A Capadócia, cujo nome em português significa “Terra de Belos Cavalos” (segundo consta esta região não tinha nenhuma raça especial de cavalos), tem uma população total que não ultrapassa o meio milhão de habitantes. Está localizada na Anatólia Central e ocupa uma área total de 15 000 km², entre Aksaray, Hacıbektaş, Caiseri e Niğde. Como não tem qualquer demarcação política, a referência a este local nos mapas muitas vezes não existe.
A história desta região é muito rica, uma vez que é habitada de forma contínua desde o Neolítico, aqui floresceram e governaram muitas civilizações antigas, como Assírios, Hititas, Persas, Macedônios, Romanos, entre outras. A ocupação deste território por ter tido um leque tão diversificado de civilizações acabou por influenciar e deixar marcas na cultura.
A chegada à “Terra de Belos Cavalos” coincidiu com o final de tarde. Ao longo da viagem a serpentear de forma sincronizada com a estrada uma companhia especial, o Monte Argeu (Erciyes Dağı) a mostrar-se no horizonte todo orgulhoso, para nos lembrar que o seu cume mais alto (3916 m) faz dele a montanha mais alta da Anatólia Central.
O dia já ia longo quando chegamos à Capadócia, mas antes de nos recolhermos ao hotel e sem sabermos o que nos esperava um desvio ao Vale dos Pombos (Güvercinlik Vadisi), assim chamado por neste local existirem milhares de pequenos pombais esculpidos na rocha (tufo vulcânico). Em tempos idos eram aqui criados pombos como fonte de alimento. Na atualidade tal como pudemos comprovar continuam a existir muitos pombos neste local. No entanto, a dádiva maior do desvio foi contemplar o Göreme (o Vale de Göreme e seus arredores fazem parte desde 1985 da Lista do Património Mundial da UNESCO e desde 1986 do Parque Nacional) com o Castelo de Üçhisar (Uçhisar Kalesi foi construído na zona mais alta da região, 1300 m. Este edifício que ao longo dos tempos foi usado como forte e refúgio tem 50 m de altura e 20 andares. Andar dentro deste monumento é como andar num labirinto, aqui podemos ver capelas, mosteiros, habitações, refeitórios, armazéns e salas comuns. Foi escavado em tufo vulcânico e a sua forma é uma mistura entre um queijo suíço e os montículos que as térmitas constroem em África). Esta paisagem parece um vale místico saído dum planeta qualquer ainda por descobrir, tal é o encanto que fico pasmada olhando todo este cenário surreal absorvendo tamanha beleza.

E a esta altura do campeonato com tanto falar sobre a Capadócia e nada de balões já deviam estar a pensar “querem ver que foram à Capadócia e não andaram de balão de ar quente”. Enganam-se, a aventura do balão de ar quente chegou no dia seguinte às 3h 30m, hora que nos foram buscar ao hotel e esta aventura nem sei como vos descrever, não há palavras e nem muito menos fotos que se possam usar para relatar tal peripécia, até quem tinha medo de alturas desafiou-se a entrar na cesta do balão para voar e adorou!! Ao entrar naquela cesta lembrei-me e não sei se já leram o livro “A Volta ao Mundo em 80 dias” de Júlio Verne. O balão levantou voo e transformei-me no Phileas Fogg com mais alguns Passepartout na sua aventura à volta do mundo, a diferença foi que a minha viagem de balão de ar quente durou uma hora com a paisagem mística do Göreme como pano de fundo. No horizonte a cumprimentar estava o sol que começava a aquecer o planeta Terra e o Monte Argeu, a mostrar sempre a sua grandeza e a tornar o nascer-do-sol em um momento ainda mais especial que viverá para sempre em mim.
Já com os pés bem assentes em terra era hora de seguir viagem rumo à cidade Ürgüp, localizada na província de Nevşehir que pertence à região administrativa da Anatólia Central, para irmos visitar as famosas chaminés de fadas, de referir que é possível observar estas formações em quase toda a Anatólia Central, mas nesta cidade existe uma formação de três chaminés cujo nome é as três belas que são mundialmente famosas, pelo que fomos dar um saltinho ao local para confirmar a beleza da referida formação. A formação destas chaminés de fadas deve-se a dois vulcões, extintos na atualidade, que expeliram lava e cinza formando o tufo, depois a ação do vento e da água esculpiram estas formações misteriosas em forma de cone, que podem atingir os 40 metros de altura, algumas das quais parecem ter chapéus, estes chapéus são de basalto que por ser uma rocha mais dura leva mais tempo a desgastar. Atualmente, o processo de erosão continua a moldar e transformar a paisagem.
O dia, este parecia não ter fim e o sol que no amanhecer criou um cenário fenomenal para o passeio do balão de ar quente, agora já estava a tornar-se incomodativo, continuava a iluminar o dia, mas desta feita de forma abrasadora para quem se arriscava a aventurar-se nos passeios. No entanto, nós como eramos resistentes, decidimos desafiar o astro rei e continuar o passeio que nos levou ao Vale Devrent (Vale Imaginário), que com a sua cor vermelha parecia um cenário vindo expressamente de Marte. Aqui e como o próprio nome indica é preciso ter um pouco de imaginação para ver as interessantes esculturas naturais esculpidas nas rochas, como por exemplo um camelo, a Virgem Maria, uma mão, o chapéu de Napoleão, entre outras.
Quando chegamos ao Museu a Céu Aberto de Göreme (Göreme Açıkhava Müzesi), o sol para mim já estava a tornar-se insuportável e olhem que sou resistente. A salvação foi entrar em todas as escavações que encontrei, já que dentro destes espaços havia sombra e eram frescos, este ato era como ir literalmente ao paraíso e não querer mais sair de lá. Meter o pé fora destes locais era como entrar no inferno, é que nem mesmo na sombra das árvores se podia estar, pois era como aqueles oásis miragem no deserto que pensas estás a ver água e não há água nenhuma, assim era a sombra das árvores, vias a sombra pensavas que ia estar fresco, mas quando lá chegavas estava quente!

O Museu a Céu Aberto de Göreme é um complexo que alberga no seu interior mais de 10 igrejas e outras acomodações como quartos, cozinhas, refeitórios e uma escola religiosa. Todos estes edifícios foram escavados na rocha (tufo vulcânico). A maioria das igrejas que fazem parte deste complexo foram construídas nos séculos X, XI e XII. Aqui vimos o Mosteiro Rahibeler (Kizlar (meninas)), construído no ano de 1050, que é um bloco de rocha alta que fica mesmo em frente à entrada para o museu e tem seis andares. Não entramos no mosteiro, seguimos caminho para o lado direito, mais à frente a Capela de São Basílio (Aziz Basil Şapeli). Este edifício foi construído em meados do século XI. É uma capela pequena e crespa. As paredes são tortas, os pilares desproporcionados e como ambos não sofreram nenhum tratamento para ficarem lisos os mesmos continuam irregulares. É constituída por uma nave única e um nártex que são separados por pilares. No nártex há dozes túmulos esculpidos no chão. A sua forma é um retângulo com teto liso, com pilares que formam quatro entradas que levam à nave transversal abobada com três absides em forma de arco de ferradura. Na nave, a abside central tem a figura de Cristo Pantocrator junto a esta pintura, mas num pilar, a figura de Maria com o Menino Jesus ao colo, Maria aponta para Jesus. Ainda nesta parede é possível ver o Santo Demétrio (270 d.C. a 306 d.C.) procônsul romano do distrito de Tessalônica, que foi mandado matar por não obedecer à ordem do imperador romano para matar todos cristãos residentes nesta localidade e por ter confessado abertamente a sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, levando a que muitos pagãos se convertessem ao cristianismo. Na parede norte São Basílio, O Grande (330 d.C. – 379 d.C.) foi bispo de Cesareia, na Capadócia ficou conhecido por defender o Credo Niceno e por ter sido pioneiro do monasticismo bizantino. Ainda nesta parede São Teodoro, O General montado num cavalo vermelho vestindo as suas roupas de militar. Este foi martirizado em 319 d.C. no norte da Turquia. Na parede sul uma pintura São Jorge (entre 275 e 280 d.C. – 303 d.C.) montado num cavalo branco lutando contra um dragão. São Jorge era um oficial do exército romano que nasceu na Capadócia. Em cada parede da nave há uma pintura da cruz de Malta que acredita-se representam a Santíssima Trindade.
Daqui viramos à esquerda e ao contornarmos uma rocha encontrámos a Igreja da Maçã (Elmalı Kilise), cuja data de construção é apontada para o século XI, a qual tem no seu interior um rico conjunto de pinturas em tons de vermelho e amarelo com o fundo azul celeste. O edifício no seu interior apresenta a forma de cruz grega, com nove cúpulas pequenas que são sustentadas por quatro colunas largas, esta configuração fez com que se criassem muitos painéis pequenos. Estes painéis fazem com que as pinturas não tenham uma sequência narrativa, são cenas independentes, muitas sobre a vida de Jesus, entre as cenas da vida de Jesus destacam-se o batismo, a entrada em Jerusalém, a natividade, a ressurreição, a crucificação, o enterro, a transfiguração, a última ceia, entre outras. Ainda se podem ver duas cenas no antigo testamento sendo elas: a cena da hospitalidade do Profeta Abraão e a cena dos três jovens judeus sendo queimados pelo fogo. As cenas das cúpulas são dedicadas ao reino do céu, vemos na cúpula central a figura de Cristo Pantocrator, rodeado por Lucas, Mateus, João e Marcos. Na cúpula seguinte o Arcanjo São Miguel rodeado pelos santos mártires Eugénio, Auxentius, Eustratius, Mardarius e Orestes e na cúpula perto da entrada a Ascensão de Jesus ao céu. As restantes cúpulas têm figuras de anjos.
O nome da igreja pensa-se esteja ligado ou ao globo avermelhado que o Arcanjo São Miguel segura numa das mãos ou a umas macieiras que existiram nas proximidades.
Uma curiosidade sobre as pinturas desta igreja que se encontram tão bem conservadas deve-se ao facto que durante muitos anos esta foi usada como pombal e durante este tempo as pinturas ficaram cobertas por fezes de pomba, as quais só foram limpas em 1991 quando se fizeram obras de restauro na igreja.
Ao sairmos da Igreja da Maçã uns metros mais à frente encontramos umas escadas que descemos e fomos conhecer a Igreja de Santa Bárbara, cuja planta tem a forma de cruz grega, tem uma abside principal e duas laterais, com cúpulas no centro e na parte ocidental, este tipo de construção sugere que tenha sido construída no final século XI. Esta igreja distingue-se das demais devido às pinturas serem em vermelho terra com desenhos de cruzes, animais, árvores e relâmpagos a decorarem as paredes. Na abside norte a famosa pintura da galinha que bica uma planta e logo abaixo um besouro ladeado por duas cruzes. A interpretação destes desenhos não é unânime, mas muitos historiadores dizem que simboliza o mal a ser contido pelas cruzes.
Segundo peritos, a igreja era para ser só estas imagens pintadas a vermelho terra, mas mais tarde foram acrescentadas outras pinturas como o Cristo Pantocrator numa das absides, São Jorge e São Teodoro a lutarem com um dragão e Santa Bárbara que foi uma mártir do século III da Fenícia, que o pai pagão fez prisioneira numa torra para a casar, mas ela secretamente tornou-se cristã e reusou-se casar. O pai com a ajuda de um oficial decapitou-a. Ainda se podem ver Santa Irene e Maria com o Menino Jesus no colo. Estas pinturas foram pintadas diretamente na rocha.
Após esta visita continuamos a explorar o espaço passando pelas restantes igrejas, mas não entramos em mais nenhuma.
De referir que é expressamente proibido tirar fotos do interior das igrejas. No interior de cada uma delas, pelo menos nas que visitei haviam pessoas a fazerem cumprir esta regra.

Após este cenário pensei que nada mais me poderia surpreender, mas estava enganada. O Vale Rosa (Güllüdere) veio mostrar-me que na Capadócia não faltam cenários para te deixarem estupefacta. Para mim, o Vale Rosa é um dos mais bonitos de todos os que vi, apesar de quando lá fui a rocha estava branca, mas diz que conforme a hora que o sol incide sobre a rocha a cor vai mudando. Ao longe o Vale Vermelho (Kizilcukur), naquela zona as rochas são coloridas em tons de vermelho, amarelo e branco, estão dispostas em camadas e cada uma destas camadas indica a idade da rocha.
Na Capadócia contemplei a beleza infinita do Mundo que jamais esquecerei, depois fechei os olhos para não acordar desta realidade de sonho.
Galeria das fotografias legendadas: Aqui