Nordeste, 22 de maio de 2022.
Domingo, dia grande das festas das maiores manifestações religiosas dos Açores dedicadas ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, que este ano e dadas as condições climatéricas, muita chuva e nevoeiro, pensei que não haveria procissão, mas talvez porque esta já não se realizava há uns anos devido à pandemia da Covid-19 e pelo povo estar sedento para ver a imagem sair à rua, a procissão realizou-se. Eu para escapar à confusão da festa decidi não ficar na cidade e “fugi” para o concelho do Nordeste. Este concelho localiza-se na zona mais antiga (4 mil milhões de anos) e mais acidentada da ilha de São Miguel. É aqui que se encontram os pontos mais altos desta ilha, Pico Redondo (980 m), o Pico Verde (932 m), o Pico Bartolomeu (881 m) e o Pico da Vara (1105 m), sendo este último o ponto mais alto de toda a ilha.

O destino final seria o lugar da Assomada para fazer parte dum trilho usado pelos romeiros e que liga a Assomada a São Pedro de Nordestinho (esta freguesia foi criada a 16 de junho de 2002, após a divisão da antiga freguesia de Nordestinho. Com esta divisão também foram criadas as freguesias da Algarvia e Santo António de Nordestinho). Este é um pequeno trajeto que passa pela Ermida de Nossa Senhora do Pranto. O trilho começa no início da Assomada e a descer uns degraus que levam a uma mata, a meio caminho há uma ponte de madeira sobre a ribeira da Baieta que é preciso atravessar para continuar em direção à ermida. Chegada ao cimo das escadas e já do outro lado da ponte, chega-se a uma zona de pastagem que leva ao pocinho. Este poço é referido pelo Frei Agostinho de Monte Alverne na sua obra, que diz que a água teria aparecido milagrosamente quando uma trabalhadora, de seu nome Catarina Dias, fez um pedido à Nossa Senhora para que lhe desse uma fontinha mais perto da obra para que não tivesse tanto trabalho. Quando a obra acabou a nascente secou, mas tempos depois tornou a renascer e segundo consta entre os antigos, a água que corre atualmente é a mesma que brotou do nada. Na atualidade esta nascente está protegida por uma gruta construída pelos locais. Uma curiosidade sobre este poço, segundo o povo, numa das pedras junto à nascente há uma marca que dizem ser o pé pequenino de Nossa Senhora que ali pousou ao ir matar a sede. Mais à frente, a ermida dedicada à Nossa Senhora do Pranto. Gaspar Frutuoso liga a construção desta ermida a algumas lendas que referem que a mesma foi construída no ano de 1522. No texto que relata a construção desta mesma, o padre historiador refere que um jovem pastor de gado estava na Lomba de São João guardando os animais quando avistou Nossa Senhora e a Virgem ter-lhe-á ordenado a construção de uma ermida naquele local e, se tudo fizessem como indicado, aquela localidade não sofreria nem da peste, nem dos tremores de terra, pois a Senhora do Pranto intercederia junto do seu amado filho. E o povo tomado pela fé ter-lhe-ia construído. Apesar da interessante lenda referida por Gaspar Frutuoso, a realidade é que no ano de 1523, a peste surgiu na casa de Afonso Seco, morador em Ponta Delgada, três anos mais tarde, em 1526, a pestilência começou na Ribeira Grande e Nordeste ficou livre desta doença. Em 1563 deu-se uma grande crise sísmica em São Miguel e esta ermida não sofreu danos.

O caminho prosseguiu, uma vez que o tempo ameaçava chover, pelo que subi a Rua da Via Sacra. Ao chegar à Estrada Regional decidi continuar a caminhada, mesmo sabendo que mais tarde ou mais cedo iria chover. Então, segui rumo ao centro de São Pedro de Nordestinho, onde encontrei a igreja, que segundo consta é a mais antiga do concelho de Nordeste, foi construída no início do século XVI e em tempos idos foi pertença do Sr. Sebastião Pereira. Na fachada sob a cruz há um fecho com a data 1764 inscrita, que é referente à reconstrução deste edifício que é dedicado ao santo que dá nome a esta freguesia. Daqui segui para a zona do Outeiro, uma vez que havia decidido fazer parte do Trilho Quinhentista. Este trilho passa pela antiga zona de belos pomares de suculentas maçãs e laranjas, onde ainda é possível ver as antigas estradas de calçada construídas com pedra basáltica. Nesta zona decidi atravessar a Ribeira do Espigão para ir explorar o que pensava ser um moinho de água, que sempre achei estranho não ter uma levada e qual não foi o meu espanto ao constatar que não se tratava dum moinho e sim de uma cafua construída em pedra, na qual ainda é possível ver os bancos. Deve ser um exemplar único deste tipo de arquitetura, porque todas as cafuas que encontrei até hoje nas minhas caminhadas sempre eram escavadas nas encostas de terra. Seguindo o caminho antigo cheguei ao ponto mais alto da caminhada, 540 m acima do nível do mar. Por esta altura, o tempo já tinha mudado, chovia e tinha-se abatido nevoeiro, mas as condições meteorológicas adversas não foram impeditivas para apreciar a mata relíquia de cedros-do-mato e criptomérias. Estava na hora de começar a descer e voltar para o carro, a chuva estava a tornar-se incomodativa, pelo que sai do caminho do Trilho Quinhentista para entrar no caminho florestal de São Pedro e chegar ao caminho da rachã para entrar, momentaneamente, na estrada regional, para mais à frente virar para o caminho da lazeira, voltar à estrada regional, atravessar a ponte de pedra sobre a ribeira da Baieta e chegar ao ponto inicial, como um pinto toda molhada, mas consolada e feliz!

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