Ainda nem tinha deixado Zadar e já sentia saudades, mas o tempo não para e havia que dar continuidade à viagem. Entrei no carro e segui caminho, conduzia com nostalgia, pois esta era a última vez que conduzia na Croácia, este país que é tão abençoado pela natureza. A estrada era sinuosa, porque escolhi fazer a ligação ao próximo destino pelas estradas secundárias para conseguir desfrutar um pouco do interior da Croácia. Até agora e tirando o parque Plitvice só tinha passado por grandes cidades, estava a precisar descansar um pouco de ver pessoas. Esta estrada levou-me a passar por zonas que se calhar se tivesse ido pela autoestrada não teria visto. É um país tão diversificado que em cento e poucos quilómetros passei por zonas tão distintas que nem parecia que estava sempre no mesmo país, passei por zonas, onde a encosta era muito rochosa, outras com casas que pareciam estar abandonadas, trazendo-me à memória que tal facto podia estar relacionado com as recentes guerras que houveram neste país que poderiam ter levado as pessoas a abandonarem as suas casas e a procurarem refúgio em outras zonas mais seguras e, ainda, por zonas de grandes campos de cultivo nas quais se veem vários tipos de culturas, a destacar a oliveira e a vinha. Uma curiosidade, o azeite e o vinho da Croácia têm fama mundial, o cultivo da azeitona e das uvas é secular e por estar tão apurado faz com que estes produtos sejam de qualidade. Uma das castas de uvas que tem o selo de denominação de origem protegida é a casta Graševina, que já ganhou muitos prémios em todo o mundo. O vinho desta uva é fresco, frutado, seco, com um sabor ligeiramente aromático e é, incrivelmente, agradável de se beber. Claro que falo com conhecimento, porque o provei e teria sido boa ideia ter trazido uma garrafa comigo na mala.
A jornada avançava tranquila e relaxada, na rádio passavam músicas cantadas em croata alternando com música em inglês dos anos 80 e 90. O tempo também ajudava, para trás ficou o dia ensombrado de Zadar, para chegar o sol do litoral da Dalmácia e a cidade de Trogir.

Trogir, também é conhecida por a “Pequena Veneza” devido à sua semelhança no estilo arquitetónico com a referida cidade italiana. Localiza-se no sudoeste da Croácia, na costa do mar Adriático do Condado Split-Dalmácia, foi fundada no século III a.C. por colonos gregos dóricos oriundos da ilha de Vis, recebeu o nome de Tragurion, que significava “ilha dos bodes”, mas por aqui também governaram romanos, bizantinos, húngaros, venezianos e, finalmente, Napoleão. Por ter sido dominada por tantos povos tem uma diversidade muito grande e rica em vários estilos arquitetónicos nas suas edificações, como é o caso, do românico, do gótico, do renascimento e do barroco. Esta cidade na idade média foi separada do continente tornando-se uma ilha. Acredita-se que o canal que existe entre a ilha e o continente foi propositadamente escavado para proteger a cidade de ataques vindos de outros povos, como por exemplo, do império Otomano. Por conservar até à atualidade o seu traçado urbano medieval, em 1997, a UNESCO inscreve-a na sua lista de Património da Humanidade. Esta cidade é muralhada, fortificada e toda construída em pedra de tons claros. A ligação a esta ilha é feita por duas pontes uma pedonal e outra para carros e uma vez lá dentro é aproveitar para se desfrutar das ruas e ruelas, incrivelmente, estreitas e típicas da idade média.
A rua por onde cheguei vinda do continente levou-me à Praça Principal (Praça João Paulo II ou em croata Trg Ivana Pavla II), à minha esquerda a Catedral do Trogir também conhecida por Catedral de São Lourenço (Katedrala Sv. Lovre). Esta catedral foi construída sobre as fundações de uma catedral cristã primitiva que havia sido destruída no século XII, tendo a sua construção começado em 1213 e terminado no século XVII. Tem o modelo mais antigo da construção de arcadas interiores da Dalmácia com pesados pilares alongados com nervuras góticas que separam os dois corredores da nave, posteriormente abobadados em estilo gótico no século XV. Em redor do corpo principal da catedral existem três absides semicirculares e um interior abobadado por cima do qual se ergue a torre sineira (campanário). Segundo consta, havia planos para a construção de duas torres, no entanto, só a torre do lado sul foi construída. A torre começou a ser construída no século XIV e terminada no século XVI, conta com 47 metros de altura e quem tem vertigens vai sofrer para a subir, mas uma vez lá em cima ficará boquiaberto com a vista.
Esta catedral ainda possui uma sacristia, um vestíbulo e uma rosácea gótica na fachada oeste que foram acrescentados no século XV. No pátio da entrada existe um baptistério (1467) gótico e românico obra de Andrija Aleši (1430-1504), um escultor de origem albanesa e aluno de Juraj Dalmatinac.
Confesso que o que realmente me encantou nesta catedral foi o portal principal esculpido no século XIII pelo arquiteto e escultor local Mestre Radovan que é considerado uma das obras mais monumentais da arte medieval da Dalmácia. Neste portal estão cinzeladas algumas cenas da Bíblia, Adão e Eva, leões, muitos santos, símbolos do zodíaco, cenas de luta de homens e bestas, entre outras. Após observar tal cenário já nem precisava ver mais nada em Trogir, teria ficado o resto do dia a apreciar a tamanha beleza deste portal tão ricamente decorado e cheio de pormenores. Os meus olhos estavam deleitados e encantados com aquela imagem, não conseguia parar de o contemplar. O cérebro já estava extasiado e já não sabia se seguia caminho ou se se deixava ali ficar, eventualmente, acabei por seguir caminho, contrariada, mas segui.

Em frente à catedral, na Praça Principal, a Lóggia construída no final do século XIII e distintamente reconhecível devido às seis colunas que tem na sua fachada. No hall de entrada existe uma mesa de pedra e sobre ela um relevo renascentista de Niccolò Fiorentino (século XV) representando a justiça e os santos padroeiros da cidade: São João e São Lourenço. Em tempos idos, este edifício era a sede do tribunal. Na atualidade serve de palco a espetáculos de música tradicional. Ao lado desta edificação a torre do relógio (século XIV), curioso notar que por quase todas as cidades que passei na Croácia existe uma torre do relógio. Deixando a praça principal e continuando a explorar as ruas e ruelas estreitas chega-se ao outro lado da ilha onde se encontra a muralha original, ou melhor, a parte que resta desta, uma vez que a maior parte deste monumento foi destruído pelo governo de ocupação de Napoleão, no início do século XIX, isto foi feito para facilitar a circulação do ar durante uma epidemia de malária. Neste local existe o Portão da Cidade que dá acesso ao Riva (passeio ao longo do mar). Seguindo o passeio para a zona sudoeste da ilha chega-se à Fortaleza Karmelengo, que deve o seu nome ao oficial veneziano Camerlengo, que era o responsável pelas finanças municipais. Esta fortaleza foi construída entre 1420 e 1437, após a conquista de Trogir pelos venezianos. Tem a planta em forma de trapézio e quatro torres nos cantos, das quais tem-se uma vista soberba sobre a cidade e paisagem circundante.
Por tudo o que aqui vivi e vi, afirmo que ir à Croácia e não fazer desvio a Trogir é como ir a Roma e não ver o Papa.
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