A nostalgia do túnel das Sete Cidades

Estávamos no dia 14 de maio, do ano da graça, de 2022 e toda a semana a previsão ditava chuva grossa para o fim-de-semana, mas os deuses no Olimpo acordaram inspirados e o sol iluminava e aquecia o Planeta Terra, bom pelo menos a Ilha de São Miguel, no Arquipélago dos Açores estava agraciada por este astro. Confesso que quando abri a pestana e vi os raios solares a iluminar o quarto o meu humor mudou. Saltei da cama e comecei a encetar os preparativos para ir caminhar.

O destino deste lindo dia era o nostálgico túnel das Sete cidades e arredores. Já não atravessava este túnel há muitos anos e a primeira vez que o fiz foi na companhia do meu pai e as minhas irmãs daí a nostalgia!

Percorrer os 1200 metros deste túnel é viver um pouco da história da ilha de São Miguel, que mostra a força e a determinação de um povo que vivia em condições adversas e rudes, mas mesmo assim não se deixou abater pelas contrariedades e concretizou o projeto. Este que é um dos ex-libris da ilha foi construído pela Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, com projeto e obra de execução do Eng.º Francisco Xavier Vaz Pacheco de Castro, liga a Lagoa das Sete Cidades à Grota do Alqueive nos Mosteiros, e destinava-se a manter o nível da lagoa para assim evitar, as até então frequentes, inundações na freguesia das Sete Cidades. As obras de perfuração iniciaram-se a 1 outubro de 1930 e terminaram em 30 dezembro de 1937.

Interior do túnel

Estacionei o carro num parque na freguesia e segui caminho para a zona do Cerrado da Ladeira, uma vez que é neste local que está implantado o túnel. De referir que as primeiras perfurações para a construção do referido túnel foram feitas numa zona da lagoa verde, mas devido às dificuldades em continuar a obra neste primeiro local decidiram então mudar a sua localização, passando para o sítio atual. Hoje e devido às chuvas dos últimos dias o túnel estava inundado pelo que para o percorrer tive que molhar os pés.

Finda a travessia era hora de voltar ao ponto de partida, mas para ali chegar ainda fiz mais uns desvios, visto que a caminhada tinha sido curta. Assim, subi para as Cumeeiras e percorri um pouco do caminho de terra batida para mais à frente tornar a descer para a freguesia das Sete Cidades, pelo Caminho Rural dos Arrebentões, que tem uma inclinação de 10% e faz parte do Trilho Oficial Vista do Rei – Sete Cidades (PR03 SMI). Chegada à freguesia virei para o lado da igreja que é dedicada a São Nicolau e que para mim é uma das mais bonitas desta ilha. Este templo foi mandado construir pelo coronel Nicolau Maria Raposo de Amaral (1770-1865) e sua esposa, Teresa Ermelinda Rebelo (1797-1895) para cumprimento de um voto feito em 1849.

A igreja cujo estilo arquitetónico é o neogótico foi projetada e executada por Manuel Lamberto Monteiro. Tendo a sua construção sido iniciada no ano de 1849, com o concurso de 60 operários. Em 1857 era consagrada pelo então bispo da Diocese de Angra, D. Frei Estêvão de Jesus Maria. Mais tarde, no ano de 1969, os herdeiros não desejando mais manter a posse da igreja doaram-na ao povo e assim esta passou a ser a sede do curato e algum tempo depois, neste mesmo ano, no mês de maio passou a ser a sede da paróquia.

Após visita à igreja segui caminho pela Estrada Regional, para mais à frente virar à esquerda e entrar num caminho de terra batida que contorna a Caldeira Seca. Este caminho passa pelo antigo cemitério, que, segundo o que dizem os mais antigos, foi abandonado porque a terra não era rica para decompor os corpos. Esta via acaba na zona do parque de campismo, pelo que aproveitei para passear um pouco pelo centro desta freguesia e apreciar a vida quotidiana dos seus moradores. É de constatar que já estamos a voltar aos tempos antes pandemia, no qual víamos mais turistas que residentes nas ruas. Enfim, é o preço da modernidade e da globalização, mas nem posso reclamar muito porque também gosto de viajar e os locais para onde me desloco devem pensar o mesmo de mim.

Lagoa das Sete Cidades

Entre o começar e o acabar o trilho o tempo foi mudando e quando cheguei a casa veio o “dilúvio” que já havia sido anunciado e prometido.

Bons trilhos e um bem-haja!

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