Se a chegada a Sibenik foi coroada com chuva, a chegada a Dubrovnik que não quis ficar atrás da conterrânea no gracejo mandou trovoada! Para se chegar a esta bela cidade medieval de pedra calcária cercada por uma muralha majestosa e banhada pelo mar Adriático é preciso atravessar a fronteira com a Bósnia e Herzegovina. Esta cidade também é conhecida pelos cognomes “a pérola do Adriático” e “Atenas eslava”. O primeiro cognome está ligado ao facto de ter uma beleza natural e urbanística ímpares e o segundo cognome está ligado ao facto de em tempos idos a barbárie dominava a região e esta cidade a contrastar era um centro das artes onde abundavam grandes figuras das humanidades.
Localizada no extremo sul da Dalmácia, na ponta dum istmo, no sopé do Monte de São Sérgio (Srđ em croata (419m)) Dubrovnik é a capital do condado Dubrovnik-Nevetva. Sendo uma das cidades com mais afluência do Mar Adriático devido ao seu porto por onde entra grande parte do turismo e por onde passa muito do comércio marítimo mundial.
A história de Dubrovnik que em português significa “bosque de carvalhos”, remonta ao século VII d.C. por estas épocas chamava-se Ragusa foi fundada segundo consta da fusão de dois pequenos povoados, os colonos romanos fugidos da cidade de Epidauro que estava a ser atacada por eslavos e que se refugiaram na ilha de Laus (significa rocha) e por um povoado de pescadores eslavos imigrados que tinham feito acampamento no sopé do monte Srđ na localidade de Dubrava. Recentemente foram levadas a cabo escavações arqueológicas nesta cidade que revelaram joias da idade do ferro e moedas gregas do século III a.C. que provam ajustamentos anteriores nesta zona pelo que a história deste local pode ser reescrita em breve. Por aqui reinaram e governaram muitos povos como bizantinos, venezianos, turcos, entre outros. Por incrível que pareça esta cidade livrou-se dos ataques das duas grandes guerras mundiais, mas em 1991 não se escapou da horrível guerra da Jugoslávia que destruiu praticamente toda a cidade. Ainda hoje podem ver-se as marcas destes ataques para tal basta estar num ponto mais elevado da cidade para se notar a diferença na cor das telhas. Os telhados dos edifícios mais antigos têm telha mais escura. Esta cidade foi destruída uma primeira vez com o terramoto de 1667, que matou 60% da população e destruiu grande parte da cidade.

Uma curiosidade o nome oficial adotado por esta cidade na atualidade veio com o término da Primeira Grande Guerra Mundial e consequente desmoronamento do império Austro-húngaro que levou a que esta fosse integrada no reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos e assim passando-se a chamar Dubrovnik.
Passar pelas muralhas invencíveis de Dubrovnik é como viajar no tempo e acordar numa cidade medieval. Um dos locais onde pode entrar neste mundo mágico é Porta Pile construída no século XV fica no extremo ocidental do Stradun tem dois arcos e a coroar esta porta está o padroeiro da cidade São Brás (Sveti Vlaho). Em outros tempos existia uma ponte levadiça que era içada todas as noites e um fosso de água que na atualidade é um espaço verde. Já dentro das muralhas há um sem número de edifícios a conhecer que se alinham ao longo do Stradun (Placa em croata, é uma via de uso exclusivo para peões), que é a artéria principal da cidade antiga. Esta rua mede cerca de 300m, foi construída no século XII e pavimentada com pedra calcária no século XV. No início desta rua abre-se um largo que tem nele implantado uma fonte, construída na primeira metade do século XV, obra do arquiteto Onofrio di Giordano della Cava, de Nápoles. Esta fonte é conhecida pelo nome a fonte Grande de Onofrio faz parte do sistema de abastecimento de água desta cidade antiga tem a forma dum polígono de 16 faces decoradas com 16 máscaras todas elas diferentes entre si a água sai da boca das máscaras caindo para as pias que existem na base da fonte. Esta fonte era encimada por 16 cães, mas durante a Guerra da Independência da Croácia de 1991 esta fonte foi bombardeada ficou severamente danificada e na atualidade dos 16 cães só um cão sobrevive a coroar a fonte. Em frente a esta fonte temos a singela Igreja renascentista dedicada a São Salvador (Sveti sv. Spasa) construída no século XVI, hoje já não tem as funções de igreja. No seu interior uma pintura de 1528 intitulada “Ascensão” da autoria do pintor Pietro Antonio da Urbino. Ao lado a igreja e mosteiro Franciscano (Franjevacki samostan) construídos no século XIV. O mosteiro tem um claustro românico com alguns elementos góticos. Neste claustro existem 120 colunas com capitéis decorados com motivos de plantas e animais. No centro do claustro, há um poço de pedra com uma estátua de São Francisco. Este convento anexa uma biblioteca e uma farmácia medieval (Stara Ljekarna). A biblioteca abriga cerca de 30.000 livros históricos sobre medicina e corais de igrejas e a farmácia que ainda funciona na atualidade foi estabelecida pelos monges em 1317 é a terceira farmácia mais antiga do mundo. Ainda é possível verem-se os móveis originais e as ferramentas que os monges usavam para fazer as receitas.
Seguindo o Stradun chega-se a mais um largo, a Praça Luža. À volta desta praça vêem-se alguns edifícios que merecem paragem para contemplação como a torre do relógio. Esta tem a particularidade de ressoar os seus sinos hora a hora através de duas figuras de cobre o Maro e o Baro que diga-se de passagem não vi estas figuras, ainda neste largo a igreja mais venerada desta cidade dedicada a São Brás (Crkva Sveti sv. Vlaha), ou não fosse São Brás o padroeiro desta cidade, foi construída no século XIV em estilo românico, mas foi destruída por um incêndio e quando foi reconstruída no século XVIII renasceu em estilo barroco, o Palácio Sponza é um dos edifícios mais emblemáticos. Este palácio foi construído em 1521 na ainda República de Ragusa, combina os estilos renascentista e gótico, assemelha-se muito aos palácios de Veneza. Abrigou várias funções públicas como escola, armaria, banco, casa da moeda e alfândega. Ao centro desta praça a Coluna de Orlando data do início do século XV é o símbolo da liberdade de Ragusa e da independência da república. Há uma lenda sobre o cavaleiro Orlando a qual diz que era corajoso e que salvou Dubrovnik da invasão árabe.

Contornando a igreja de São Brás e seguindo o Stradun o palácio do Reitor lembra os palácios góticos de Veneza, foi construído no século XIV em estilo gótico, renascentista e com alguns elementos do barroco era a residência oficial do reitor, a autoridade máxima da república. À semelhança do palácio Sponza este palácio também foi utilizado para outras funções como por exemplo sala de julgamento, prisão, armaria, entre outras. De referir uma curiosidade sobre o cargo de reitor, este era eleito pelo Grande Conselho e o seu mandato durava um mês, durante este tempo o reitor só podia deixar o palácio se fosse para exercer tarefas relacionadas com o seu cargo e não podia receber visitas da família ou amigos. Este cargo era tão importante para o povo de Dubrovnik que na porta de entrada do palácio existe uma inscrição em latim que diz o seguinte: “obliti privatorum publica curate” que traduzindo diz algo como: “esqueça o privado e encarregue-se do público”. Mais à frente a Catedral de Dubrovnik dedicada à Assunção da Virgem. A atual catedral foi construída sobre os restos da antiga igreja românica que foi destruída no terramoto de 1667, reza a lenda que Ricardo Coração de Leão foi quem pagou a construção da nova catedral por forma a agradecer os habitantes desta cidade por o terem salvo durante um naufrágio na ilha de Lokrum. Atualmente a catedral apresenta construção em estilo barroco do século XVIII a qual tem uma cúpula impressionante que se destaca no horizonte da cidade antiga. No seu interior alberga pinturas de artistas croatas, italianos e flamengos, mas o seu maior tesouro são as relíquias de São Brás (um crânio, uma perna e um braço) padroeiro de Dubrovnik.
Em frente à catedral há uma rua estreita decidi percorrê-la, levou-me ao Porto Velho (Stara Luka em croata) é um dos lugares mais emblemáticos desta cidade, nos séculos XV e XVI quando a República de Ragusa era o porto mais importante do comércio marítimo do mediterrâneo centenas de barcos mercantes atracaram aqui. De referir que durante a guerra de independência Croata foi uma zona muito massacrada por bombardeios.
A chuva voltou e desta vez veio para ficar, mas não me deixei abalar pela chuva decidi continuar a explorar a cidade antiga como se estivesse um lindo dia de sol, voltei ao Stradun que estava ainda mais bonito praticamente vazio de pessoas, aquela pedra calcária branca polida por anos de uso parecia um espelho de tanto que brilhava. Estava na hora de deixar as muralhas e explorar os arredores da cidade antiga, percorri uma última vez o Stradun e segui rumo ao Forte de São Lourenço (Lovrijenac) que é sem dúvida um símbolo por excelência desta cidade, construído em pedra num rochedo a 32 metros acima do nível do mar pelos habitantes da República de Ragusa para se protegerem da constante ameaça dos venezianos. Há quem o chame de “Gibraltar de Dubrovnik” devido à semelhança entre o rochedo onde está implementado o forte e o rochedo localizado no extremo sul da Península Ibérica. Segundo documentos da época levou 3 meses a ficar pronto o que para o início do século XI é um feito. Este forte tornou-se o símbolo da resistência de Dubrovnik na entrada principal pode ler-se a seguinte inscrição que virou um dos lemas desta cidade e que a rege desde a sua era dourada do século XIV: “Non bene pro toto liberas venditur auro”, ou seja, “ a liberdade não se vende por todo o ouro do mundo”. Para aqui se chegar é preciso subir 200 degraus, mas a subida compensa uma vez que lá dentro temos uma vista espetacular para as Muralhas de Dubrovnik e Baia de Pile.

Voltei à cidade antiga para percorrer os dois quilómetros das muralhas que abraçam esta cidade, a sua construção iniciou-se no século XIII e só terminou no século XV. Este expoente máximo da proteção tem muros de 25 metros de altura, contavam com 16 bastiões, um fosso, 4 fortes e 120 canhões e marcam um antes e um depois da história de Dubrovnik. Estando classificadas desde 1979 como Património Mundial da UNESCO.
De referir que exércitos venezianos, bizantinos e austro-húngaros tentaram em vão penetrar estas muralhas que só foram invadidas pelo exército de Napoleão. O último ataque aconteceu em 1991com Guerra da Independência da Croácia as tropas sérvias e montenegrinas bombardearam fortemente o centro histórico, mas as muralhas uma vez mais resistiram.
Percorrer as muralhas é melhor forma de se apreciar a grandeza desta cidade antiga e também passar pelos quatro fortes o Revelin que fica junto à porta de Ploče, o São João o mais antigo que fica junto à Porto Antigo, Minčeta que é o ponto mais alto da muralha e o Bokar que fica à frente do Forte de São Lourenço. Também daqui tem-se uma vista fantástica para vários monumentos como o Stradun, Forte de São Lourenço, Mosteiro Dominicano, Fonte Grande de Onofrio, Praça Luža, entre outros.
George Bernard Shaw escritor irlandês certo dia disse: “Se querem ver o paraíso na terra, venham a Dubrovnik.” faço minhas estas palavras. Dubrovnik e muito em especial a cidade antiga é sem sombra de dúvidas uma cidade com uma beleza que não há palavras para a descrever só mesmo visitando se pode comprovar tamanha beleza.
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