Grande rota Ponta-a-Ponta de São Jorge (2.ª parte)

A segunda parte, e dando continuidade ao texto da grande rota Ponta-a-Ponta de São Jorge, começou no Norte Pequeno, junto à pequena igreja de São Lázaro. A atual igreja veio substituir um antigo templo ali construído em 1690, o qual foi destruído por um terramoto, em 1757. As obras para construção desta igreja iniciaram-se pouco tempo após a sua destruição por iniciativa do padre Nicolau António Silveira. A obra ficou a cargo de José de Avelar de Melo que concluiu a mesma em 1761. Esta data pode ser vista numa cartela que existe na fachada da igreja. Do primeiro templo mantiveram-se a torre sineira e a fachada principal com frontão triangular com cruz.

O dia na costa norte, apesar da passagem da tempestade tropical trazer consigo o alerta vermelho, apresentou-se como um lindo dia de verão. Aliás, praticamente, todos os dias que caminhei nesta costa apresentaram-se sempre muito agradáveis, era aproveitar a bonança para cumprir a missão. Assim, segui caminho deixando a igreja para trás caminhado uns metros grandes pela Estrada Regional para mais à frente virar à esquerda e entrar na Canada do Poço. Andei mais uns metros e virei à direita para a Travessa do Poço do Jogo e por fim começar a descer a rua que leva à Fajã dos Cubres. Esta fajã integra as “Maravilhas de Portugal – Aldeias”, desde 2017. No seu interior existe um pequeno lago onde pássaros migratórios fazem paragem antes de chegarem ao seu destino final. No centro desta fajã, a pequena ermida dedicada a Nossa Senhora de Lourdes. Esta ermida teve a sua construção graças ao emigrante nascido nesta fajã o senhor Faustino Nunes, que para além de ter pago toda a obra, também ofereceu o terreno e a imagem da nossa senhora. A mesma abriu ao culto pela primeira a 18 de outubro de 1908.

De referir que esta viagem foi benéfica para que conhecesse muitos dos interiores das igrejas e ermidas desta ilha, as quais em passagens anteriores tive a pouca sorte de as encontrar fechadas, apesar de não ser crente aprecio a arte religiosa.

Após esta visita era hora de voltar ao motivo pelo qual desci a esta fajã, ou seja, a travessia. Estava na hora de seguir caminho e fazer a ligação à Fajã Caldeira do Santo Cristo, a qual tem um pequeno convento dedicado ao santo que lhe dá nome, Santo Cristo, que foi construído entre os anos de 1832 e 1835. Já tinha vindo anteriormente a esta fajã e nunca o tinha apanhado aberto pelo que quando reparei que estava aberto, fiz desvio para o ver. O seu interior é ricamente decorado, dizem os moradores desta ilha que este pequeno convento é muito venerado recebendo muitas esmolas e talvez sejam estas muitas esmolas que expliquem o estado de conservação e a riqueza que este alberga. Antes de chegar ao convento passei pela lagoa que é classificada como Paisagem Protegida e Local de Interesse Cultural e Paisagístico. Nesta lagoa procriam as famosas amêijoas e também alguns peixes. Sendo que à semelhança do pequeno lago dos Cubres também é local de paragem para aves migratórias.

Fajã dos Cubres

Só para que conste o registo, no dia em que por aqui passei as pequenas ruas estreitas encontravam-se em obras para serem calcetadas.

Ao longo de todo o caminho que liga estas fajãs a ilha Terceira no horizonte a acompanhar e vegetação como o feto, o perrexil-do-mar e o bracel-da-rocha. Antes de chegar à Caldeira do Santo Cristo passagem pela Fajã do Belo, que permaneceu habitada até 1980, ano em que se deu o terramoto que levou a que a mesma deixasse de ter habitantes. Em 2020, data da minha última passagem por São Jorge, parecia que esta pequena fajã estava a ser recuperada facto que confirmei com esta passagem, a mesma teve as suas antigas casas todas recuperadas. Aqui ainda é possível ver o antigo cabo usado para levar aos moradores da fajã lenha e outros bens.

E daqui a minha segunda via dolorosa que ao contrário da primeira revelou-se ser mesmo dolorosa! E falo da subida tramada da Serra do Topo (900m)! Composta por muita lama e pedras bastante escorregadias. Reparei que este caminho tem zonas que são calcetadas, penso esta via, a certa altura, deve ter sido usada pelos antigos para acederem à Caldeira do Santo Cristo. Nesta subida tive a companhia de um casal de brasileiros e até hoje invejo, no bom sentido, a forma como a senhora controlava a sua respiração, uma vez que foi a subida toda a falar e nunca perdeu o ritmo, enquanto eu e o marido tentávamos murmurar respostas ou acenar com a cabeça para poupar as forças (risos). Não lhes perguntei o nome, mas foram extremamente simpáticos. No final da subida ofereceram-me boleia, a qual bem apetecia ter aceite dado o gasto de energia despendido, mas estava a fazer a ligação ponta-a-ponta a pé pelo que não iria aldrabar e digo desde já, que enquanto me lembrar do nome da Serra do Topo não a volto a subir (risos). A brincar subia outra vez a Serra do Topo já amanhã se fosse possível. É de mencionar que a meio da subida fizemos um desvio para irmos ver a Cascata Pequena, que não é assim tão pequena e é muito bonita, mas sou suspeita para falar de cascatas, porque gosto de qualquer tipo de cascata, melhor dizendo nunca vi uma cascata feia.

O caminho prosseguiu, deixei a lama e as pedras escorregadias para trás, trocando-as por caminho asfaltado, a Estrada Regional, a qual segui durante cerca de 6 km para mais à frente virar à direita e começar a descer rumo aos Lourais para entrar novamente no trilho oficial.

Convento do Santo Cristo

Note-se, na Serra do Topo deveria ter virado para a direita para seguir para o Portal e dali descer para a Fajã dos Vimes e ligar à Fajã João Dias, mas não o fiz porque esta parte encontra-se fechada devido a uma grande derrocada que houve na zona de confluência das várias ribeiras que existem neste local. De referir que ao subir a Serra do Topo e descer para os Lourais voltei novamente à costa sul.

Na descida até aos Lourais fui sempre acompanhada pela ilha do Pico na linha do horizonte, que hoje deu um ar da sua graça. Neste lugar paragem para ver a ermida mandada construir pelo Padre João Silveira de Carvalho, em 1855, a qual é dedicada à Nossa Senhora do Livramento. Segui por esta estrada asfaltada até entrar novamente no trilho oficial. Nesta parte do trilho até se chegar à Fajã do Ginjal é preciso ter-se muito cuidado porque o caminho é muito escorregadio e as paredes são muito instáveis apanhei pequenas derrocadas enquanto caminhava. A vegetação que me acompanhou na descida era, maioritariamente, invasora, conteira, incenso, criptoméria e muita erva, algumas maiores do que eu em tamanho e confesso que pensei que o caminho estaria mais limpo, uma vez que por aqui passaria a prova do trail run.

Na Fajã do Ginjal encontram-se, pontualmente, algumas adegas. Apesar de ser muito pequena constatei que ainda tem moradores. Aqui passei por uma espécie de cafua criada numa cavidade formada por rochas enormes, junto a esta cafua uma figueira e pensei para mim, que rico sítio para se ficar à sombra e com figos, a combinação perfeita, mas claro não me deixei ficar e avancei para a Fajã de São João, onde fiz uma paragem junto à igreja de Nossa Senhora da Guia, construída em 1550, em cumprimento do voto incluído no testamento do padre Diogo de Matos da Silveira, mas para aqui chegar tive que atravessar a Ribeira de São João, passar pela Baía da Areia, a qual não tem areia, mas sim calhaus rolados e, ainda, passar pelo Porto da Panela, que pelo que vi parece ser uma zona procurada pelos habitantes da Fajã de São João para banhos de mar.

De referir que esta Fajã de São João é a maior fajã da costa Sul, do concelho da Calheta e pertence à freguesia de Santo Antão, a mesma é habitada de forma permanente desde 1550 ou 1556. É afamada pelos seus vinhos e frutas. Gostei muito de ter passado nesta fajã foi como viajar no tempo, ruas estreitas e calcetadas, com casas e adegas construídas, maioritariamente, em pedra de basalto. Vi uma porta do gato e muitas maçanetas de madeira a lembrar os tempos antigos, soube bem ver que ainda há locais neste arquipélago que conservam os nossos costumes e tradições.

Ribeira do Cruzal

A esta altura a ligação ponta-a-ponta estava mesmo na sua reta final daqui para o Topo eram mais ou menos 15 ou 16 km. Na minha cabeça e não sei bem porquê não me surgia mais nenhum local que pudesse ser via dolorosa, pensamento que se veio a provar errado com o avançar da caminhada. Cheguei à Fajã do Saramagueiro, o caminho até aqui chegar é de cimento e vi muita vinha na zona. A fajã em si é muito pequena, não contei o número de casas, mas fiquei com a impressão que não chegariam às 6, como estavam todas enclausuradas a um canto parecia uma pequena aldeia encantada, se bem que aqueles postes de luz eram muito pouco estéticos e fazem logo uma pessoa voltar à realidade atual. E, por falar em realidade atual, a minha parecia que ia ser bastante pesarosa ao olhar para o GPS e depois quando olhei em frente vi que tinha uma “linda” encosta bem inclinada, como pessoal gosta, para subir… a subida estava bem escorregadia, para além das pedras muita erva e conteira que haviam sido cortadas recentemente Estava tudo molhado, alto patrocínio da tempestade tropical Gaston, que na noite anterior tinha-se encarregado que mandar trombas de chuva, que mais pareciam o dilúvio tornando a subida ainda mais escorregadia, mas tudo se fez. A subida terminou no Caminho Chão que é de asfalto. Segundo me foi dito, até recentemente este caminho era uma canada de terra batida e só com o terramoto de 1980 é que se fez um grande investimento melhorando o acesso ao Topo e por conseguinte a modernização desta freguesia.

Prossegui a minha jornada passando por São Tomé, o caminho, este era de asfalto, mas a dada altura virei para a direita e entrei novamente num caminho de terra batida, o qual desci passando pela Cancelinha. Nesta zona atravessei duas ribeiras que dada a tempestade da noite anterior estavam com um caudal muito forte e como o que é bom acaba depressa o caminho começou a subir levando-me a Santo Antão e de volta a caminho de asfalto por poucos metros. No entanto, houve tempo de passar por uma ruína de um moinho de vento e duas eiras. Entrei novamente num caminho de terra batida de apoio a pastos que me levou a Santa Rosa onde parei para ver a Igreja Paroquial de Santo Antão. Esta é um edifício de grandes dimensões elevado da estrada por uma escadaria. A sua fachada principal apresenta duas torres sineiras. A primeira igreja aqui construída foi destruída em 1757 por um terramoto que devastou a ilha de São Jorge e que ficou registado para a história como o Mandado de Deus. Este monumento tornou a ser reconstruído para ser novamente destruída por outro terramoto, em 1980. Após este último terramoto construiu-se o atual edifício que foi inaugurado em 1992. Em frente a este templo existe um fontenário.

Para terminar a minha missão faltava subir para o Topo e chegar à Pontinha, mas antes de aqui chegar e já em caminho novamente de asfalto, passagem pelo cemitério, por uma vigia de baleia lembrando os tempos em que se caçavam estes animais e já no centro do Topo passei em frente à igreja da Matriz que é dedicada a Nossa Senhora do Rosário, cuja construção remonta ao século XVI, a qual sofreu obras de reconstrução e ampliação no século XVIII, após o terramoto de 1757 (Mandado de Deus). Estas obras ficaram a cargo do arquiteto José de Avelar de Melo. Na fachada principal um lindo portal todo construído em pedra basáltica, três janelões, dois óculos e um medalhão com um alto-relevo que representa Nossa Senhora. Ainda na fachada uma torre sineira. Mais à frente passei pelo Convento de São Diogo, que foi fundado em 1661, pelo padre Diogo de Matos da Silveira, tendo já sido reconstruído duas vezes devido a terramotos, a primeira vez após 1757 e a segunda após 1980. Este convento é fiel à vocação dos franciscanos pelo que desde cedo começou a ser um estabelecimento de ensino, sendo que na atualidade está incluído num complexo que foi construído na sua cerca que faz parte da EBI do Topo. Mais à frente, o imponente farol a acenar-me dizendo estás quase a acabar a tua missão. Este farol foi inaugurado em 1927, mas no ano de 1980 sofreu obras de reparação devido a um terramoto que o danificou. A lanterna do mesmo situa-se a 58 metros acima do nível do mar e tem um alcance luminoso de 20 milhas náuticas. Do nada surge a tão desejada Pontinha com a sua vista para o ilhéu do Topo, que hoje não estava acompanhado pela ilha Terceira na linha do horizonte. É de referir que a costa e o ilhéu do Topo são Áreas protegidas para Gestão de Habitats ou Espécies e ocupam uma superfície total de 388 hectares. O ilhéu dista da costa 400 m, ocupa uma área de 12 hectares e tem uma altitude máxima de 19 m. Na época de verão é comum verem-se vacas a pastar neste ilhéu. Neste local nidificam o garajau-comum, o garajau-rosado, o painho da madeira, o frulho e o cagarro. Ao longo da costa é possível observar fauna endémica, como a Vidália, o Trovisco-Macho e o Cedro-do Mato.

Caminho de ligação entre Saramagueiro e São João

Com a Pontinha dava por encerrada a minha missão que me levou a caminhar 97,2 km, em 18h16m. A qual teve 3684 m de acumulado positivo (subida) e 3489 m de acumulado negativo (descida) e a altitude a variar entre os -12m e os 1053m.

Como alguém escreveu um dia: “A felicidade não está no fim da jornada, e sim em cada curva do caminho que percorremos para encontrá-la.”. Assim foi esta minha missão, em cada curva e contracurva, em cada alto e baixo a felicidade! Mais feliz foi ter visto a minha missão cumprida com sucesso, sem mazelas e com ela ver a minha paz ser devolvida, foram dias de estar comigo e para comigo, os quais sem sombra de dúvidas são um ponto de viragem na minha vida e também de crescimento. Fez-me bem este período eremita, por um lado ajudaram-me a meter os pensamentos em ordem e por outro lado ajudaram-me a que me conhecesse ainda melhor. A mente tem muito poder!

Para finalizar quero deixar uns agradecimentos porque atrás duma grande mulher há sempre pessoas ainda maiores que nos fazem acreditar que nem o céu é o limite. Começo pela família a minha irmã Manuela, que para além de ser o meu exemplo de vida é o meu pilar central, o meu irmão Samuel, que em pensamentos acompanha-me em todas as minhas caminhadas. À amiga Belisa, que me ajudou pacientemente com parte da logística e por último, mas não menos importante o meu PT Renato, que tem sempre a palavra certa para me incentivar! Muito obrigada a vocês por existirem e por me fazerem acreditar que tudo é possível!!!

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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