30 de outubro de 2021, foi neste dia chuvoso que parti de Lisboa rumo a Zagreb para dar início à roadtrip pela Croácia. A viagem desde a capital portuguesa até à capital croata dura mais ou menos 3 horas, a chegada ao Aeroporto Internacional de Franja Turdman aconteceu, para contrastar com a chuva de Lisboa, com um sol arrebatador, mas a coisa não começou da melhor forma, já que apanhamos um taxista que de simpático e acolhedor teve pouco. Tudo isto porque ao chegarmos ao centro de Zagreb estava um trânsito infernal até parecia estar tudo fechado e o já bastante chateado taxista com esta situação achou por bem largar-nos à nossa sorte em plena arena. O que nos vale é que não somos de desanimar e desistir facilmente pelo que resolvemos a situação em três tempo. Ligamos a internet, fizemos uma pesquisa numa destas aplicações de mapas com o nome do hotel e seguimos rumo. Chegadas ao hotel, que era bastante confortável e muito bem localizado, foi fazer check-in e sair para aproveitar o solinho que se fazia sentir e relaxar desta situação inicial.
Comecei a exploração desta cidade ainda com a situação do taxista na cabeça, mas com o passar do tempo o pensamento foi acalmando e lá fui apreciando o que me rodeava. Não foi uma cidade que me deixe saudades, não porque não é bonita, mas sim porque é demasiado cosmopolita para o meu gosto, demasiadas pessoas na rua, muito barulho e movimento, mas para quem aprecia o ambiente citadino vai por certo criar mais empatia do que eu. Apesar de tudo e depois de me abstrair deste rodopio que me rodeava apercebi-me que a cidade tinha muito para ver e explorar.
A tarde foi passada a calcorrear a metrópole, iniciámos a visita pela Praça Central, cujo nome é Praça Ban Jelačić (Trg Bana Josipa Jelačića), sendo este uma homenagem a um herói nacional croata. No centro desta existe uma estátua equestre que estava virada a norte contra os invasores húngaros, a mesma foi retirada durante a II República Jugoslava e mais tarde com a guerra da independência de 1991 voltou ao seu lugar, mas desta vez foi colocada virada para sul. Nas imediações, o Mercado Dolac (Tržnica Dolac) é um mercado ao ar livre nos moldes do Mercado da Graça em Ponta Delgada, mas dividido por duas zonas, a zona inferior dedicada às flores e a zona superior dedicada à fruta e às verduras que abre todas as manhãs.

Mais acima, a Catedral de Zagreb que é o segundo edifício mais alto da Croácia (108m) é dedicada à Assunção de Maria e aos Reis Santo Estêvão e São Ladislau. A sua construção iniciou-se em 1093 e terminou em 1271, mas ao longo dos tempos foi danificada e destruída pelos mais variados motivos (guerras e sismos), tendo sido sempre reconstruída. Apresenta, na atualidade, na sua fachada um estilo neogótico, obra arquiteto Hermann Bollé. Quando a fui visitar este monumento encontrava-se fechado, devido às obras que estão a decorrer para restauros dos danos causados pelo sismo de 2020 no seu interior e numa das torres. Em frente à Catedral, o Pilar de Maria com os anjos e a fonte, um dos monumentos públicos mais conceituados da cidade. O pilar é da autoria de Anton Dominik Fernkorn, em 1865 e a fonte é da autoria de Herman Bollé, em 1880-1882.
Ao lado da catedral veem-se muros fortificados construídos no final século XV e umas torres fortificadas renascentistas do século XVII, ambos foram construídos aquando das invasões dos Otomanos. Junto ao muro há duas colunas, uma antiga e outra nova, que servem de exemplo das pedras que estão a ser substituídas neste edifício desde 1990 devido à erosão.
A exploração continuou e rumou em direção à rua mais movimentada de Zagreb, a rua Tkalčićeva que deve o seu nome a um famoso historiador e padre croata Ivan Krstitelj Tkalčić. Esta artéria antes era chamada de Potok Ulica, já que ali corria um riacho cuja nascente vinha da montanha Medvednica, se olharmos com atenção, as curvas e contracurvas da rua lembram a forma duma ribeira. Uma curiosidade, na Segunda Grande Guerra Mundial Tkalčićeva era famosa pelos seus bordéis. Na atualidade é famosa pelos seus bares, diversão e energia, a qualquer hora do dia e da noite. Foi aqui que viemos acabar a noite, a beber uma cerveja bem fresquinha e um vinho branco de chorar por mais. Contudo, antes de chegar a noite ainda houve tempo de visitar a Torre Lotrščak (Kula Lotrščak), localizada na parte antiga da cidade chamada de Gradec (cidade Alta), esta é uma construção do século XIII, tendo sido erigida para porteger o portão sul. O nome Lotrščak deriva do latim campana latrunculorum, que significa em português “sino dos ladrões”, uma vez que, no ano de 1646, esta torre teve um sino pendurado que todas as noites tocava para sinalizar o encerramento do portão e todos os moradores desta localidade que não se encontravam dentro dela viam-se obrigados a dormir fora da cidade. Esta torre no século XIX foi acrescentada recebendo um quarto andar e janelas. No seu topo foi colocado um canhão conhecido pelo nome de Grič (Grički), que desde janeiro de 1877 é disparado para dar o sinal exato da hora do meio-dia para os tocadores de sinos das igrejas da cidade, na atualidade penso este canhão já não é disparado uma vez que não ouvi nenhum som de canhão. Subimos ao topo da torre que tem uma vista sobre a cidade de cortar a respiração. Foi aqui que apanhamos o final da tarde e que pôr-de-sol! Subimos a rua e prosseguimos caminho a explorar e conhecer esta cidade cosmopolita para chegarmos à Igreja de São Marcos (Crkva sv. Marka), que também devido ao recente sismo estava fechada. Este monumento é um dos edificios mais emblemáticos e um dos mais antigos desta metrópole, tendo sido construído no século XIII. A sua aparência atual em estilo gótico veio com o século XIX, foi nesta altura que acrescentaram os telhados de azulejo colorido, nos quais foram esculpidos os brasões de armas, o da esquerda representa o Reino Triune da Croácia, Eslavónia e Dalmácia e o da direita o brasão de armas de Zagreb. Seguindo esta artéria passamos pela Porta de Pedra (Kamenita vrat), uma antiga porta de entrada na cidade muralhada que foi construída entre 1242 e 1266. O seu aspeto atual deve-se ao facto de em 1730 ter havido um grande incêndio que consumiu esta localidade, no entanto, a pintura da Virgem com o Menino que já existia neste local sobreviveu intacta. Os moradores desta cidade consideraram ter sido um milagre e mandaram construir neste sítio uma capela, que é muito venerada. As pessoas passam por aqui e param para rezar e acender velas a esta pintura que é considerada a protetora de Zagreb.

No regresso ao hotel paragem no Museu dos Relacionamentos Terminados, a temática aqui abordada é o amor que tinha tudo para dar certo, mas no final não foram felizes para sempre. Os objetos expostos são presentes que as pessoas receberam da sua cara-metade durante o relacionamento e quando este terminou as mesmas doaram as ofertas ao museu. Algumas das peças marcaram-me e deixaram-me a pensar no quão complexas as relações humanas são e no quão a vida é um mistério que tem que ser vivido sem complicações. É um museu com uma temática muito complexa e atual. Em frente ao museu, a Co-cateral Greco-Católica de São Cirilo e Metódio (Grkokatolička konkatedrala sv. Ćirila i Metoda) que tem anexo um seminário destinado aos crentes greco-católicos que vivem nesta cidade. Não é possível determinar quando foram construídos, porque em 1766 um incêndio consumiu grande parte dos livros com o registo histórico desta igreja. A igreja atual foi construída em 1886, em estilo neobizantino, na época do Bispo Ilija Hranilović com um projeto do arquiteto Herman Bollé. A torre sineira atinge os 50 metros de altura e está equipada com três sinos, o maior pesa 782 kg e é dedicado aos Santos Cirilo e Metódio, o médio pesa 395 kg e é dedicado à Santíssima Virgem e, por fim, o menor tem pelo menos 230 kg e é dedicado a São Basílio.
No dia seguinte acordamos para mais um dia de sol e lá fomos dar continuidade às explorações, desta feita encaminhamo-nos para o funicular pensando usá-lo para descer à cidade baixa, mas optamos por desfrutar do sol e caminhar. Já na cidade baixa começamos por percorrer o Túnel Grič, que foi construído durante a Segunda Grande Guerra Mundial (1939 a 1945) pelo governo de Ustaše com a finalidade de proteger os civis dos frequentes ataques. Mede 350m de comprimento e 3,2m de largura e liga a Rua Mesnička até a Rua Stjepan Radić. Tem um salão central que mede cerca de 100m de comprimento por 5,5m de largura. Quando a guerra acabou este túnel caiu em desuso e só tornou a ser usado em 1991 aquando da Guerra da Independência Croata. Em 2016, o túnel foi restaurado e aberto ao público, sendo na atualidade uma galeria de arte de eventos temporários. Atravessar este túnel confesso que foi angustiante pensar nas pessoas ali enclausuradas, sem poderem ver a luz do dia, tentando proteger os seus e a si mesmas, lutando pelo direito de viver e vivendo a tormenta duma guerra que nada tinham feito para que tal acontecesse. Imaginando como seria a vida das pessoas que ali dormiam e viviam e que de um dia para o outro perderam a sua liberdade, o conforto do seu lar, passando fome, sede e frio. Não deve ter sido fácil, muito em especial, para as famílias que viam os seus maridos e filhos partirem para a frente de batalha sem saberem se os iriam voltar a vê-los. Estes 350m foram para mim um momento de reflexão, introspeção e gratidão. Agradecer por tudo o que tenho e por tudo que posso usufruir no meu dia-a-dia, esperando que o homem tenha aprendido com estes erros e não os torne a cometer. É bom conhecer a história para estarmos sempre atentos aos sinais para que certos erros não voltem a ser cometidos.

Após este momento, era hora de prosseguir a caminhada mais desperta a apreciar tudo com outros olhos e continuar a agradecer poder estar a iniciar a roadtrip nesta cidade carregada de tanta história, mas antes da despedida desta localidade ainda houve tempo para ir conhecer a praça que tem o nome dum herói de guerra croata do século XVI, Nikola Šubić Zrinski ou como é conhecido localmente, o Parque Zrinjevac. Este ocupa uma área de 12.500 metros quadrados, é o mais antigo das sete praças que existem na parte baixa desta cidade que compõem a chamada ferradura verde. Antes de ser uma praça este espaço era uma feira de gado, mas em 1892 foi construída esta praça que é rodeada por árvores (Plátanos, Áceres e Tílias) e muitas flores (amores-perfeitos e tulipas) fazendo dele o local mais romântico de toda a capital. Aqui é possível contemplar 3 fontes, uma delas obra do arquiteto Hermann Bollé que também projetou a coluna de meteorologia que existe na zona norte deste local. Ao centro desta praça há um coreto construído no final do século XIX. Na zona sul veem-se bustos de figuras emblemáticas croatas a destacar: Julije Klović (pintor), Andrija Medulić (pintor), Krsto Frankopan (poeta), Nikola Jurisic (diplomata), Ivan Kukuljević Sakcinski (político) e Ivan Mažuranić (poeta). Deixando Zrinjevac para trás seguimos rumo ao Jardim Botânico, mas antes uma paragem no famoso Hotel Esplanade, este edifício em estilo art decó foi construído no início do século XX para hospedar o crescente número de viajantes que chegavam a Zagreb de comboio oriundos da rota Istambul para Paris, o célebre Expresso do Oriente, tão conhecido que nem Agatha Christie perdeu a oportunidade de enviar o seu famoso detetive Hercule Poirot numa missão neste comboio.
Após a passagem pelo hotel foi tempo de ir visitar o Jardim Botânico de Zagreb (Botanički vrt u Zagrebu) que foi fundado por um professor da Universidade de Zagreb de seu nome Antun Heinz, em 1889. Este local só foi aberto ao público em 1891 ocupa uma área total de 4,7 hectares. O parque tem mais de 10.000 plantas de todo o mundo incluindo 1.800 plantas exóticas. Neste espaço há várias lagoas, incluindo uma com uma ponte vermelha que dá para atravessar e onde se veem cágados e peixes a nadar, um pavilhão, várias estufas e locais onde nos podemos sentar, descansar e desfrutar um pouco do espaço.

O resto do dia foi passado a descobrir que grande parte dos museus, que estão sediados em edifícios mais antigos, estavam fechados devido ao sismo de 2020, pelo que aproveitei para fazer uma coisa que gosto muito: sentar-me e apreciar a vida cotidiana e a sua envolvência. Zagreb, tal como tantas outras cidades espalhadas por este mundo, vive de grandes contrastes, zonas degradadas e zonas conservadas. Veem-se muitos ciclistas e muitas pessoas a passear os seus cães. Contrariamente a Portugal, não se vê pessoas a dormir nas ruas ou mesmo a pedir esmolas. Pelo menos eu não vi nenhuma. Há corvos a sobrevoar a cidade e achei os habitantes locais pouco afáveis, mas pensei para mim: “- Como hão-de ser felizes numa terra cuja sua história é feita de tanta guerra.”
Lau Tzu certo dia disse: “Uma jornada de mil milhas começa com um único passo.”, apesar de ser verdade, no meu caso, será mais apropriado dizer que uma viagem de muitas centenas de quilómetros começa com um carro de depósito atestado e uma companhia de excelência. Fatores que propiciaram a que esta roadtrip fosse ilustre. Com estas páginas do diário de bordo dou por terminada esta passagem pela Croácia na cidade onde tudo começou. Esta que foi uma viagem memorável e que tenho muito orgulho em estar a partilhar convosco. Até breve!
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