Dia 6 de junho de 2022, acordo nostálgica e no sol da Turquia. Hoje e como sempre o coração está preenchido pela minha terra, os Açores, mas neste dia em especial está abarrotado, porque no ano de 1980 é instituído pelo Parlamento Açoriano o Dia dos Açores, ou, como é comumente chamado pelo povo destas ilhas, o Dia da Pombinha. Este dia destina-se a comemorar a açorianidade e a autonomia do arquipélago.
É com este sentimento de patriotismo instalado que sigo viagem para dar continuidade à Missão Turquia. Para hoje o programa é curto e para uma pessoa não crente é no mínimo, arrojado, ostentado e enriquecedor! Era hora de ir espalhar um pouco da beleza de se ser ilhéu por esta vasta terra que é a Turquia. A primeira missão do dia ir ver a casa em que a Virgem Maria passou os seus últimos anos de vida e agora começo a imaginar a cara do Peregrinação quando ler este texto vai dizer que me converti (risos), mas ainda não foi desta, meu amigo. Assim e pelo que li após regressar a casa, há alguma controvérsia em relação ao reconhecimento desta casa, alguns livros afirmam que em 1896 a casa é oficialmente reconhecida pela igreja católica e outros deixam a dúvida sobre se alguma vez a igreja católica irá reconhecer oficialmente este local. A bem da verdade é que quando entras na casa para a visitar ficas a saber que esta já recebeu a visita de pelo menos três Papas. O primeiro a visitar foi o Papa Paulo VI, em 1967, seguiu-se João Paulo II, em 1979 e, mais recentemente, em 2006 visitou o Papa Emérito Bento XVI. A realidade é que num país em que mais de 90% da população é muçulmana ter um lugar com tanta importância para a religião católica faz ferida, mas não causa grande mossa e muito menos constrangimentos aos muçulmanos, uma vez que a este local acorrem muito muçulmanos. Aliás nunca estive num lugar com tão forte cariz religioso onde reinasse tanta paz entre crentes de várias religiões. Não menos verdade é que quem já leu o Alcorão saberá que o islão aceita Maria. Ela é considerada pura sendo mesmo vista como a mais perfeita das mulheres e a sua gravidez por intervenção divina é defendida por esta religião.

Sobre a casa, esta localiza-se no Monte Koressos (Monte Rouxinol), a mais ou menos 8 km daquela que é considerada a joia turca a cidade grega de Éfeso que já falaremos mais daqui a pouquinho. Conta a Bíblia que Jesus ao ser crucificado, pediu a São João para cuidar da sua mãe e assim para fugirem aos romanos João trouxe Maria para Éfeso, onde esta viveu até à sua assunção. Esta moradia foi encontrada em 1891 com a ajuda do livro Biographie der Anna Katharina Emmerick, do autor Clemens Brentano, o qual contém as visões que a referida irmã teve em 1812 sobre o local onde a Virgem Maria tinha vivido e onde tinha sido enterrada. O sítio do enterro nunca foi encontrado. De referir que é proibido tirar fotografias do interior da casa que é bastante singela. Nas imediações há uma cisterna, uma nascente que dizem ser água sagrada que cura tudo e um muro que chamam: o Muro dos Pedidos, no qual os crentes deixam pequenos papéis a fazer pedidos à Virgem ou com agradecimentos dos pedidos concedidos. A julgar pela quantidade de papéis existente no muro a Virgem Maria deve andar bastante ocupada a atender todos aqueles pedidos.
Finda a visita à Casa da Mãe Maria era tempo de voltar à estrada na companhia do meu bem-amado sol! Sim, depois da tempestade e trovoada do dia anterior prometi que aceitaria as temperaturas altas sempre com sorriso na boca e lá fui eu para a joia turca, a cidade de Éfeso, feliz e contente…
Esta antiga cidade grega, localizada a três quilômetros a sudoeste de Selçuk, província de Esmirna, foi construída no século X a.C. e no século I a.C. já contava com cerca de 250.000 habitantes fazendo com que fosse a segunda maior cidade do mundo antigo, foi muito importante para os vários povos (egípcios, romanos, árabes, persas e bizantinos) que por aqui passaram influenciando tanto a nível cultural, como comercial e até mesmo a nível religioso.
Esta metrópole foi muito relevante para o cristianismo visto ter sido o principal ponto da expansão da fé católica. Neste local, entre 22 de junho e 31 de julho de 431, realizou-se o terceiro concílio ecuménico, convocado pelo Imperador Teodósio II, para se discutir o nestorianismo. Deste concílio resultou o chamado símbolo de Éfeso, o qual reconhece a maternidade divina de Maria. Também é em Éfeso que se construiu a primeira igreja católica dedicada à devoção da Virgem Maria.
Esta cidade foi destruída pela tribo germânica os Godos, em 263, mas foi reconstruída devido à sua importância comercial. O mesmo voltou a acontecer no ano de 614, mas desta feita a cidade foi parcialmente destruída por um terramoto. Com o passar dos anos o Rio Caístro foi assoreando esta capital e o porto acabou por perder a sua importância comercial.

Aqui é possível visitar a Biblioteca de Celso, que em tempos foi uma das maiores do mundo, a qual guardava mais de 12 mil pergaminhos. Esta foi construída em mármore, no ano 110 e nela encontra-se enterrado o imperador romano Tiberius Julius Celsus Polemaeanus. Mais à frente, o Grande Teatro, que na atualidade continua a manter a sua acústica fenomenal, cuja ocupação total era de 25 mil pessoas. Este era usado tanto para encenações de dramaturgia, como para palco de lutas de gladiadores. Para se chegar ao teatro passa-se pelo famoso mármore da Rua dos Curetes, mais conhecida pela Rua do Porto. Originalmente esta artéria tinha 800 m, no entanto, na atualidade, só restam 500 m. Ao longo da via podemos ver marcas de centenas de anos de uso e podemos imaginar Marco António e Cleópatra a passearem por aqui, uma vez que eles são dois dos seus mais famosos visitantes. Nas imediações desta metrópole, aquele que foi considerado uma das 7 maravilhas do mundo antigo, o Templo de Ártemis que foi descoberto em 1869. Este templo foi construído no século IX a.C. e com o passar dos anos foi sendo ampliado das 100 colunas que possuía apenas uma contínua erguida mostrando resistência ao passar dos anos.
Segui viagem, o dia já ia longo e era preciso descansar, visto que no dia seguinte seguiria rumo a Bursa, mas antes do merecido descanso uma paragem para ver o Mar Egeu. Os meus pensamentos, estes invadidos pelo pai da dialética Heráclito de Éfeso: “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.”. Foi neste momento que me apercebi que a viagem já se aproximava do fim e, não pude evitar os meus pensamentos que me lembravam do muito que ficaria por ver neste país e como seria voltar uma segunda. Então, entendi que nada seria como a primeira vez e que no dia que voltar vou, por certo, tornar a encantar-me por este país.
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