As relheiras do Cabrito na Ilha Terceira, Açores

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Desperto e estou na ilha lilás, outrora no século XIX a Terceira foi declarada a capital do Império português por D. Pedro IV de Portugal (primeiro no Brasil), que aqui se encontrava refugiado devido à Guerra Civil (de 1828 a 1834).

O dia está bastante ameno pelo que aproveito para ir esticar as pernas pelas ruas da cidade da Praia da Vitória. Esta cidade está situada à beira-mar e o seu centro histórico conserva um interessante património arquitetónico de casas seculares, com curiosos trabalhos em cantaria e belas janelas e varandas. Nesta cidade nasceu e viveu o poeta e romancista Vitorino Nemésio, quem nunca leu um dos seus livros mais emblemáticos “Mau tempo no Canal”. Por aqui um dia também se passeou Charles Darwin (naturalista britânico que escreveu a famosa teoria da evolução por meio da seleção natural e sexual), que aquando a sua passagem pela ilha descreve esta cidade no seu diário dizendo que se tratava dum pequeno, calmo e abandonado lugarejo, outrora ocupado por uma grande cidade destroçada por um terramoto (24 de maio de 1614) e que devido a este e segundo os locais, a terra se havia abatido e que a prova disso era o facto de que as paredes de um convento serem agora banhadas pelo mar. Darwin não duvidou de que a terra se tivesse abatido na zona da cidade, mas considerou a prova que lhe era apresentada pouco convincente. Na atualidade, a cidade da Praia já não é mais um lugarejo abandonado e calmo, tornou-se um local bastante movimentado.

Como terei o dia livre e para ocupar o tempo decido subir até à Serra do Cume (545 metros acima do nível do mar), lá no topo existem dois miradouros com elevado interesse paisagístico, que oferecem uma das mais belas vistas sobre as paisagens da ilha: de um lado observa-se a cidade da Praia da Vitória com a sua baía e a Base Aérea das Lajes e, do outro lado, a grande planície do interior da ilha, com os seus típicos “cerrados”, separados por muros de pedra vulcânica e hortênsias.

No dia seguinte, tenho a companhia da minha irmã e para passarmos algum tempo de qualidade decidimos ir à descoberta das Relheiras do Cabrito, ou, como são conhecidas entre os locais, “a passagem das bestas”. Desde que se deu a redescoberta destas relheiras que as mesmas passaram a ser assunto de alguma discussão e até de alguma discórdia, uma vez que há quem afirme que a ilha Terceira, pode ou poderia ter já sido habitada mil anos antes da descoberta e colonização efetiva por parte dos portugueses. Toda esta discussão deve-se às análises realizadas ao material que se encontrava depositado no interior das relheiras aquando da sua limpeza que não eram nada mais que cinzas do vulcão do Pico Alto e pelo que se tem conhecimento a última erupção deste vulcão aconteceu há mil anos. Apesar de ser a favor de que as ilhas eram conhecidas mesmo antes dos portugueses cá chegarem, uma vez que existem mapas que o provam, no entanto, é de referir que não acredito que tenha havido povo a viver nas ilhas de forma efetiva antes dos portugueses virem povoar as mesmas, até porque como é sabido por onde o Homem passa deixa sempre marcas. Assim sendo, penso deveria existir na ilha prova de construção de casas, cemitério, lixeira, até mesmo utensílios de uso quotidiano, entre outros. Não acredito que por existir cinzas de um vulcão dentro das relheiras, cuja última erupção conhecida tenha cerca de mil anos, prove que a ilha já fosse habitada, uma vez que estas cinzas podem ter sido ali depositadas de diversas maneiras, como por exemplo, enxurradas, ventos fortes, entre outros. Contudo, devo mencionar que tomei conhecimento da existência destas relheiras quando li o diário de Charles Darwin “Voyages of the adventure and Beagle, Volume III”, que escreve o seguinte: “…Notei em vários lugares que a lava sólida, que em parte formava a estrada, existe sulcos com a profundidade de doze polegadas (trinta centímetros) do longo tráfego das carroças de bois. Esta circunstância foi notada com surpresa na antiga calçada de Pompeia, pois não ocorre em nenhuma das cidades atuais da Itália. As rodas das carroças aqui são protegidas por um aro de ferro; talvez as velhas rodas romanas fossem iguais…”. As mesmas estão localizadas na Caldeira de Guilherme Moniz, que é uma área protegida de gestão de recursos, caraterizada pelos matos macaronésicos e turfeiras, as quais asseguram a recarga dos aquíferos deste complexo vulcânico com cerca de vinte e três mil anos. Esta caldeira é a cratera do vulcão Morião (extinto na atualidade) e está situada no coração da ilha Terceira, sendo a maior que existe em todo o arquipélago dos Açores tendo cerca de 15km de diâmetro. Nesta área também pode observar-se pastagens naturais de gado bravo.

Para quem não sabe, as relheiras são sulcos deixados no solo rochoso mais plano devido à passagem das rodas de carros de bois de forma regular.

E lá fomos nós deslizando até à Terra Brava para ir ver as relheiras da discórdia e de Darwin, não demos com o local à primeira passagem e só após a segunda passagem, a minha irmã deu com um placard daqueles que indicam o início dum trilho oficial, parámos o carro e fomos espreitar, sim espreitar porque o placard ainda não tinha a informação, mas já tinha a sinalização colocada. Assim, decidimos que iriamos seguir a sinalização e ver aonde nos levaria, mal iniciamos a caminhada encontramos logo as relheiras e devo dizer que fiquei surpreendida com as mesmas, uma vez que já tinha visto relheiras, no entanto, assim tão profundas nunca tinha visto, o que me levou a pensar na vida dura de outros tempos onde as pessoas se viam obrigadas a ir ao mato recolher lenha para cozinhar e mesmo para se manterem aquecidas, o quão as coisas já evoluíram e nós que temos tudo facilitado, infelizmente não valorizamos. Deixando de parte os meus pensamentos, seguimos com a caminhada que nos levou a uma encosta ingreme que no cimo temos vista para a Serra do Cume. Prosseguindo caminho e seguindo a sinalização passámos por um pasto e por um mato de criptomérias que nos levou até à Serra do Morião, penso seja um dos pontos mais altos deste trilho e desta ilha, a partir deste ponto o caminho é, praticamente, sempre a descer passando por uma mata de plantas endémicas (urze e cedro-do-mato). De destacar no caminho descendente dois locais que achei fantásticos, o primeiro é o sítio no qual se pode observar a Terra Brava, todos os seus pastos e o gado bravo, que mesmo ao longe são uns animais com um porte soberbo. O segundo local, é uma zona onde se pode observar a imensidão da Caldeira de Guilherme Moniz. No final da descida e após caminhar mais um pouco por entre vegetação endémica chegámos novamente às relheiras e daqui fomos para o carro.

Devo confessar que o intuito deste texto era ter saído antes da inauguração oficial do trilho, mas infelizmente não me foi possível. O trilho foi oficialmente inaugurado a 12 de junho de 2018, chama-se Passagem das Bestas PRC7 TER, está classificado como sendo de nível médio, tem uma extensão de 4 quilómetros e a duração de 2h30m horas. Eu e a minha irmã confesso que concluímos o trilho em menos tempo, no entanto os trilhos são classificados por uma estimativa geral tendo por base o maior número de pessoas que possa vir a fazer o trilho.

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Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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