Zadar, a cidade museu.

O dia acordou solarengo, a road trip já ia meio e começo a sentir a nostalgia a instalar-se. Este poderia ter sido um dia igual a muitos outros, mas não estava destinado a ser ou não estivesse eu a despertar em Zadar, que é como acordar dentro dum museu. Quase não precisava sair do local onde estava hospedada para visitar o centro histórico, uma vez que bastava abrir a janela e este encontrava-se mesmo ali à frente de mim.

Zadar situa-se na costa adriática e conta com pelo menos 3000 anos de ocupação contínua, o que faz com que seja a cidade croata mais antiga. De referir que esta cidade nem sempre pertenceu aos croatas, por aqui também governaram romanos, venezianos e otomanos. Mais tarde, passou para as mãos do império Austro-Húngaro e durante a segunda grande guerra mundial tornou-se território estratégico da Alemanha, motivo que levou a que fosse fortemente bombardeada pelas forças aliadas, levando à destruição de boa parte do centro histórico que no pós-guerra foi reconstruído e é durante este período que, finalmente, é anexada à Croácia.

 A passagem de tantos povos e culturas por Zadar fez com que este tenha uma aparência arquitetónica incomparável e, por este motivo, em 2017, a UNESCO nomeou-a Património da Humanidade. Um dos monumentos que levou a UNESCO a fazer tal nomeação foi as muralhas Venezianas que protegem o centro histórico da cidade, que se localiza numa península. Estas muralhas incluem vários portões medievais, o que mais me captou a atenção foi o Portão da Terra (1543), talvez por ser o mais elaborado de todos os portões da cidade. Até parece que foi construído para impressionar quem chegava pelo mar. Aquele leão alado veneziano ao estilo renascentista impõe respeito.

Fórum Romano e Igreja de São Donato

Passear pelas ruas deste museu a céu aberto é como viajar no tempo. A viagem começa no maior fórum romano da costa leste do adriático, mandado construir pelo primeiro imperador romano Júlio César Otaviano Augusto. A dimensão desta estrutura mostra a importância que Zadar teve na época do Império Romano. A igreja de São Donato (antes dedicada à Santíssima Trindade) foi construída sobre o fórum romano, cujas algumas partes foram reutilizadas para a construção das fundações desta basílica. Deve ser dos templos mais conhecidos desta cidade, tendo sido erigido pelo bispo Donatus de Zadar. A sua construção teve início no século VIII e foi concluída no século IX. O estilo arquitetónico presente neste edifício é o pré-românico, apresentando uma planta circular, anteriormente abobadada, possuindo três absides radiais e um deambulatório. Deixando o fórum para trás, encontrámos a maior catedral da Dalmácia, que é dedicada a Santa Anastácia, a sua aparência atual foi adquirida no século XII. No entanto, esta igreja é mais antiga, uma vez que algumas partes da sua construção remontam ao século V. Apresenta como estilo arquitetónico predominante o românico, tendo três naves no seu interior. Na fachada principal existem três portais de arquivoltas decorados com altos-relevos com figuras bíblicas. Ainda é possível contemplar duas rosáceas, a maior em estilo românico e a mais pequena em estilo gótico. A torre sineira desta catedral foi construída por dois períodos diferentes, a parte inferior data do século XV e a parte superior é obra do arquiteto inglês J.G. Jackson e data do século XIX.

Portão da Terra

A viagem prossegue até à Praça do Povo, ponto de encontro preferido dos locais e não só. Aqui podemos observar a Torre da Guarda, com o seu relógio, construída em estilo renascentista, entre outros edifícios. Mais à frente a Praça dos Cinco Poços. Tal como o nome indica tem cinco poços que estão alinhados no centro. Estes poços foram construídos em 1574 e forneceram água à cidade até 1838. Nas imediações, o jardim Rainha Jelena Madijevka, que foi o primeiro jardim público de Zadar.

A viagem está a terminar, entrámos na era moderna com uma visita ao Órgão do Mar, uma construção do arquiteto croata Nikola Bašić, em 2005, que é um instrumento musical que consiste num sistema de tubos que emite os sons do movimento do mar, é o único órgão deste tipo no mundo. E, para terminar, uma visita à Saudação ao Sol que se localiza no final da península de Zadar, sendo esta obra da mesma autoria do arquiteto do Órgão do Mar, este é composto por um círculo de vidro com painéis solares, que durante o dia recarregam as baterias com energia solar, que é transformada em energia elétrica, que, posteriormente, é utilizada para a iluminar o passeio à beira-mar. Depois do pôr-do-sol, a enorme instalação circular  ilumina-se permitindo uma experiência única de jogo de luzes

A viagem pode retroceder ainda mais no tempo e para tal acontecer basta visitar o Museu Arqueológico de Zadar, o segundo mais antigo de toda a Croácia, uma vez que a coleção de artefactos deste museu começa no Paleolítico e vai até ao século XI. Alfred Hitchcock disse certo dia que: “Zadar tem o pôr-do-sol mais bonito do mundo”. Pessoalmente não posso confirmar que tal afirmação esteja correta, mas afirmo que a cidade de Zadar, é como Coimbra, tem ainda mais encanto na hora da despedida…

Órgão do Mar

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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