis. Quero também deixar um agradecimento ao nosso guia local, o Vikas, pela simpatia e partilha de conhecimentos e por último, mas não menos importante, agradeço de forma muito especial ao “Viaja Comigo da Susana Ribeiro”, foi graças ao seu enorme empenho, dedicação e esforço que a viagem foi um sucesso! Um bem haja a todos e espero que os nossos caminhos se voltem a cruzar muito em breve!!!
Galeria das fotografias legendadas: Aqui