Ponta Delgada, 23 de maio do ano da graça de 2022, o dia acordou muito nublado e chuvoso na costa sul, mas após espreitar um site, que mostra as condições meteorológicas em tempo real, decidi ir para a costa norte, para aqueles lados pelo menos não chovia.
Enquanto me dirigia para o carro ia mergulhada na dúvida se faria trilho oficial ou se ia inventar caminho. Acabou por prevalecer fazer trilho oficial porque tinha que entregar umas coisas ao Peregrinação e como inventar caminho envolve, por vezes, ter que abrir o caminho é preciso ter mais tempo disponível e na falta de tempo nada como fazer um trilho oficial, uma vez que o percurso está aberto pelo que é só seguir.
Assim, a decisão difícil é sempre a escolha do trilho, mas hoje já me tinha limitado a dois na minha cabeça, São Pedro Nordestinho ou Lomba da Maia. O último ganhou porque uma derradeira espreitadela no site que mostra o tempo, este ditava chuva e nevoeiro em Nordeste, nunca foi tão fácil escolher um trilho na minha vida, afinal os deuses do tempo sempre gostam de mim ao contrário do que dizem (risos).
Barquinha aguarda-me que estou a caminho! Iniciei a trilho não no início oficial e sim na Rua do Fim da Lomba só para ser diferente. Depois deixei fluir e segui rumo ao percurso oficial por caminhos alheios, porque uma vez diferente para sempre diferente e já que tinha começado o trilho à minha maneira haveria de o fazer todo ao contrário… comecei a descer por um caminho de terra batido cheio limos, pura adrenalina descer sem escorregar e após alguns metros de adrenalina encontrei uma placa/seta na qual se lia “caminho difícil”, alegria! Embora mantermo-nos no caminho difícil, porque levam a destinos incríveis e eu sabia de antemão que sim, iria ver a cascata das três bicas que é deslumbrante, penso que assim se chama porque tem três saltos. Aqui já tinha entrado em caminho oficial pelo que era seguir a sinalética que indicava subir.

Este trilho oficial da Barquinha passa por antigas canadas, as quais eram usadas por agricultores para acederem às suas terras e notei que andam a limpar estas muitas antigas canadas que já haviam sido tomadas pela mãe natureza e também eram usadas por moleiros que por aqui passavam para irem moer o trigo e o milho nos moinhos (ruínas na atualidade) que existem ao longo da Ribeira Funda (segundo o Padre historiador Gaspar Frutuoso esta ribeira ganhou este nome “por ter grandes alturas de ambas as partes pelo que também é chamada de Grota Funda”). Estas gentes ao deslocarem-se por estas canadas faziam paragens para comer, dormir e protegerem-se do mau tempo em abrigos que eles próprios construíam ao longo do caminho. Neste trilho na subida vinda da cascata passei por um destes abrigos que felizmente foi recuperado. Um bem-haja ao iluminado que decidiu recuperar o abrigo! Daqui o caminho é descendente até uma bifurcação, a qual se virarmos à direita faz ligação ao trilho oficial dos moinhos da Ribeira Funda, uma boa oportunidade de quem não conhece os moinhos ir vê-los, eu segui pela esquerda pelo que o meu caminho começou a subir e levou-me ao miradouro da eira, do qual tens uma vista soberba sobre a costa norte. Este miradouro, como o próprio nome indica, era uma antiga eira que pertencia à família Amaral, que gentilmente concedia a utilização deste espaço às famílias da Lomba da Maia que aqui malhavam leguminosas secas, como por exemplo o feijão e a fava. De referir que este espaço era de muita importância para as populações rurais, nem todos tinha dinheiro para construir a sua eira, porque a pobreza naqueles tempos era soberana e todos precisavam de a usar, quer dizer na atualidade não andamos muito melhores, mas há outras comodidades. Este miradouro há uma placa informativa muito interessante, graça a ela fiquei a saber a que se refere o ditado popular que diz: “sem eira nem beira” ao lerem o que referi anteriormente sobre a eira já devem ter percebido o significado do “sem eira”, no que toca ao significado do “sem beira” e segundo a placa este refere-se às famílias rurais que na sua maioria eram muito pobres e, como tal, não tinham dinheiro para construir as beiras dos seus telhados.
Após tanta subida finalmente uma descida que leva à Ribeira do Preto (e segundo novamente Gaspar Frutuoso era assim chamada porque “nela morava um homem não muito branco”). Nesta descida começa-se a ver a pequena península formada pela escoada lávica basáltica que deu nome ao trilho a Barquinha. Esta ponta é usada pela população local para pescar e para os banhos do mar e daqui foi subir a encosta para chegar ao caminho que leva a uma estrada de cimento, mas antes de chegar à estrada um pequeno desvio para ver a Cascata do Preto.

Já na estrada de cimento o meu entusiamo começou a manifestar-se estava a chegar ao meu bónus do trilho, ou seja, ao caminho que levava ao lagar do Peregrinação e lá ia eu feliz e ansiosa porque finalmente havia chegado o dia de ver a obra feita para erguer a ermida dedicada a Santa Filomena das Vinhas. Confesso quase chorei de emoção quando vislumbrei a ermida ao longe, mas disfarcei os meus sentimentos… a ermida está quase pronta e a obra ali feita é de cortar a respiração mesmo aos não crentes como é o meu caso. Por momentos fico sem palavras, coisa que raramente me acontece, mas depois da branca, penso “Isto está irreal, simplesmente fantástica!”, ou seria mais assombrosa e chego à conclusão de que não há palavras para descrever o que vejo. A única certa é o muito bom gosto, como tudo está a ser feito, mas o bom gosto é uma coisa que quando me lembro do Samuel está, automaticamente, associada a ele.
Este meu Peregrinação é um visionário levou anos a maturar a ermida na sua cabeça e quando esta saiu dos pensamentos para a realidade é surreal, aqueles penedos rudes a saírem das paredes trazendo a natureza para dentro da ermida a juntar aquela nascente que surgiu do nada e o sino quando estiver montado vai fazer-se ouvir por certo na Praia da Viola. Valeu a pena todos os anos de espera para concretizares este teu sonho e digo-te estou muito orgulhosa de ti pela tua luta e perseverança na construção da tua ermida. Quando estiver pronta vai ser uma mais-valia para a freguesia e vai enriquecer este trilho da barquinha, sendo mais um ponto de interesse a juntar aos outros.
Após esta paragem era tempo de seguir para o carro e pelo caminho pensava no quão este trilho está a precisar de manutenção, uma vez que parecia estar ao abandono, mas quando passei pelo placard informativo fiquei a saber que o mesmo se encontrava fechado temporariamente, o que me levou a questionar a razão que levou o trilho a ser fechado, uma vez que a única coisa que vi estar mal foi mesmo a falta de manutenção.

Nota final: Este texto é dedicado ao nascimento da ermida mais linda de toda a ilha de São Miguel, Açores. Bom pelo menos para mim é, falo da ermida particular dedicada a Santa Filomena das Vinhas. Confesso que enquanto não crente deixei-me cativar por esta ermida, talvez porque acompanhei o nascimento da mesma desde o sonho do Samuel até esta sair do sonho e tornar-se real e palpável e como tal ganhou um lugar muito especial no meu coração. Foi oficialmente inaugurada no dia 9 de agosto de 2022 e eu fui orgulhosamente a sacristã, por certo a pior sacristã que alguma vez já existiu, mas a abonar a meu favor digo que nunca tinha tocado sinos na minha vida pelo que quem dá o seu melhor não merece castigo. Por certo, Santa Filomena ficou orgulhosa de ver toda a festa que foi a inauguração da sua ermida e nem deu pela sacristã ser tão má (risos). Obrigado, Samuel, por existires e por deixares acompanhar-te nesta tua jornada de vida, és de muito valor.
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