Istambul, onde tudo começou e terminou!

A missão Turquia começou com chuva torrencial para abençoar a partida! Tudo se compunha para podermos ser uma das histórias do livro “As Mil e Uma Noites”, até chegarmos a meio caminho do hotel e o táxi que nos transportava avariar em plena autoestrada e termos que apanhar outro táxi cujo condutor a única língua falava era o turco e parecia mais perdido que nós viajantes de primeira vez. Já no hotel era tempo de descansar, revigorar corpo e mente e aceitar o facto que os próximos os dias iam ser, no bom sentido, verdadeiramente loucos.

Amanhece “Na Cidade” (Istambul) dia perfeito para um pequeno passeio de barco pelo Bósforo (Passagem da Vaca) para desta forma abraçarmos e encarnarmos o nosso lado turco nesta jornada.

Bósforo, é um estreito que tem de comprimento 30 km, a sua largura varia de 550 m a 3300 m e a sua profundidade também varia de 36 m a 124 m no meio do estreito. Este estreito divide Istambul em dois, uma vez que este marca os limites do continente europeu e do continente asiático. Ligando o mar de Mármara ao mar Negro.

Mar de Mármara

O nome deste estreito está ligado à lenda de Io uma jovem princesa e sacerdotisa de Hera, por quem Zeus nutria uma paixão secreta. Para seduzi-la, Zeus cobriu o mundo com um manto de nuvens escuras para tentar esconder os seus atos da sua esposa Hera, mas a estratégia falhou e Hera desceu do Olimpo para ver o que se estava a passar. Zeus num último esforço para iludir a esposa ciumenta, transforma a amante em uma linda novilha branca e visitava-a em forma de boi, mas Hera intrigada com interesse e atenção que o marido dedicava à novilha, reivindicou-a para si e meteu-a sob a guarda do gigante Argos Panoptes, que tinha cem olhos e nunca dormia.

Zeus não satisfeito com a situação incumbiu Hermes de libertar a sua amada, mas o mensageiro dos deuses só conseguiu libertar Io após matar Argos Panoptes. Hera triste recolheu os olhos do seu servo colocando-os na cauda do pavão, animal que era consagrado a esta deusa. Io livrou-se da prisão, mas não se livrou de Hera que mandou um moscardo para a atormentar dia e noite. Tentando escapar-se do moscardo Io percorreu toda a Grécia. Indo para o norte atravessou a nado o estreito que liga o mar de Mármara ao mar negro e foi assim que este estreito ganhou o nome de Bósforo que significa a passagem da vaca, uma homenagem a Io. Esta lenda tem um final feliz, Io na sua deambulação vai passar pelo Monte Cáucaso onde encontrou Prometeu acorrentado a uma rocha e este profetizou que ela iria recuperar a sua forma humana quando chegasse ao Egito onde teria um filho e assim foi, Io chegou às margens do Nilo aí recuperou a sua forma humana e teve um filho de Zeus, Épafo. 

O passeio de barco começou na famosa ponte de Gálata (Galata Köprüsü) que atravessa a “Baía” (Corno de Ouro, como é chamada pelos europeus) ligando Eminönü a Beyoğlu. A ponte atual é a quinta a ser construída neste local, é basculante e mede 490 m de comprimento e 42 m de largura. A sua construção foi concluída em 1994, projeto do engenheiro civil Fritz Leonhardt e veio substituir a anterior que ficou gravemente danificada após um incêndio em 1992. Tem dois níveis, o superior para trânsito tanto de peões, como para meios de transporte e o nível inferior tem restaurantes. Confesso que não é uma ponte muito bonita, mas é por certo a mais concorridas de Istambul, por ela atravessam multidões de pessoas, muitos carros e autocarros. Aqui é possível observar-se muitos pescadores que lançam os seus anzóis do alto da ponte, vendedores ambulantes que vendem tudo que se possa imaginar e muitos turistas.

Ponte de Gálata

A primeira ponte a ser construída neste local foi no ano de 1845 pela Valide Sultana (Mãe do Sultão) Abdülmecid (1839-1861) era de madeira e ficou conhecida pelo nome de Cisr-i Cedid (Ponte Nova). Esta ponte foi substituída em 1863 por outra ponte de madeira, durante as obras de melhoria da infraestrutura antes da visita de Napoleão III a Istambul. Foi mandada construir pelo Sultão Abdülaziz (1861-1876) com projeto de Ethem Pertev Paşa. Em 1870, foi assinado um contrato com a empresa francesa Forges et Chantiers de la Mediteranée para a construção de uma terceira ponte, mas a eclosão da guerra entre a França e a Alemanha atrasou o projeto, que em 1872 acabou por ser entregue à empresa britânica G. Wells, mas a obra só ficou concluída em 1875, tinha 480 m de comprimento e 14 m de largura e apoiava-se em 24 pontões. A quarta ponte foi construída em 1912 pela empresa alemã Hüttenwerk Oberhausen AG, era uma ponte flutuante que tinha 466 m de comprimento e 25 m de largura.

O barco apita e levantam-se as amarras, começa a mover-se, passa por baixo da ponte e avança rumo ao estreito de Bósforo. No mar muito movimento, bastantes barcos a chegarem ou a seguirem de viagem e outros fundeados a aguardar licença para carregar ou descarregar as suas cargas e outros barcos de natureza diversa. Este movimento mostra o quão este estreito é importante para o comércio mundial. A importância deste local não é de agora, já vem desde os tempos em que Istambul ainda se chamava Constantinopla, aqui foram travadas muitas batalhas navais entre cristãos e muçulmanos. Este estreito foi tão importante para a defesa desta cidade que os sultões otomanos que governaram este país por muitos séculos mandaram construíram uma fortificação em cada lado do mesmo, em 1393 construíram a Anadoluhisarı (Fortaleza da Anatólia situada na parte asiática) e em 1451 construíram a Rumelihisarı (Castelo da Rumélia situado na parte europeia).

Na atualidade o estreito continua a ter muita importância a nível estratégico. Existem diversos tratados internacionais que regulamentam a passagem dos barcos neste sítio, como por exemplo, a Convenção de Montreux para o Regime dos Estreitos Turcos. Segundo apurei in loco o governo turco proibiu a passagem dos barcos russos pelo estreito devido à Guerra na Ucrânia.

Este estreito é atravessado por duas pontes, a Boğaziçi Köprüsü (Ponte do Bósforo) que é uma ponte suspensa, cuja construção iniciou-se em 1970 e ficou concluída em 1973. Mede 1560 m de comprimento e o tabuleiro tem 39 m de largura. A distância entre as duas torres que sustentam o tabuleiro é de 1074 m, que se erguem a 105 m. O tabuleiro ergue-se a 64 m em relação ao nível do mar. A segunda ponte Fatih Sultan Mehmet Köprüsü (Ponte do Conquistador Sultão Maomé) também é suspensa, a sua construção iniciou-se em 1986 e ficou concluída em 1988. Mede 1510 m de comprimento e o tabuleiro tem 39 m largura. Há duas torres que sustentam o tabuleiro e a distância entre estas é de 1090 m, as mesmas erguem-se a 105 m. O tabuleiro ergue-se a 64 m em relação ao nível do mar.

Bósforo margem Asiática

As margens do Bósforo são densamente povoadas. Ao longo destas é possível ver alguns edifícios emblemáticos de Istambul, a destacar o Museu de Arte Moderna de Istambul, a Universidade de Belas Artes Mimar Sinan, a Mesquita Dolmabahçe, o Estádio de Futebol do Beşiktaş Jimnastik Kulübü, o palácio Dolmabache, a Universidade de Galatasaray, o forte Rumeli Hisarı, o Palácio de Beylerbeyi, a mansão do Conde Leon Ostroróg, a Escola Militar Kuleli, entre outros.

Sobre Bósforo e como Peyami Safa (1899-1961) escreveu no seu romance, Fatih-Harbiye , “Uma pessoa que foi de Fatih a Harbiye pela ponte pisou em uma civilização e cultura diferentes.”. Nós não fomos de Fatih a Harbiye, mas passamos pela ponte quando rumamos a Ancara e assim posso afirmar que a nossa aventura pela terra de civilizações antigas começou da melhor forma possível e imaginária.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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