Istambul

Istambul, 9 de julho de 2022.

Querido Peregrinação,

Espero que quando receberes esta carta te encontres bem e que andes a reconsiderar em começares a fazer companhia nas minhas deslocações tanto para fora como dentro de Portugal.

Agora que retorno à base, após fazer 2500 km por terras da Turquia, aproveito para tirar um pouco de tempo para te escrever estas linhas e assim partilhar contigo um pouco destes dois últimos dias passados em Istambul, porque os restantes dias já te fui enviando mensagens e fotos pelo caminho. Esta cidade é tal qual Nova Iorque nunca dorme, há sempre movimento nestas ruas, carros a apitar, ambulâncias a silvar e pessoas que parece estamos num formigueiro. Por cá tudo fica longe, mesmo quando dizem que fica perto, mas temos que ter em conta que é uma cidade que ocupa uma área total de 1 830,92 km² e tem mais de quinze mil milhões de habitantes. Para teres uma noção das distâncias, do hotel onde fiquei até a Mesquita de Santa Sofia (Agia Sophia) eram mais de 5 km a andar e disseram-me que ficava já ali como se fosse só atravessar a rua, enfim, são realidades diferentes das que temos aí nos Açores.

Estes últimos dois dias foram passados a corricar esta metrópole cujo nome diz tudo. É mundialmente famosa e tem um passado histórico de fazer inveja a muitas nações. Esta capital é habitada continuamente desde os tempos do Neolítico, mas só começa a ser mais falada quando aqui chegam uns colonos gregos, no ano de 667 a.C. e aqui fundam a cidade de Bizâncio, o nome este é uma homenagem ao rei Bizas. Depois, no ano de 330 d.C., Constantino conquista esta cidade e começa a construir a nova capital do império do Oriente e a esta muda outra vez de nome, desta feita para Constantinopla. O nome desta capital vai mudar outra vez quando os turcos otomanos conquistam esta cidade, em 1453, e dão-lhe o nome usado na atualidade, Istambul, o qual é adotado oficialmente em 1930, uma vez que até esta data a cidade tanto era chamada de Constantinopla como de Istambul.

Ontem foi dia de ir espreitar a parte histórica e a visita começou na Praça Sultão Ahmet (Sultanahmet Meydanı) que era o antigo hipódromo, que em tempos idos era o centro desportivo e social desta cidade. Restam alguns fragmentos deste espaço, como a coluna da serpente, que foi construída para celebrar a vitória dos gregos sobre os persas nas Guerras Médicas, no século V a.C. e que Constantino ordenou que fosse transportada desde Delfos para o hipódromo, ainda se pode ver o obelisco talhado em granito rosa de Tutmés III, que estava em frente ao templo de Karnak e que Teodósio, O Grande, no ano de 390 d.C. mandou transferir para este local e ainda um outro obelisco que atualmente é de pedra, mas que originalmente era coberto de bronze dourado, que foi mandado construir pelo imperador Constantino VIII, no século X. Infelizmente com a construção da praça o resto da estrutura encontra-se soterrada. O primeiro hipódromo aqui construído foi no ano de 203 d.C. pelo imperador Septémio Severo. No ano de 324 d.C., o imperador Constantino, O Grande, muda o governo de Roma para esta cidade tendo ampliado mais a cidade e renovado o hipódromo. Este local tinha 450 m de comprimento, 130 m de largura e a capacidade para 100.000 espectadores. A pista tinha a forma de um U.

Avancei caminhando pela praça e ia sentido e observando o local que apesar das muitas obras nos arredores estava muito limpo, algumas pombas e gaivotas (visto que o espaço está localizado junto ao mar) a coroarem o céu. Ao meu redor não faltavam pessoas que eram maioritariamente turistas, como eu, mas diz que quem lá foi antes da pandemia era bem pior o número de pessoas neste espaço. No extremo da praça encontra-se a Fonte Alemã, uma construção em estilo neobizantino, oferecida pelo governo alemão, em 1900, para comemorar a visita que o imperador Guilherme III tinha feito no ano anterior a esta capital. Continuei a caminhada e enquanto caminhava veio-me ao pensamento o atentado que ocorreu nesta praça, em 2016, que matou pelo menos 10 pessoas. Só imaginava o desespero das pessoas que ali estavam e quando dei por mim estava perante a única mesquita em Istambul que tem 6 minaretes, a Mesquita do Sultão Ahmed, também conhecida por mesquita azul. Esta foi construída entre 1609 e 1616 e é uma obra do arquiteto Sedefkâr Mehmed Ağa. Não precisei andar muito para chegar à mesquita mais famosa de Istambul, a Santa Sofia, que foi construída entre 532 e 537 pelo império bizantino para ser a catedral de Constantinopla. Sobre esta mesquita o que dizer, ela é imponente e a enorme cúpula que lhe dá fama é de cortar a respiração, não me admira que seja tida como ponto de referência para a história da arquitetura. Bom, fui relaxada pensando que era ainda um museu e para meu espanto constatei que deixou de o ser e virou mesquita durante este tempo da pandemia.

Interior da Mesquita Santa Sofia

A visita prosseguiu, mas desta feita de carro para o Palácio Topkapi (Porta do Canhão) e o calor também começava a apertar. Aqui, Peregrinação, o calor é seco, quer dizer que em vez de abafar como o nosso calor aí devido à humidade, queima e desgasta uma pessoa, juro-te que já estava a modos que só via o hotel à minha frente. No entanto, havia que cumprir o plano e acabar as visitas. Deixar o desabafo e referir que este palácio foi mandado construir pelo Sultão Maomé II, em 1453, após ter conquistado esta cidade. Foi a residência durante quatro séculos dos sultões, ocupa uma área total de 700.000 m², tem quatro pátios e três portões. Dentro deste palácio há várias divisões, como o harém do sultão, a sala de audiências, a sala das armas, os aposentos do sultão, a sala de relíquias sagradas, a biblioteca de Ahmed II, entre outras. Se pudesse ser era um dia inteiro dedicado a este palácio, mas infelizmente não podemos parar o tempo e lá prossegui, contrariada, mas tinha mesmo que ser.

E nisto meu querido entre visitas, carro e sofrer com o calor a manhã lá passou e o meu pensamento continuava fixo no ar condicionado do hotel, acho até que era este motivo que me mantinha em movimento, porque quanto mais depressa acabasse o plano mais depressa voltava para o hotel. No meu pensamento também cabiam outros pensamentos e enquanto fazia caminho para o Grande Bazar pensava como era possível a Turquia ser um destino de férias tão procurado e as pessoas não saberem falar inglês, é que nem nos hotéis os colaboradores falavam o inglês fluente e, muitas vezes, isto levava à falha de comunicação, mas pronto o certo é que as pessoas vão lá passar férias e nunca ouvi ninguém dizer que tinha passado sede ou fome. A língua gestual para pedir de comer e beber é universal e acredita, Peregrinação, mais uns anos e com o avançar das tecnologias até o comunicar vai ser feito através de alguma aplicação, quer dizer já há aplicações que fazem a tradução do que se diz, mas isto ainda vai avançar mais. Outro pensamento que me ocupava a mente eram aqueles muitos campos de papoilas que vi ao longo de toda a viagem na berma da estrada. Segundo consta, a Turquia é o maior produtor de ópio legal e é tudo controlado pelo governo, sobre esta questão surgiram-me várias perguntas as quais não consegui responder, mas deixei fluir, há perguntas que muitas vezes é preferível não se saber a resposta… No entretanto, continuava invadida pelos meus pensamentos e num ápice já estava a passear-me pelo Grande Bazar, que foi mandado construir em 1455, na época do sultão Moisés II. Este ocupa uma área total de 45.000 m, tem 360 lojas que se distribuem pelas 64 ruas, às quais se pode aceder através de 22 portas. Nele trabalham 20.000 pessoas e não vi nenhuma mulher a fazer atendimento, apesar deste pequeno pormenor não faltam pessoas dentro deste espaço muitas delas turistas. Aqui podes comprar quase tudo que possas imaginar. Findo o passeio pelo mercado era hora de finalmente regressar ao hotel e ao meu tão adorado ar condicionado para descansar.

Grande Bazar

Hoje ainda houve tempo para ir espreitar mais uns sítios e, por sorte, o dia acordou outra vez cheio de sol, já não podia ver mais o sol quero a minha neblina matinal e a minha chuva, se faz favor e enquanto te escrevo estas linhas estou bom a rir da minha personagem, porque, momentaneamente, fiquei típica turista a reclamar do tempo, ora se chove é porque chove, ora se está sol é porque está sol, não vai ser nada, vou para a ilha toda bronzeada, menos mal. Por falar em bronzeada, mas não tem nada haver, a Turquia é um país rico em recursos naturais e sabe como aproveitá-los, por exemplo produz energia aproveitando o sol e o vento das zonas altas, tem lindos campos cobertos de cereais, espantei-me quando me disseram que esta produção não satisfaz o consumo local e que tinham de importam cereais, não esquecer as famosas cerejas mundialmente conhecidas, fazem extração de mármore e tem muito mais coisas, menciono-te as que acho mais relevantes.

Então, sobre o dia de hoje, que estava em modo turista, este começou com a visita à mesquita de Solimão, que é a maior mesquita de Istambul e foi mandada construir pelo Sultão Solimão, em 1550, sendo uma obra do arquiteto Mimar Sinan. Daqui segui para o mercado Egípcio, que é património mundial da UNESCO desde 1985. Este é um mercado dedicado à venda de especiarias, doces e frutos seco. Foi mandado construir pela Sultana Safiye, em 1597. Este local é bem mais pequeno que o Grande Bazar, mas não deixa de também ser muito frequentado, mas aqui veem-se mais residentes. A viagem hoje estava alucinante era ver tudo às corridas como se este fosse o meu último dia de vida, assim entrei no carro para ir experimentar o teleférico que sobe à Colina Eyup. No cimo desta colina temos uma vista fantástica sobre a Baia (Corno de Ouro, como nós europeus lhe chamamos e fiquei sempre sem perceber porque chamamos aquele local assim, uma vez que não vi semelhança em nenhum lado a um corno, os turcos é que têm razão é uma baia, pois é o que vemos) também neste sítio fica a casa do antigo escritor e artista francês Pierre Loti, olha que foi esperto na escolha do local para viver, só aquela vista. Colina abaixo há um cemitério, o famoso cemitério de Eyup, não sou de visitar cemitérios, este em especial achei-o diferente porque as campas estão dispostas na encosta da colina e parece que os mortos estão a concorrer com os vivos em busca da melhor vista para a Baia. Ainda houve tempo para visitar a mesquita de Eyup. Esta deve o seu nome a Aiube Alançari, um dos companheiros do Profeta Maomé que terá sido ali enterrado em 670. A mesma só foi construída no ano de 1453 pelo Sultão Maomé II, O Conquistador. Este monumento é muito procurado por pais que vão circuncisar os filhos e, desculpa a minha ignorância, mas nem saiba que os muçulmanos também praticavam o ritual da circuncisão, nesta vida sempre a aprender.

Colina Eyup

E depois desta última visita e para teu espanto fui fazer coisas que só mesmo os turistas sabem fazer, como foi o caso de ir visitar a Baixa da Pera, passei pelo famoso Hotel Pera Palas, onde foi filmado cenas do filme Expresso do Oriente protagonizado pelo meu detetive preferido Hercule Poirot. Daqui segui para a Praça Taksim (distribuição em português). Esta zona é considerada o coração da parte moderna de Istambul, é uma zona muito movimentada com vida noturna, lojas, restaurantes e onde se pode visitar o Monumento da República. Claro que não deixei de passar na avenida Istiklal, a principal avenida pedonal desta metrópole que está repleta de edifícios do século XIX, que acolhem cadeias de lojas internacionais, cinemas e cafés e onde é possível ver passar os elétricos tradicionais.

E já pensas nesta terra não há igrejas católicas visto que ainda não te falei em nenhuma, mas para te dizer a verdade só hoje visitei uma que é a maior e que está implantada no coração desta zona nova de Istambul é dedicada a Santo António de Pádua e como a invocação indica foi mandada construir no ano de 1906 em estilo neogótico veneziano pela comunidade italiana que aqui vive. Tão pertinho que estive de Santo António e esqueci-me de pedir que me arranjasse casamento (risos). Começo a pensar que tenho alma de dervixe “é bom casar, mas melhor ainda ficar solteira. Aiiii rir comigo que estou inspirada.

Bom meu amigo, fico-me por aqui em breve estaremos juntos outra vez e contar-te-ei o restante desta aventura chamada Missão Turquia. Despeço-me deixando transparecer as minhas já muitas saudades e com um até breve! 

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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