A subida ao ponto mais alto de Portugal, a montanha do Pico com 2351m de altitude, é um desafio bravio e de uma beleza deslumbrante. Imersa, nesta beleza a pessoa vai fazendo a subida ao engano. Para quem não tem preparação física torna-se uma tortura misturada com um calvário, principalmente, na descida quando se chega à zona conhecida pelo Vale das Quedas, assim chamado por ser a zona da “cascalheira”, na qual se dão muitas quedas que deixam sempre marca, aquela pedra corta…
São 7 horas da manhã, dia 22 de agosto e já me encontro no sopé da casa da montanha a contemplar a majestosa montanha. Veem-se pontos de luz a movimentarem-se pelo trilho, parecem pirilampos, mas não, são os que já partiram na subida para tentar apanhar o nascer do sol no piquinho. O dia apresenta-se promissor, céu, praticamente, limpo e no meio da minha concentração para iniciar a subida ouço a guia a dar as explicações acerca do modo como irá decorrer a mesma e o que devemos ou não fazer. Por fim, diz que somos um grupo de sorte por apanharmos um dia assim. Pegamos nos bastões e começamos a caminhar (para esta subida decidi ser acompanhada por uma guia da montanha de modo a ter a certeza que o percurso seria feito pelo caminho, digamos, mais fácil, seguindo sempre dentro do trilho para que a nossa passagem por este local não deixasse marcas e preservasse a flora endémica característica da montanha. O cheiro a tomilho bravo pela fresca da manhã é tão agradável).

A subida foi muito encantadora, com tempo para observar os pássaros, que sobrevoam donos e senhores da montanha e as ovelhas que por ali andam a pastar, isto durante as paragens feitas para repor energias e confraternizar. Não subimos à velocidade da luz (levamos perto de duas horas e meia), mas em compensação tivemos muitos momentos de pura diversão e de entreajuda.
A montanha do Pico está classificada desde 1982 como Reserva Natural. Esta é o resultado de três erupções vulcânicas, cuja última data de 1720. É bom recordar que a montanha é um vulcão que se encontra, na atualidade, adormecido. A lembrar-nos isso mesmo podemos observar um cone de lava de 70m que se eleva no interior da cratera central, que ao escalarmos passamos por uma zona de fumarolas, cujo cheiro a enxofre não passa despercebido. De mencionar que à medida que vamos subindo a montanha a vegetação vai escasseando, isto acontece porque a fauna que existe naquele local não se reproduz a altas altitudes.
Chegados à cratera central formada na segunda erupção, conhecida como o Pico Grande, deparamo-nos com um cone de lava, o Pico Pequeno ou Piquinho, este é fruto da terceira e última erupção e para se chegar ao ponto mais alto de Portugal é preciso subi-lo. No cimo do Piquinho há um marco geodésico no qual se lê a seguinte inscrição: “1994”, foi aqui que almoçamos com uma vista deslumbrante sobre as ilhas do Faial, São Jorge, Graciosa e a, tímida, Terceira.

Uma vez repostas as energias, nesta curta paragem para almoçar. Sim, curta paragem uma vez que não convém fazer paragem muito longas para as pernas depois não ficarem muito fatigadas, era tempo de descer. A descida é bem mais complicada e pesada para as pernas, não convém ir a um ritmo muito rápido, mas também não convém ir a um ritmo muito lento, há que encontrar um ritmo que não faça doer muito as pernas, porque ao chegar ao famoso Vale das Quedas é-se posto, verdadeiramente, à prova e é aqui que a perícia dos guias ajuda e muito. O provérbio que diz: “A descer todos os Santos ajudam!” não se aplica a esta descida, que é sem dúvida muito técnica. Os bastões, que reclamei para levar na subida, na descida foram sem dúvida uma mais-valia.
Seis horas e quarenta e cinco minutos foi o tempo que necessitamos para percorrer os 45 marcos de madeira cujo percurso perfaz um total de 9,5km.

Resta referir que quem decida subir a montanha certifique-se que respeita a Carta de Princípios de Escalada à Montanha do Pico, não ande fora do trilho porque dependendo das condições climatéricas pode perder-se com facilidade e evite sempre o pisar a vegetação que é endémica, algumas das plantas que embelezam a montanha, como por exemplo, uma subespécie endémica o Bremim da Montanha (Silene uniflori ssp cratericola) só existe nesta zona. É preciso não esquecer que todas as vezes que desrespeitamos as regras a montanha é que sofre. Se na atualidade é-nos possível subir à montanha pode ser que de futuro as subidas, principalmente, ao Piquinho comecem a ser proibidas tudo graças à falta de respeito dos humanos pela natureza. Seria bom que as próximas gerações pudessem continuar a usufruir das mesmas regalias que nós, entre as quais as subidas à montanha.
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