Nordeste, 30 de abril de 2022.
Sábado, para variar, era dia de acordar cedo e rumar à terra que dizem ser o paraíso da ilha verde (São Miguel) dos Açores. O dia acordou bastante nublado e ao seguirmos para Nordeste a estrada em alguns sítios estava molhada, pelo que pensei, para mim, deve ter chovido na noite passada e conhecendo o trajeto da prova já estava a visionar na minha cabeça que o piso não deveria estar nas melhores condições, o que levaria a que a prova, apesar de aparentemente não parecer difícil, passasse a ser durinha para as pernas, mas mentalmente tentava animar-me e manter o pensamento positivo. A meio caminho tornou a cair umas pingas e já na Vila do Nordeste a chuva veio outra vez marcar presença. Enfim nada a fazer, era correr e dar o meu melhor nas condições disponíveis…

9h45m era dada a partida na freguesia de São Pedro do Nordestinho, por esta hora já o sol começou a dar um ar da sua graça. O início da prova foi uma coisa estranha. Deram o disparo, o pessoal arrancou, depois alguém da organização mandou tudo para trás e não tinha eu ainda voltado ao ponto de partida quando mandaram continuar a descer e correr, fiquei sem perceber o que se havia passado, mas continuei a correr. Descemos rumo à Rua do Burguete, mas antes de lá chegarmos passamos pela Travessa da Canada, mais à frente passamos por baixo da ponte da SCUT, que quando fui espionar o trajeto aventurei-me a ir espreitar como ela era por dentro, por fim chegamos à Rua do Burguete e então aqui subimos um pouquinho para entrar no Outeiro e chegar à parte que para mim foi a mais difícil e onde as minhas pernas perderam a sua força quase toda, entramos num antigo caminho de ligação entre São Pedro do Nordestinho e Santo António do Nordestinho este caminho faz parte dum trilho que nunca percebi se é ou não oficial, mas é conhecido entre as pessoas deste concelho, o chamado Trilho Quinhentista. Esta parte do trilho decorre entre uma mata fechada de Faia, Criptoméria, em algumas zonas há pedra escorregadia que fazem parte do antigo caminho e lama que em algumas zonas o pé enterra-se até ao tornozelo, o que tornou o piso muito duro e pesado para mim. Era impensável correr nestas condições, uma vez que não estava disposta a arriscar a minha integridade física. Assim, optei por caminhar e aqui acabei por perder muito tempo, mas são opções que temos de tomar na hora e depois saber viver com elas.
Chegada àquela que seria a zona mais alta do percurso, 541 metros acima do nível das águas do mar, o tempo não estava muito agradável, nevoeiro e muita humidade. A humidade era tanta que a pessoa só de se mexer já pingava, pelo que era preciso ir hidratando para o corpo não sofrer muito. Era hora de, finalmente, começar a descer. Esta descida foi feita no caminho de Apoio Rechão das Vacas para chegar à zona da partida onde se encontrava o posto de reabastecimento. Daqui foi seguir o Caminho da Rachã para chegar à meta na Vila do Nordeste, mas até lá chegar ainda faltavam 11km, que depois daquela dura subida as pernas já não eram as mesmas, no entanto, a cabeça já nem queria saber se dói ou não, porque o corpo já só pensava que tinha que correr e cumprir o objetivo de acabar a prova.

Assim, segui o caminho da Rachã, mais à frente virei à direita para, entre subidas e descidas, começar a percorrer vários caminhos agrícolas e canadas de terra batida e finalmente chegar ao Caminho Florestal da Fazenda e descer para o Caminho da Igreja, virar para o Caminho dos Lagos que leva às antenas e seguir para o Caminho das Faias.
Mais à frente, começa-se a descer para a Travessa do Espigão e o caminho prosseguiu para o trilho do Caminho Novo que devia ser de terra batida, contudo, devido às chuvas era pura lama, estava tão escorregadio que a organização optou por meter em algumas zonas do caminho cordas para o pessoal não escorregar por ali abaixo e acabar a prova mais depressa, porque ainda faltava a parte melhor, a subida do Forno da Cal, que para lá chegar foi preciso descer umas benditas escadas, atravessar a Estrada Regional e cortar para o Parque de Merendas do Jardim da Ribeira do Guilherme.
A partir daqui já só corria por instinto e ouvi ao longe a voz do Nuno Fonseca a dizer-me: “-Vamos embora, Sandra, já só faltam 3 km!” e eu lembro-me de responder: “-Não me digas estas coisas.”, porque mentalmente sabia que faltava aquela subida que, tal como uma senhora me disse quando lhe fiz referência à mesma, eu também preferia morrer na ignorância a saber desta informação. A realidade era quem quisesse acabar a prova teria que subir aquele caminho e, assim foi, subi o caminho muito caladinha, mas a reclamar mentalmente. Chegada ao cimo, foi descer o Caminho Rural dos Clérigos atravessar a icónica Ponte dos Sete Arcos e cortar a meta.

16,29 Km e 2h 23m depois acabava a corrida com 804 m de acumulado nas pernas. Esta prova que não se avizinhava ser assim tão complicada, acabou por se transformar num martírio, pelo menos para mim. O piso enlameado fez com que me retraísse, receando provocar alguma lesão que me magoasse. Bem ou mal, a prova estava feita. Para o ano e como já me esqueci da dureza do trail volto a inscrever-me, só assim poderei reclamar, novamente, acerca da exigência física que este percurso tem, que pelo que consta terá um novo trajeto. Brincadeiras à parte, na realidade, o mais importante foi ter acabado sem mazelas e no meio do meu martírio mental ainda me ter conseguido divertir.
O trajeto está sem sombra de dúvidas muito bem conseguido passa por zonas muito bonitas em dias de sol e para quem gosta de fotografar este percurso deve fazer porque vai passar por zonas de muito verde, cuja vista sobre as freguesias é muito boa.
Quero deixar uma palavra de apreço e agradecimento à organização, a todos os que de alguma forma contribuíram para o sucesso desta segunda edição do Trail Real Priolo e felicitar todos os que participaram.

Ainda deixar um agradecimento especial ao meu PT, à minha família e aos meus amigos que me incentivam a ser e dar o meu melhor, vocês são de muito valor! Um bem-haja e até à próxima prova.
Galeria das fotografias legendadas: Aqui