O dia acordou no seu normal para a Turquia, sol e mais sol, para dizer a verdade já estava a começar a ficar farta do sol. No entanto, os deuses do tempo guardavam-me uma surpresa para este dia para que aprendesse a não reclamar mais do tempo, mas desta surpresa falaremos mais à frente, porque era tempo de seguir viagem para Cónia. Esta cidade industrializada que apesar de estar a 1030 metros acima do nível do mar é conhecida pela população usar muito a bicicleta como meio de deslocação. O uso deste transporte deve-se ao facto de esta ser uma cidade muito plana. Esta localiza-se na Anatólia Central, é capital metropolitana e de província de Cónia e tem cerca 1.003.373 de habitantes.
Antes de chegar ao destino final houve tempo para fazer paragem em Askarya e viajar no tempo para acompanhar os comerciantes da Rota da Seda. Esta rota consistia numa série de percursos todos interligados entre si na Ásia do Sul que eram usados para o comércio de várias mercadorias entre o Oriente e a Europa. Tendo sido essencial para as trocas entre estes continentes até à descoberta do caminho marítimo para a Índia. Estas rotas foram fundamentais para o desenvolvimento e florescimento das grandes civilizações antigas e também ajudaram a fundar o início do comércio do mundo moderno. Por aqui passou Marco Polo, o veneziano que arrendou um barco em Constantinopla e partiu para a Ásia tomando notas das suas aventuras que estão publicadas em livro e ainda hoje em dia fascinam o Mundo. Eu confesso que após ler o livro fiquei seduzida pela sua aventura e um dia quem sabe talvez consiga viver uma versão modernizada da aventura de Marco Polo. Este explorador não deve ter tido vida fácil, tal como os restantes comerciantes, que passavam a vida para a frente e para trás neste caminho para venderem e entregarem mercadorias enfrentando as adversidades do tempo e dos piratas que não tinham dó nem piedade. Outros tempos, outras realidades se bem que ainda na atualidade há uma disparidade de realidades, o que para mim é dado garantido em alguma parte do mundo nem sequer existe. Aiiii em frente que começo a pensar que os 700 km hoje percorridos deixaram-me vulnerável e sensível, quando cheguei ao caravancerai não consegui evitar que os meus pensamentos invadissem o espaço e percebesse o quão temos a vida tão facilitada e como damos tudo como garantido quando na realidade nesta vida nada é garantido, mas isto não nos deveria influenciar e deveríamos viver uma vida feliz com o que temos. No entanto, este constante querer sempre mais e mais faz com que a harmonia no Mundo seja muito delicada. Infelizmente, o ser humano só vai perceber isto quando já não houverem árvores, água potável, alimento e as outras regalias que temos e, nesta altura, vai aprender da forma mais dura que o dinheiro ajuda, mas não é tudo na vida. Bom voltando ao caravancerai, deixando o meu lado de filósofa descansar que hoje está aguçado. Então, este caravancerai que é um dos mais bem conservados foi construído no ano de 1229 pelo sultão Seljuk Kaygubad I, obra do arquiteto Muhammad ibn Khalwan al-Dimashqi. Ocupa uma área total de 4.900 metros quadrados, por fora tem aspeto de uma fortificação, mas na realidade é um albergue para os comerciantes descansarem e guardarem as suas mercadorias.

E após acabar esta viagem no tempo era hora de seguir caminho rumo ao convento dos Dervixes Rodopiantes também conhecidos por Mevlevi. Esta seita na atualidade já não existe, a não ser em espetáculos dirigidos para os turistas. Ataturk proibiu as danças sufis de origem Síria, porque era contra pessoas que não queriam trabalhar. Foi fundada pelo poeta e teólogo Mevlânâ Celâleddîn-i Rûmî influenciado por Şemsi Tebrîzî, um discípulo do sufis. O ritmo da dança é dado pelos versos do Alcorão sobre os quais os dervixes vão rodopiando com uma palma da mão virada para cima e outra para baixo para entrar em estado de transe para desta forma refletirem sobre diversas questões pertinentes, como por exemplo o surgimento do universo. Uma curiosidade, quem se quisesse juntar a esta seita teria que passar 1001 dias sem falar com ninguém e comer e beber muito pouco ou mesmo nada. No interior deste convento o túmulo do seu fundador e de alguns dos seus seguidores mais importantes. No exterior um poço, os quartos e um cemitério para senhoras, uma vez que a seita permitia o casamento, mas tinham como máxima “casar é bom, mas ficar solteiro é ainda melhor”.
E era tempo de meter outra vez pé na estrada e rumar a Pamukkale, onde me estava reservada a surpresa do dia, chuva e trovoada, para que as saudades do clima dos Açores acabassem. O medo da trovoada era imenso caia ali tão perto! Mas, tudo se fez e já na descida para Denizli o tempo virou, melhorando e lá conseguimos visitar estas piscinas termais de origem calcária, que com o passar dos séculos formaram bacias gigantesca de águas que descem em cascata por uma colina. Contudo, digo-vos, desde já, que andar tanto quilómetro para aqui chegar e encontrar as poças vazias para mim foi uma desilusão. No entanto, como em tudo na minha vida, vejo sempre o lado positivo das coisas e, neste caso, fui compensada, se por um lado a companhia de viagem era uma bênção, por outro lado a mãe natureza decidiu agraciar o final do dia com um pôr-do-sol majestoso. Nas imediações destas poças, a antiga cidade de Hierápolis aqui estabelecida no século II a.C. por Eumenes II, Rei de Pérgamo. No ano 17 d.C. durante o reinado de Tibério foi destruída por um terramoto, mas a mesma voltou a ser reconstruída, uma vez que os nobres romanos, de todo o império, vinham para aqui atraídos pelas águas termais.
Em 1988, tanto as bacias de mármore traventino, como a cidade de Hierápolis foram considerados pela UNESCO património Mundial da Humanidade.

Certo dia dediquei as minhas leituras a Clarice Lispector. Quem não se dedicaria a ler Clarice Lispector não é? Destas leituras ficou-me uma frase que resume e bem a passagem por Pamukkale: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”. A vinda a Pamukkale foi para viver e não para entender.
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