Segunda-feira, 19 de setembro de 2022, são 8h30m, aterro na ilha do Dragão, (São Jorge) chove e penso “a minha missão Ponta-a-Ponta começa abençoada”. Recolho a bagagem, saio do aeroporto e sigo viagem para dar início à travessia, não havia tempo a perder, havia, sim, um plano a cumprir, ou seja, atravessar a ilha saindo do extremo Oeste, na Ponta dos Rosais e acabar no extremo Este, no Topo.
Assim, iniciei a travessia na zona da Ponta dos Rosais. Este ilhéu é considerado um monumento natural e está inserido no Parque Natural de São Jorge. Este parque ocupa uma área de 170 hectares e tem falésias que atingem os 376 metros de altura.
Ao chegar à Ponta dos Rosais já não chovia, mas o dia continuava muito cinzento, influência da tempestade tropical Gaston que estava de passagem pelos Açores. No entanto, diga-se de passagem, os deuses estavam favoráveis ao meu desafio e não choveu, ameaçou, mas não choveu. Bem que mandaram ventos que quase me faziam levantar voo, mas nada me demoveu de cumprir a minha missão. De referir e a título de curiosidade que no sábado, dia 26 de setembro, estava marcada a prova de trail run mais desafiante dos Açores, “São Jorge de Ponta a Ponta”, a qual acabou por ser cancelada devido à passagem desta tempestade tropical. Antes de iniciar a caminhada fiz uma paragem para ir ver a ruína do antigo farol dos Rosais que aquando da sua inauguração em 1958 era o melhor farol e o mais avançado tecnologicamente de toda a rede de faróis portuguesa. Em 1964 e devido a uma crise sísmica foi abandonado temporariamente, mas o seu abandono permanente deu-se com o terramoto de 1980, o qual provocou desabamentos das falésias.
Dei por terminada a visita ao farol que serviu para acalmar a mente e o corpo. À minha espera talvez o meu desafio mais ambicioso até à presente data, a minha primeira travessia desta ilha encantadora que é São Jorge de Ponta a Ponta também a mais longa caminhada que vou fazer sozinha. Nestas situações do desconhecido o medo por vezes instala-se, mas veio-me aos pensamentos uma frase de li já tem algum tempo: “Vai. E, se der medo, vai com medo mesmo.” Não sei de quem é, mas quem a disse era uma pessoa sábia, pois não podemos deixar que o medo seja impeditivo de fazer o quer que seja na nossa vida. Foi com o medo instalado que iniciei oficialmente a minha travessia, naquele caminho de terra batida, que em dias de tempo favorável é possível ver as ilhas do Pico e Faial a Sul e a Graciosa a Norte. Este caminho levou-me até à minha primeira paragem o Parque Florestal das Sete Fontes que é um dos maiores parques florestais desta ilha. Aqui parei para ver a Capela de São João Batista construída nos finais dos anos de 1970, é um templo de construção moderna com torre sineira central e um alpendre onde se encontra um altar e a primitiva pia batismal que pertencia à Igreja da Nossa Senhora do Rosário da freguesia dos Rosais.

Deixando o parque e seguindo a sinalética virei à direita para um caminho de terra batida delimitado por muros de pedra e grandes criptomérias que fechavam o caminho cobrindo-o com sombra permanente fazendo com que o mesmo estivesse lamacento. Mais à frente o caminho transformou-se, as criptomérias deram lugar a conteiras e silvas e o piso lamacento a um piso muito escorregadio devido às muitas pedras pequenas. Este caminho levou-me a uma localidade chamada Ponta e terminou na Estrada Regional que atravessei para entrar em outro caminho de terra batida ladeado por muros de pedra e árvores de incenso que me levaram ao centro da freguesia dos Rosais, onde parei para ver a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a qual pensa-se ter sido construída no século XVIII.
O caminho seguiu rumo à Beira e foi feito todo pela Estrada Regional, resumindo não teve nada de relevante para ver a não ser uma pequena capela que não descobri ainda o nome. Já na Beira passagem pela União Cooperativa de Lacticínios de São Jorge, onde se produz o afamado queijo de São Jorge que é certificado. A próxima paragem seria na freguesia de Santo Amaro, mas para aqui chegar caminhei até ao centro da Beira pela Estrada Regional e daqui virei à esquerda seguindo a sinalética para mais à frente deixar o asfalto e entrar num caminho de terra batida que serpenteava por entre pastos. No final deste caminho e já quase a chegar à minha segunda paragem entrei novamente em caminho de asfalto, mais propriamente na Rua de Cristo Rei, onde passei por uma pequena igreja muito singela dedicada a Cristo Rei, a qual, segundo uma cartela existente na fachada principal, foi construída em 1933. Depois foi virar à direita para começar a descer a Canada de Santo Amaro que me levou à Igreja de Santo Amaro, uma igreja bastante singela, a sua fachada apresenta uma torre sineira com relógio e um frontão triangular, com uma porta, janelas e óculos. Esta igreja paroquial, que foi construída no século XVIII, veio substituir um primeiro templo ali construído, segundo Diogo Chagas, no século XVI. Em 1998 devido ao sismo ocorrido na ilha do Faial que se fez sentir nesta localidade com bastante força esta sofreu grandes estragos, mas foi rapidamente recuperada pelos paroquianos.
Era tempo de seguir caminho rumo àquela que pensava ir ser a minha primeira via dolorosa, mas que se veio a mostrar não ser assim tão dolorosa, ou seja, a subida para o Pico da Esperança. Segui caminho, não havia nada a fazer, se quisesse completar a travessia teria que subir ao Pico da Esperança. Assim, segui pela Rua João Inácio de Sousa passando pelo Triatro do Espírito Santo e no final desta rua encontrei uma bifurcação onde virei à esquerda para a Rua do Rubineu, nesta rua há um miradouro que não decorei o nome, o qual tem uma vista interessante sobre Velas, mas todos aqueles cabos de eletricidade a passarem à frente do miradouro fazem com que o mesmo perca logo o encanto. Andei uns metros grandes nesta rua e seguindo a sinalética virei à esquerda e entrei numa canada de terra batida e aqui a parte pior sinalizada até mesmo a parte que faltava a manutenção, penso que esta parte quem faz este percurso deve usar caminho alternativo para este estar nestas condições, tomado por conteiras. Este caminho só começa a melhorar numa zona em que há exploração de bagacina, porque aqui, sim, a via está limpa. Este caminho levou-me à Reserva Florestal de Recreio das Macelas que ocupa uma área de cerca de 6 hectares. Neste ponto fiz um desvio para tentar a minha sorte e apreciar a vista no miradouro do canal, mas o nevoeiro já se tinha baixado e não consegui ver nada pelo que segui caminho pela Estrada das Macelas, no entanto, voltei a este miradouro noutro dia com melhores condições meteorológicas e então, sim, apreciei a vista privilegiada sobre o oceano Atlântico e na linha do horizonte as ilhas do Pico e do Faial.

A subida rumo ao Pico da Esperança continuou primeiro pela estrada das Macelas e depois por um caminho de acesso a pastos. Nesta zona, o nevoeiro já estava a incomodar, demasiada claridade para a vista. Pensava para mim, é hoje que encontro o nosso El Rei Dom Sebastião, mas os únicos seres vivos que encontrei foram as vacas fazendo a sua vidinha nos pastos.
Apesar do nevoeiro seguia serena com os meus pensamentos e avançava por aquele caminho de terra batida acompanhada pelas vacas nas pastagens e, diga-se de passagem, são uns animais muito curiosos mal viam o meu vislumbre chegavam-se mais perto das vedações. Com o avançar da subida, e para minha surpresa, o tempo melhorou o nevoeiro dissipou, e notei que no meio de tanto nevoeiro já tinha transposto o Pico da Brenhas (803m) e o Pico das Caldeirinhas (835m), dei por mim a atravessar a Estrada Regional para chegar ao Bocas de Fogo (767m) e, desta forma, entrava na Área Protegida para Gestão de Habitats ou Espécies do Pico da Esperança e Planalto Central, a qual se localiza na freguesia do Norte Grande, concelho de Velas, a mesma ocupa uma área de cerca de 1087 hectares e a cordilheira central tem de comprimento 54 km. Nesta zona é possível observar cerca de 150 centros eruptivos, a sua maioria cones de escória com idade inferior de 10.000 anos, onde se destaca o Pico da Esperança que é ponto mais alto da ilha de São Jorge, com 1053m, formado há cerca de 5500 anos e o Morro Pelado (1019m) que possui o algar vulcânico mais profundo do Açores, com 140m de profundidade. Esta zona é muito rica em biodiversidade, na qual se podem ver várias lagoas e turfeiras que ajudam à ocorrência de várias espécies endémicas, como a Chaerophyllum azoricum, pé-de-pomba (Ammi trifoliatum), Tolpis azorica, Euphrasia grandiflora e a orquídea mais rara da Europa, a Platanthera azorica. Na fauna endémica, o artrópode Trechus jorgensis e aves como a narceja-comum (Gallinago gallinago). Mas para chegar ao Pico da Esperança ainda tinha que transpor mais alguns picos desta cordilheira, como o Pico do Pedro (901m), o Pico do Carvão (875m), o Pico da Junça (875m), o Pico Verde (953m) e o Pico Montoso (946m). Antes de chegar ao Morro Pelado um encontro inesperado com um cão de fila que corria em minha direção e apesar de não ter medo de cães comecei a ficar assustada porque o dono que vinha a cavalo mais atrás começou a chamar, incessantemente, pelo cão e pensei querem ver que o cão vai-me atacar e não é que sofri um ataque atroz do cão de carinho fez-me uma enorme festa, pulou, deu beijinhos e, por fim, quando acalmou também recebeu a sua dose de carinho. O cão era muito calmo e boa energia chamava-se Veneno, mas de veneno não tinha nada. Aproveitei para meter conversa com o dono, porque quando estou fora da minha zona sou muito sociável fiquei a saber que o cão gostava muito de ir passear para aquela zona e aproveitando a melhoria do tempo o dono fez a vontade ao cão. Depois desta troca de palavras prossegui caminho deixando o Veneno ir feliz e contente acabar o seu passeio, mais à frente o memorial das vítimas do acidente de avião a 11 de dezembro de 1999 e num ápice estava a ser a mulher mais alta de São Jorge por breves, quer dizer, breves longos momentos, porque deixei-me ali ficar, abismada com tanta beleza. Afinal e segundo consta não é todos os dias que o Pico da Esperança deixa que quem por ali passa tenha o vislumbre de tamanha beleza, pelo que sinto fui bafejada pela sorte, uma vez que quando cheguei ao geodésico não havia nevoeiro, pelo contrário, o céu estava sarapintado de nuvens e o sol a fazer a alegria de quem caminhava. Estava tão bom ao ponto de se ver Pico e Faial no horizonte.

Após este momento de puro prazer e enorme alegria era tempo de voltar à realidade e ao caminho de terra batida para continuar a minha missão começar a descer rumo ao Norte Pequeno e com este simples movimento mudava de costa deixei o sul para trás e entrei na costa norte. O caminho da descida deixou-me encantada de uma vez por todas com esta zona da ilha, visto que não faltavam lagoas e lagoinhas, como já devem ter reparado sou fascinada com a água, em certos dias penso que na outra encarnação, se existe tal coisa, fui um ser aquático. Contemplei duas destas lagoas mais de perto quando passei pelo Pico do Areeiro (958m) e pelo Pico Pinheiro (895m). Ainda nesta zona, entre o Areeiro e o Pinheiro, passei por umas “bombas vulcânicas” gigantescas e espantada com o tamanho destas pensava que força tinha o vulcão que expeliu pedras assim tão grandes. Tentava imaginar toda a cena, o vulcão a rebombar e a expelir lava, cinzas e pedras, uma cena carregada de dramatismo. Mais à frente um desvio chamou-me à atenção, uma ponte lávica, pelo que fui explorar e a ponte levou-me a uma pequena gruta.
Saindo da Área Protegida para Gestão de Habitats ou Espécies do Pico da Esperança e Planalto Central e já no lado norte da ilha de São Jorge segui por um caminho de terra batida, ao longe as vacas, a minha já habitual companhia e a vegetação endémica, a Urze (Erica azorica), o Azevinho (Ilex azorica) e o Cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), que só foi interrompida quando cheguei a uma estrada asfaltada, na qual caminhei por breves instantes para mais à frente virar à direita e entrar novamente num caminho de terra batida que me levou à estrada Regional e à freguesia do Norte Pequeno, onde acabei esta primeira parte da travessia junto à igreja de São Lázaro que, segundo uma cartela que existe no seu frontispício, foi construída em 1761.
Apesar de ter feito a grande rota toda de seguida decidi dividir o texto em dois para não o tornar muito longo e maçador. Assim, em breve publicarei a segunda parte.

Nesta primeira parte da Grande Rota de São Jorge falo sobre a ligação entre a Ponta dos Rosais e o Norte Pequeno, a qual levou-me a muitos caminhos de terra batida usados para ligar terras de cultivo e pastos, mas, refira-se, a maioria dos caminhos que a compõem são de asfalto. Mencionar que para toda a travessia fui munida de GPS, onde levei os trajetos que ia percorrer, fui precavida para o caso dos trilhos não estarem devidamente bem assinalados, mas, felizmente, todo o trajeto está muito bem sinalizado.
Gostaria ainda de lembrar que esta travessia é dura, muito acumulado, alto patrocínio das muitas fajãs, picos e serra. Assim, para a concluir sem grandes mazelas convém manter o corpo hidratado e nutrido ao longo de todo o caminho que se decida percorrer por dia, como dizia o meu PT “comer e beber antes de ter fome e sede”. Acima de tudo conhecer o seu corpo e conhecer os seus limites, não vale a pena arriscar a sua integridade física. Um bem-haja e boas caminhadas!
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