Atravessamos a Ponte Gálata e seguimos caminho para Ancara, a capital da Turquia. Após uma viagem de 450 km e mais de 5 horas fechada num carro alcançamos a Anatólia Central e a bendita capital.
Já era noite quando aqui chegámos e acuso-me desde já, não senti ligação de qualquer espécie com este local, apesar de ser uma cidade com muitos espaços verdes que eu tanto gosto. Não sei se mais alguém sentiu alguma vez o mesmo, mas fez-me lembrar muito as cidades europeias, em especial Londres.
Ancara, cujo nome vem da lã de angorá, é a segunda maior cidade da Turquia, tem cinco mil milhões de habitantes e à sua frente só mesmo Istambul. Esta cidade é muito antiga, por aqui passaram muitos povos como Hititas, Frígios, Helénicos, Romanos, Bizantinos e Otomanos. Aliás a mudança da capital deu-se devido à ocupação de Istambul pelos Otomanos (de 1919 a 1922). Assim, em 1920, em plena Guerra da Independência Turca, Mustafa Kemal Atatürk muda a capital para Ancara, apesar desta ser uma pequena cidade. Após o fim da guerra, a 13 de outubro de 1923, e por desejo do Pai da República Turca, a mesma manteve-se sedeada nesta pequena cidade de Ancara, uma vez que estava localizada numa zona mais central do país e, assim, evitava a vulnerabilidade geoestratégica da cidade de Istambul.
O dia seguinte acordou cinzento, mas o plano matinal era visitar um dos museus mais importantes da Turquia, eu diria mesmo que é um dos museus imperdíveis para quem gosta de história, o Museu das Civilizações Anatólias (Anadolu Medeniyetleri Müzesi). Foi inaugurado em 1921 e está sedeado em dois edifícios, o Mahmut Paşa e o Kurşunlu Han. O primeiro são as antigas salas de armazenamento do antigo bazar otomano que foram recuperados e é aqui que estão as peças expostas por ordem cronológica que começa no Paleolítico e vão até ao período Clássico, onde se incluem a estátua da deusa-mãe de Çatalhöyük (Deusa-mãe neolítica da Ásia Ocidental, representada como senhora dos animais, que dá à luz sentada no seu trono. A cabeça da estátua é uma reconstituição já que estátua quando foi encontrada faltava-lhe esta parte. As formas avantajadas são o conhecido símbolo de fertilidade desde o Paleolítico Superior). Para além da deusa-mãe ainda podemos ver soberbas esculturas hititas, relevos ortóstatos da escrita cuneiforme e obras de ouro, prata, vidro, mármore e bronze datadas da segunda metade do primeiro milénio a.C. As coleções de moedas, com exemplos que vão desde o primeiro dinheiro cunhado até os tempos modernos, representam os raros tesouros culturais do museu. No segundo edifício funcionam os serviços administrativos, que abriga as salas de trabalho, biblioteca, sala de conferências, laboratório e oficina. Este museu foi eleito a 19 de abril de 1997, na Suíça, Museu Europeu do Ano.

Ao sairmos do museu, o tempo havia mudado para nossa alegria o sol dava um ar da sua graça e já com nostalgia do museu instalada em mim seguimos para visitar o túmulo de Mustafa Kemal, o Pai dos Turcos, (Atatürk). Tanto que já falei nele que seria uma vergonha deixar Ancara sem lhe ir prestar homenagem.
Falemos, então, um pouco mais de Atatürk, figura que marcou a viragem da história da Turquia. Ele foi o líder da Guerra de Independência Turca travada entre 19 de maio de 1919 e 24 de julho de 1923, data em que foi declarada a República Turca, da qual foi fundador e o primeiro presidente.
A obra para construção do Anitkabir (túmulo memorial), o nome dado ao complexo que alberga o túmulo de Ataturk, é resultado dum concurso organizado pelo governo turco em 1941, ao qual concorreram 48 projetos de vários países, tendo tido vencedor do referido o concurso o projeto dos arquitetos Emin Onat e Ahmet Orthan Arda. Neste complexo, para além de se ver o túmulo, também se pode visitar uma rica e detalhada exposição sobre a vida do presidente. Ainda neste mesmo local descansa o segundo presidente da República Turca Mustafa İsmet İnönü.
A nossa chegada ao edifício coincidiu com a cerimónia da mudança da guarda e logo ali senti o patriotismo dos turcos pelo seu país, uma bandeira enorme a ser hasteada e toda a cerimónia é realizada com pompa e circunstância. Todo o complexo é monumental e neste dia parecia um formigueiro povoado de estudantes, deduzi fosse o final do ano letivo e talvez existisse o costume dos estudantes acorrerem àquele local para celebrarem a data. Olhava em redor, parada no centro do pátio, e sentia-me tão pequena perante edifícios tão colossais todos construídos em mármore travertino.

Deixei invadir-me pelo patriotismo turco para mentalmente alegrar-me, visto que a próxima paragem ainda estava longe (130 Km) e o sol começava a aquecer. Segui caminho resignada rumo ao segundo maior lago salgado da Turquia, o Lago Tuz (Tuz Gölü, tuz que em português significa salgado). Este lago ocupa áreas nas províncias de Ancara, Cónia e Aksaray. Está localizado a 905 m acima do nível do mar, ocupa uma área de 1665 km², normalmente tem 80 km de comprimento e 50 km de largura e a sua profundidade na maior parte do ano é de 0,40 m de profundidade. Pensa-se que este é salgado porque a região antes era coberta pelo mar. Aqui funcionam várias fábricas que dedicam a sua atividade ao processamento e refinação do sal, produzindo cerca de 90% deste mineral que é consumindo na Turquia. De referir que esta zona do lago, pântanos circundantes e algumas áreas de estepe foram, em 2001, classificadas como zona de alta proteção.
Daqui para Saratlı, na província de Aksaray aguardava-nos mais uma deslocação extensa (mais de 130 km). O carro, este parecia uma sauna, mas não havia muito a fazer porque a viagem é como o tempo não espera por ninguém e havia que cumprir o roteiro. Próxima paragem a cidade subterrânea de Aziz Mercurius Yeraltı Şehri (Cidade Subterrânea e Igreja de São Mercúrio) que foi usada como refúgio pelos cristãos na década de 250 d.C., porque a prática da religião católica continuava a ser proibida nesta região. Deixem que vos refira que as pessoas não viviam o ano inteiro nestas cidades só vinham para aqui quando estavam a ser atacadas. No entanto, conseguiam subsistir nestas até 6 meses sem precisarem sair. O nome desta metrópole é uma homenagem a São Mercúrio (de 225 a.C. a 250 a.C.), que era um soldado romano nascido Filópater, na cidade de Escento, na Capadócia, o qual foi decapitado pelos soldados do imperador romano Décio depois de se ter declarado cristão. Pensa-se que São Mercúrio se refugiou nesta cidade subterrânea para se esconder dos soldados romanos e que alguns membros da sua família estivessem aqui enterrados. A cidade ocupa uma área total de 2 Km, foi encontrada em 1990, mas só em 2011 é que começou a ser escavada e limpa. Em 2016, após terminarem a escavação e a limpeza abriu ao público. Tem 7 andares, mas apenas 3 podem ser visitados. Durante os trabalhos de limpeza foram encontrados 20 túmulos de crianças e adultos no chão da igreja. Nas paredes deste edifício é possível ver várias cruzes gravadas. Num dos andares há um túmulo que chamam Develi Dam que dizem ser o túmulo do fundador da cidade. As pessoas têm o costume de deixar oferendas.
Esta metrópole subterrânea possui um sistema de ventilação e é muito fresca, tão fresca que por mim teria ficado o resto do dia ali fechada, mas não me deixaram. Nos andares inferiores ficam as divisões da casa, como quartos, cozinha, casa de banho, sítios para guardar a comida, cisterna, entre outros. Nos superiores localizam-se a igreja, o cemitério e as divisões para os animais.

Era tempo de seguir para a Capadócia, a terra mística, pelo caminho muitas árvores que pareciam ser oliveiras, mas dada a nossa altitude, mais de 1000 m acima do nível do mar, achei estranho, porque a oliveira não se dá nestas altitudes, mas como a natureza tem coisas que ninguém consegue explicar achei que este poderia ser mais um mistério inexplicado da mesma. Mais tarde vim a saber que afinal as árvores eram Jujubes.
Ancara é como aquele provérbio turco que diz: “A beleza passa, fica a sabedoria”. A verdade e pelo menos para mim não é uma cidade bela, mas a compensar tem muita sabedoria centrada em si.
Galeria das fotografias legendadas: