Trilho interpretativo sobre a história da baleação na Costa Norte

“Não podemos mudar a história, mas podemos aprender com ela para tentar não cometer os mesmos erros”, foi com este espírito que me propôs ir fazer pesquisa de campo sobre o passado que liga os Açores à caça da baleia. Orgulho-me de ter nascido neste paraíso no meio do Oceano Atlântico que é os Açores, nove ilhas todas elas repletas duma beleza arrebatadora, mas a época que liga este arquipélago à caça da baleia não é para mim motivo de orgulho, apesar de perceber que eram outros tempos, nos quais o viver nestas ilhas de bruma não se afigurava fácil.

Em São Miguel, a ilha onde resido, a caça à baleia aconteceu, maioritariamente, na costa norte e foi para esta costa, mais propriamente, para a freguesia de São Vicente Ferreira que me dirigi para caminhar e descobrir mais sobre esta temática. Aqui abriu recentemente um trilho interpretativo sobre a baleação que apesar de não estar marcado, tem ao longo do caminho umas placas informativas, as quais contêm um mapa que ajuda a que se consiga encontrar com relativa facilidade o caminho para os lugares.

Iniciei a minha jornada de “pescadora de baleias”, mas sem arpões ou botes, junto ao Porto de São Vicente Ferreira, na famosa zona balnear dos Poços e fico a pensar que se calhar a maioria das pessoas que aqui se banha não imagina que este local era um dos pontos de partida para os baleeiros se fazerem ao mar, para irem caçar baleias quando recebiam o sinal de “baleia à vista”. Este sinal, regra geral, era dado pelo lançamento dum foguete, mas olho à minha volta e para a realidade que me rodeia e confirmo que o meu pensamento está errado, uma vez que neste local ainda é possível ver o antigo guincho que puxava a baleia para terra, para ser desmanchada e transformada na fábrica que fica a poucos metros do porto. Na atualidade, a fábrica encontra-se em ruínas, apenas resta a chaminé que luta contra as intempéries mostrando resistência e perseverança ao passar dos anos, talvez não queira deixar morrer a memória dos baleeiros, que com bravura saiam em minúsculas embarcações armados com arpão e corda para caçar a baleia, aqueles animais monstruosos, que nada têm de monstruosos a não ser o tamanho. A fábrica pertencia à União das Armações Baleeiras de São Miguel e foi construída entre 1937 e 1942. Esta surge da fusão de três companhias de armadores, as quais caçavam e transformavam cachalotes no lugar do Calhau Miúdo, nas Capelas, desde 1884. De referir que esta fábrica iniciou um processo revolucionário da transformação das carnes, gorduras, vísceras e ossos da baleia, aproveitando não só o óleo, mas também produzindo farinhas industriais através da substituição do tradicional método de fervura direta em caldeirões pela decomposição dos animais em vapor de água aquecida em tanques. Em 1974 esta fábrica cessa a sua atividade de forma definitiva.

Olho mais uma vez para a placa informativa e sigo rumo para o miradouro do Navio, que fica uns largos metros mais acima do local onde me encontro, na minha cabeça começam a acordar as leituras que fiz há uns tempos atrás do livro de Raul Brandão, “As Ilhas desconhecidas”, neste livro há um capítulo dedicado à pesca da baleia, mas não me deixo invadir pelos pensamentos e viro a minha atenção para o miradouro que tem uma vista interessante sobre o Morro das Capelas e a costa. O nome deste miradouro do Navio, e segundo leituras in loco, prende-se com o facto que durante muitos anos a proa do vapor americano Yellowstone, que encalhou em Ponta Delgada, junto à Calheta do Pêro Teive, na sequência de um enorme temporal na década de 20, do século XX, ter ficado ali exposta. Avancei na minha demanda de tentar ser imaginariamente pescadora de baleias contornando a costa, o mar estava revolto, as ondas vinham com tanta força que o bater na costa para além do imenso estrondo, faziam o chão estremecer, confesso que com algumas ondas e como estava distraída a fotografar apanhei valente susto.

Portinho das Capelas

Entre fotos e caminhar, dei por mim a subir o Morro das Capelas parando só quando cheguei ao Miradouro da Vigia, é assim chamado por que neste local na época da baleação existiam muitas vigias de baleia de madeira, pois este lugar tem uma vista privilegiada para o mar, facilitando o vigiar das baleias ao largo. Dentro destas vigias ficava o vigia munido de binóculos que perscrutava o mar à procura de sinais destes gigantescos mamíferos, quando avistava um dava um sinal de fumo. Mais tarde, este sinal de fumo foi substituído por um telegrama que informava a Casa dos Baleeiros e esta orientava o rumo dos botes no mar com sinais de bandeiras e lençóis brancos.

Desci o morro, passei pelo farolim e virei para o antigo portinho das Capelas, que está localizado numa baía abrigada e foi construído entre 1846 e 1859, para complementar e servir de alternativa ao porto de Ponta Delgada. E agora podem rir-se da minha ignorância, da primeira vez que aqui estive reparei que nas encostas existiam muitas cavidades e pensei “Eina, tantos ninhos de cagarros!”, mas num olhar mais atento reparei que estas cavidades tinham formas pouco naturais para terem sido escavadas por cagarros, uma vez que eram quadrangulares e retangulares, pelo que fui para casa pesquisar e ler sobre o assunto e descobri que as mesmas haviam sido feitas pelo Homem durante o período da II Grande Guerra Mundial, como é sabido os mares dos Açores foram invadidos por submarinos Alemães e as entidades responsáveis temendo invasão da ilha decidiram escavar aquelas cavidades para no caso de invasão colocarem ali explosivos e mandarem eclodir o portinho, ainda bem que os alemães não invadiram a ilha, porque assim não se perdeu este portinho, que é muito pitoresco e procurado pelos locais para banhos de mar e pesca. Na atualidade o mesmo encontra-se interdito. Mais acima desta zona e segundo a placa informativa diz existir uma casa de um pescador, mas confesso que não a consegui identificar visto que não existe nenhuma indicação acerca da sua localização.

O caminho continuou passando pelo antigo porto das laranjas, mas não desci, hoje o dia era para ser dedicado à história da baleação, mais à frente a primeira fábrica da baleia de São Miguel, as instalações industriais “Trayol”, pertença da velha companhia do Sr. Câmara e seu associado, Cristóvão da Mota Vieira. Esta unidade fabril dedicava a sua atividade à queima da baleia e ao armazenamento do óleo. Deixei-a para trás e desci rumo ao Calhau Miúdo, foi neste ancoradouro natural que, em julho de 1884, teve início a caça à baleia em São Miguel. Laboravam três companhias neste local que por processos artesanais transformavam as baleias em óleos industriais.

A minha vida de pescadora prosseguiu com passagem pelas antigas pias que ficam a poucos metros deste calhau, estas foram mandadas construir pelo presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Amâncio Gago da Câmara, em 1865, no entanto só seriam inauguradas em 1867, pelo novo presidente da edilidade, Ricardo José Sequeira. Estas pias foram um local de muita azáfama em tempos idos e faziam parte de um antigo sistema de abastecimento de água que era constituído por um aqueduto, um fontenário de duas bicas e 18 pias de lavagem de roupa.

Deixando as pias, segui para o centro da freguesia das Capelas, para ir ver o monumento de homenagem aos baleeiros, mandado edificar em 1994. Este monumento localiza-se em frente à Igreja Paroquial de invocação a Nossa Senhora da Apresentação, construída entre 1767 e 1806 e daqui voltei ao ponto inicial, passando por um antigo bairro de baleeiros.   

Calhau Miúdo

Confesso que com o aproximar do final da minha “pesquisa de campo” já estava a ficar angustiada imaginava toda aquela cena de caça, a baleia arpoada, esvaída em sangue, a arrastar o barco, os pescadores agarrados à corda deixando o animal se cansar para acabar por morrer. No meio de toda esta cena violenta de caça veio-me aos pensamentos os pescadores, e começo a colocar-me questões entre elas, será que algum pescador perdeu a vida a praticar esta atividade? Confesso que nunca dediquei tempo a pesquisar sobre o assunto, mas também nunca ouvi falar em pescadores que tivessem morrido a caçar baleias, mas baleias sei que foram muitas. No entanto, mesmo com o pesar desta fase da história da ilha de São Miguel, é preciso lembrar que a época na qual tais atos grotescos foram praticados não haviam os recursos que há na atualidade e as pessoas tinham de subsistir em condições muito precárias, onde tudo faltava e não se pense que estou a defender o que se fez a estes animais, estou antes a tentar meter-me no lugar de quem viveu e resistiu nestas ilhas em tempos idos, que foram, segundo constam, bastante agrestes. Por fim, deixo a angústia trespassar-me, renascendo para a feliz realidade com o som relaxante das ondas, uma vez que a maré estava a vazar e as ondas estavam mais pequenas e penso “Ainda bem que estes tempos de perseguição às baleias já acabaram e com o passar dos anos estas voltaram novamente aos mares dos Açores!”. Na atualidade, estes mamíferos são a delícia de quem nos visita.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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