2019, ano escolhido para tirar da calha um projeto que já há alguns anos ambicionava levar a cabo, percorrer a rota que liga as Aldeias Históricas de Portugal (programa criado em 1991 pelo Governo português, o qual restaurou as seguintes aldeias da Beira Interior: Linhares da Beira, Piódão, Castelo Novo, Idanha-a-Velha, Monsanto, Sortelha, Belmonte, Castelo Mendo, Almeida, Castelo Rodrigo, Marialva e Trancoso). Estas são antigos núcleos urbanos cuja sua fundação precede a nação portuguesa, sendo que a maioria delas ergue-se em terras altas, uma vez que o intuito era a defesa das populações e dos territórios conquistados. Destacam-se pela sua arquitetura militar e na sua maioria estão cercadas por uma muralha, tendo as mesmas se desenvolvido próximo dum castelo. Por estes dias, nas Beiras vive-se um clima de paz e sossego, mas em tempos idos por aqui passaram muitas batalhas e conquitas, que foram moldando a fronteira entre Portugal e Espanha.
Assim, nos próximos dias irei vestir a pele de D. Afonso Henriques, o nosso rei conquistador, e partir à conquista destas 12 aldeias. A minha primeira conquista desta rota leva-me a Linhares da Beira. Esta encontra-se na meia-encosta nordeste da Serra da Estrela, no concelho de Celorico da Beira, Guarda. Linhares da Beira, é uma vila de fundação medieval, isto apesar de ter sido habitada por povos pré-romanos e de existir registo escrito da passagem de romanos, visigodos e muçulmanos. A história desta aldeia tem origem na Reconquista Cristã, recebendo o seu primeiro foral no ano de 1169, de D. Afonso Henriques. Passear pelas suas ruas estreitas é fazer uma viagem ao passado, o majestoso castelo, mandado construir por D. Dinis, no cimo dum cabeço rochoso é sem dúvida o ex-libris deste local, daqui se desenvolve toda a malha urbana onde é possível ver muita arquitetura do estilo Manuelino. Hora de seguir viagem, porque ainda falta conquistar muitas outras aldeias históricas. A próxima paragem leva-me a Piódão que se situa numa encosta da Serra do Açor, concelho de Arganil, é a chamada “Aldeia Presépio” de Portugal. Para aqui se chegar é preciso combater a estrada cheia de curvas e contracurvas que atravessa toda a serra. Esta aldeia caracteriza-se pelas casas construídas em xisto, com coberturas de lousa e com portas e janelas pintadas de azul. No entanto, aqui e acolá já se vão encontrando algumas habitações descaraterizadas, principalmente, a nível das coberturas, nas quais é utilizada a telha, outro fator que evidencia a perda de identidade deste tipo de construções é a presença de inúmeras antenas de receção do sinal televisivo, que se veem nos telhados e confesso, ao encontrar neste local, não consigo sentir o encantamento e muito menos imaginar os contos de fadas que se leem sobre Piódão.
Sigo com a campanha da expugnação das aldeias históricas que me leva às três aldeias que mais me encantaram Castelo Novo, Idanha-a-Velha e Monsanto. Castelo Novo localiza-se na meia encosta nascente da Serra da Gardunha, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco. Pensa-se que este território já fosse ocupado no Neolítico. No século XIII é conquistado aos muçulmanos e para assegurar o seu domínio e povoamento é doado à Ordem dos templários, após a extinção desta ordem esta localidade passa para as mãos da Ordem de Cristo. Em 1510, D. Manuel I doa-lhe o seu primeiro foral.

José Saramago, em Viagem a Portugal refere que Castelo Novo “é uma das mais comovedoras lembranças do viajante. Talvez um dia volte, talvez não volte nunca, talvez até evite voltar, apenas porque há experiências que não se repetem.” e eu acrescento que é uma aldeia muito encantadora, onde tudo inspira e cativa. Tem um património arquitetónico singular, que vai desde o castelo mandado erigir por D. Sancho I, no século XIII, passando pelo chafariz adossado ao antigo edifício da câmara municipal, mandado construir por D. João V, com o ouro que vinha do Brasil, o pelourinho (Séc. XVI), a lagariça (séc. VII ou VIII), a pedra da forca e uma calçada romana que atravessa toda a aldeia. Por todos estes locais e mais alguns que ficaram por mencionar, Castelo Novo merece uma visita demorada para que se possa apreciar com calma todos os pormenores que esta tem para oferecer. Idanha-a-Velha pertence ao concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco e é o epíteto das estações arqueológicas de Portugal. Esta ergue-se no antigo espaço da cidade romana Egitânia (séc. I a.C.) e para quem como eu adora arquitetura romana aqui é garantido que vai perder a cabeça e vai querer ficar para poder absorver todos os pormenores, fazendo com que a hora da partida seja dolorosa, uma vez que contempla uma grande variedade de arquitetura romana, desde a típica calçada romana, a ponte e a casa. Para além das atrações arquitetónicas existem vestígios de diversas épocas que provam a constante ocupação deste local, a destacar o pelourinho, a torre dos templários, a igreja de Santa Maria (Sé Catedral) e a Igreja da Matriz, antiga Misericórdia, entre outros. Tempo de seguir viagem e foi com grande tristeza que deixei a aldeia de Idanha-a-Velha, mas levei comigo a certeza de que irei voltar para acabar de absorver a riqueza arquitetónica que aqui existe. Próxima paragem leva-me a Monsanto, esta situa-se a nordeste da Terra de Idanha e ergue-se numa das encostas do cabeço de Monsanto (Mons Sanctus), cujo seu ponto mais alto atinge os 758m, é neste lugar que se encontra a zona mais antiga desta aldeia e foi aqui que os templários construíram uma cerca e uma torre de menagem. A história deste território remonta aos tempos do paleolítico. No entanto a sua integração no território português deu-se aquando D. Afonso Henriques o conquista aos mouros e doa-o, em 1165, à Ordem dos Templários. Foi o nosso conquistador que concedeu, em 1174, o primeiro foral a esta aldeia. Este foral foi sucessivamente confirmado por D. Sancho I (1190) e D. Afonso II (1217). D. Dinis deu-lhe Carta de Feira, em 1308, e El-Rei D. Manuel I outorgou-lhe Foral Novo (1510), passando assim a categoria de vila. Monsanto é uma das aldeias mais conhecidas de Portugal e isto deve-se ao facto de ter ganho em 1938 o prémio de Aldeia mais Portuguesa de Portugal, título ao qual faz jus, uma vez que é muito bonita, cativante e conserva o seu traçado original, sendo que as casas incorporadas em grandes rochedos são a sua imagem de marca. De referir, que esta aldeia, à semelhança de Piódão, também já começa a ostentar um número bastante significativo de antenas para receção do sinal televisivo. Aquando da minha passagem pela mesma estava a decorrer um abaixo-assinado para que não se autorizasse a instalação de mais antenas, o que é de louvar, uma vez que nos dias que correm há outras formas para além das antenas para se receber o sinal televisivo. É, ainda, de mencionar, que Monsanto não tem só como cartão-de-visita o Castelo, passear pelas ruas é reviver a sua história enquanto aldeia medieval. Nesta pode-se observar um pelourinho, uma torre de relógio e ainda conserva a porta nascente da muralha por onde em tempos idos passavam os que vinham à aldeia, entre outras atrações.
A campanha de conquista ruma a Penha Garcia, que nada mais foi que um mimo, uma vez que esta aldeia não faz parte da rota das Aldeias Históricas de Portugal, mas se me perguntarem se vale a pena fazer o desvio, eu responderei que sim, vale e muito fazer o desvio. Penha Garcia, consta que tenha sido habitada desde os tempos da pré-história, mas só recebeu o seu primeiro foral no século XIII, de D. Afonso III, se bem a construção do castelo seja do tempo de D. Sancho. Como estava com o tempo contado optei por fazer parte de um trilho pedestre que passa pelas zonas mais importantes, assim tive a oportunidade de visitar o castelo, ver a barragem e os moinhos de água, que só funcionam para deleite dos turistas e ainda visitei a igreja de Nossa Senhora da Conceição. Penha Garcia, é uma aldeia que merecia que se passasse mais umas horas a passear pelas suas ruas estreitas, porque muito ficou por ver.
Deixo Penha Garcia sigo para Sortelha, que recebeu o seu primeiro foral em 1228, de D. Sancho I. É também nesta data que foi construída a primeira cerca do castelo, sendo a segunda cerca obra de D. Fernando e, no século XVI, D. Manuel I renova o foral desta aldeia. Esta está localizada no topo de um monte, com 760m de altitude, no concelho do Sabugal, distrito da Guarda e mantém até hoje o seu traçado original medieval com ruas estreitas e sinuosas, e devo confessar que ao atravessar a Porta Nova fiquei pasmada com o que vi dentro da muralha, parecia ter feito uma viagem no tempo, as casas de pedra todas elas irrepreensivelmente bem conservadas e para completar o cenário só faltou mesmo os cavaleiros medievais a passearem pelas ruas. Já José Saramago quando refere Sortelha em Viagem a Portugal diz que: “Entrar em Sortelha é entrar na Idade Média”. A aldeia é pequena, mas tem muito para ver desde o pelourinho, as igrejas, a muralha, que tem a curiosidade de ser ondulante (foi a primeira vez que vi uma muralha ondulante), entre outras. Nas imediações da muralha há muitas formações geológicas com formas curiosas, como por exemplo, a Rocha do Beijo ou a mais famosa de todas, a Cabeça da Velha. Para grande tristeza minha era tempo de abraçar outra vez a estrada e rumar a Belmonte, era grande a minha expectativa em relação a este local, no entanto, esta saiu gorada, mal aqui cheguei pareceu-me que a minha jornada de conquista de território tinha acabado e que o filme ia mudar.

Belmonte, situa-se na Cova da Beira, com vista sobre a Serra da Estrela, o seu nome está ligado ao monte onde se ergue a vila (monte belo ou belo monte), há ainda quem diga que o nome venha de “belli monte”, que significa monte da guerra. Esta aldeia recebe o seu foral (1199) do nosso rei lavrador, D. Dinis. Este foral teve como objetivo repovoar a região fronteiriça. É nesta aldeia que se consagra a independência do reino. Ainda há que mencionar que Belmonte tem uma forte ligação ao Brasil, foi aqui que nasceu Pedro Álvares Cabral, o homem que descobriu o caminho marítimo para o Brasil, em 1500. Além desta ligação a terras de Vera Cruz, também existe uma forte ligação à comunidade judaica.
Tal como suspeitava, a minha conquista de território, ao bom estilo D. Afonso Henriques, tinha acabado. Belmonte já é uma aldeia muito comercial, totalmente virada para o turismo, muitos museus para visitar e todos com qualidade. O antigo castelo encontra-se em ruínas, mas decidiram fazer umas obras de intervenção para recuperar o mesmo. No entanto, estas obras acabaram por se revelar mais prejudiciais que benéficas, porque a intervenção feita acabou por descaracterizar por completo o castelo, salvou-se, somente, uma janela de estilo Manuelino. Em redor do referido castelo há todo um conjunto de igrejas. Saindo do centro desta aldeia é possível visitar uma antiga vila romana, a Quinta Fórnea, cuja sua construção data talvez do século II. No entanto, esta quinta, à semelhança de outros monumentos portugueses, não recebe o devido tratamento e quando a fui visitar ostentava um ar de abandona, na qual se podia observar erva já bastante alta a tomar conta do recinto. Outro monumento do tempo dos romanos existente em Belmonte, é a Centum Cellas, de construção do século I. Este edifício é enigmático, uma vez que não se sabe ao certo qual era a sua função, há quem diga fosse um acampamento militar e outros afirmam que se trata de uma prisão ou uma antiga vila. Sigo viagem que me leva Castelo Mendo, localizado no concelho de Almeida, distrito da Guarda. Nesta aldeia, tanto o castelo, como o foral datam do século XIII e são da autoria de D. Sancho II. No portão, que dá acesso ao interior deste edifício, existem duas figuras zoomórficas esculpidas em pleno relevo comumente conhecidos como os “Berrões”. No interior da muralha, as ruas são estreitas e apesar de ser uma aldeia pequena, é muito acolhedora e simpática. Daqui sigo viagem rumo a Almeida cujo nome é provavelmente de origem árabe, devido à sua localização ser num planalto, os árabes chamavam-lhe Al-Mêda (a Mesa), Talmeyda ou Almeydan (de onde derivou para Almeida). Esta tem uma carga histórica muito grande devido ao seu posicionamento estratégico e geográfico, tendo sido, por este motivo, palco de muitas batalhas. O território onde se encontra localizada Almeida é habitado desde os tempos do Paleolítico. A muralha que a protege tem uma forma muito peculiar de uma estrela de 12 pontas. No interior desta mesma muralha ainda resiste a ruína do castelo mandado construir por D. Dinis, no século XIII. Esta aldeia, na atualidade, preserva um número significativo de edifícios militares e uma arquitetura civil de manifesto interesse.
A próxima paragem leva-me à aldeia de Castelo Rodrigo localizada no topo de uma colina com vista para o vale do Côa, no distrito da Guarda. É um local bastante conhecido, por ser um ponto de passagem dos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. Este território passa a fazer parte de Portugal em 1297, aquando da assinatura do Tratado de Alcanizes, no reinado de D. Dinis. Castelo Rodrigo é uma vila pequena, mas muito encantadora que conserva no interior da sua muralha importantes referências no plano medieval, feito de casas de arquitetura manuelina e árabe, as ruínas do seu castelo e de um antigo palácio destruído após a Restauração pelo povo, uma cisterna medieval, um pelourinho quinhentista e a igreja matriz, entre outros locais de interesse. Este local, à semelhança de outros visitados por mim, também reflete toda a história de um território fronteiriço.

A penúltima paragem desta rota leva-me a Marialva, que está localizada no distrito da Guarda, a apenas 7 km da cidade de Mêda. Esta aldeia já devia ser povoada antes da ocupação romana, mas foi D. Afonso Henriques que iniciou o seu repovoamento, concedo-lhe a carta de foral, em 1179. Em 1200, D. Sancho I reconquista este território e é por esta época que o povo começa a viver fora da muralha. Em 1286, D. Dinis cria nesta aldeia uma feira, que, na atualidade, é uma das mais antigas do país. O Foral Novo concedido, em 1512, por D. Manuel, transforma este lugar numa Praça Forte importante no reino para a defesa da fronteira. A Marialva é constituída por três núcleos: a Cidadela ou Vila, no interior do Castelo, que, neste momento, se encontra despovoada, o Arrabalde, que prolonga a vila para lá da muralha e a Devesa, que fica a sul da cidadela, e sobre uma antiga cidade romana, estendendo-se até à ribeira, através da planície. Passear pelas suas ruas é como se estivéssemos a ter, tranquilamente, uma aula de história em direto.
Estava a aproximar-se o final desta minha jornada, enquanto D. Afonso Henriques, pela rota das Aldeias Históricas de Portugal, só faltava Trancoso, mas estava a ver que não iria conseguir concretizar o meu plano e que a ida lá teria de ser adiada para uma próxima oportunidade. No entanto, não tencionava desistir facilmente do meu objetivo de visitar esta aldeia histórica. O mesmo foi alcançado, tendo apenas sido necessário fazer alguns ajustes no roteiro, tornando-o um pouco mais rápido. Trancoso encontra-se localizado no distrito da Guarda, no cimo de um planalto, de onde se avista um extenso território, entre a Serra da Estrela e o Vale do Douro.
Esta talvez seja a aldeia histórica que encerra em si muitas páginas da história de Portugal. Este território, no século X, cai nas mãos dos muçulmanos, durante as campanhas de Al-Mansur. Contudo, em 1159 passa a fazer parte do Condado Portucalense, aquando das guerras de reconquista e, em 1160, D. Afonso Henriques confirma esta integração concedendo-lhe um foral, que mais tarde, em 1217, é confirmado por D. Afonso II. No século XIII, Afonso IV cria nesta aldeia uma feira franca. Foi aqui que D. Dinis casou com Dona Isabel de Aragão. Na crise de 1383-85 Trancoso fica do lado de Mestre de Avis. Poderia escrever muito mais sobre a rica história desta, então, vila, que, atualmente, é uma cidade, no entanto, opto por ficar por aqui, uma vez que já foram mencionados os factos mais importantes.
Em Trancoso fiz uma chamada visita encurtada, uma vez que passei apenas pelos monumentos mais importantes, como o castelo, a torre de menagem, a praça de D. Dinis, a Igreja de São Pedro, a Igreja da Misericórdia e a famosa casa do Leão de Judá.
Finalizado que estava o roteiro que tracei, estava na hora de regressar ao Porto e dar por finda a minha aventura pelas Aldeia Históricas. Foi uma viagem cansativa, mas, para ser sincera, voltava a repeti-la, uma vez que bastantes coisas ficaram por ver. Parto, mas levo em mim uma enorme vontade de voltar! O nosso país tem imensos locais maravilhosos para se visitar.
Nota: É de referir que este relato que aqui faço é a minha versão desta jornada, a qual não realizei sozinha, aos meus companheiros de viagem resta agradecer a paciência que tiveram para comigo e dizer que sem a vossa companhia esta viagem não teria sido a mesma coisa, porque vocês estão sempre a acrescentar-me e a enriquecer-me a todos os níveis. A vocês o meu muito obrigado, são de valor. Até breve!
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