Amanheço na ilha de Gonçalo Velho, nesta que é a primogénita em tudo, a mais velha de formação, 8 milhões de anos, a primeira a ser descoberta e a primeira a ser povoada, como já devem ter percebido estou em Santa Maria, a ilha do sol. Já não vinha há alguns anos a esta ilha e, diga-se de passagem, é a minha preferida de todas as nove ilhas dos Açores, sendo dona duma beleza ímpar onde se pode encontrar um pouco de tudo na paisagem, incluindo um pequeno deserto, é verdade um deserto, quem diria encontrar um deserto no meio do Oceano Atlântico. Este deserto chama-se Barreiro da Faneca, mas os locais chamam-no de “Deserto Vermelho” e para mal dos meus pecados ainda não foi desta que fiz o trilho que passa por esta zona, mas claro que o fui visitar ou não fosse este local como aquele ditado que diz: “É como ir a Roma e não ver o Papa”.
Visto-me num misto de corsária e geóloga para desvendar mais segredos desta ilha, que tanto me encanta e sigo viagem rumo ao Forte de São Brás (construído no século XVII), uma vez que é aqui que começa o trilho oficial PR05 SMA Costa Sul. Este forte, aliás todos os fortes construídos nesta ilha tinham como intuito defender a população local dos ataques de corsários e piratas. Este em particular defendia a população da agora Vila do Porto, tem uma vista sobranceira para a baía do Calhau da Roupa e para o porto. Na sua muralha ainda se conservam algumas peças de artilharia, que nos remetem para os tempos de corsários e piratas e dei por mim a regressar ao passado. Aquela zona da Vila do Porto ainda conserva parte da traça antiga, pelo que é fácil imaginar-me a integrar um filme de piratas ao bom estilo do Capitão Jack Sparrow. E é com este espírito que sigo caminho, desço e atravesso a ribeira de São Francisco, de referir que na foz desta ribeira na confluência entre água doce e salgada é local de paragem de aves migratórias, já do outro lado da ribeira começo a subir e para trás fica a minha personagem de corsária.

O caminho prossegue serpenteando por alguns muitos pastos e as suas moradoras, as vacas, que ao longe mugem como que dizendo: “Olá!”. Eu cheia de medo, aperto o passo e penso: “Este caminho nunca mais acaba de passar por pastos!”. Para me abstrair das minhas companheiras, viro a minha atenção para o Pico do Facho (254m), coroado pelas suas turbinas eólicas, que vão girando com o pouco vento que se faz sentir e, por fim, os pastos terminam. Chego a um passadiço de madeira, que me leva ao geossítio da Pedreira do Campo um Monumento Natural, aqui é possível ver fósseis marinhos que mostram parte da história geológica desta ilha. Nesta zona, mas fora do trilho oficial, se observar com olhar atento a paisagem verá uma antiga bateria que foi construída por altura da II Grande Guerra Mundial, com desígnio de defender a ilha de possíveis ataques das tropas inimigas.
A minha jornada de geóloga ainda agora começava e já eu estava a seguir caminho rumo ao Figueiral, nesta zona há uma gruta artificial, onde em tempos idos eram extraídos calcário para produção de cal e argila para produção de telhas. Estes recursos eram usados na construção das casas. De referir que nas imediações desta gruta ainda se conserva um antigo forno, no qual se coziam as pedras de calcário durante 72 horas para se extrair a cal. Saí da gruta pensando nos homens que ali acorriam para extrair o calcário, vida dura, este lugar não devia ser de fácil acesso, mas noto que o trilho prossegue por um atalho bem definido, o mesmo que devia ser o caminho utilizado pela população desta localidade para, antigamente, aceder a este sítio e sigo subindo rumo ao Touril, passando por uma mata de vegetação endémica de Faia (Morella faya), Figueira Brava (Pericallis malvifolia), e de vegetação introduzida, como o Incenso (Pittosporum undulatum), a Piteira (Agave americana), e os Cactos (Opuntia ficus-indica). Nesta subida tive a companhia de uma habitante local, a qual tinha vindo fazer a sua caminhada matinal e lá fomos nós conversando e apreciando ao longe a Ponta da Malbusca e os recortes da costa sul. Ao chegar à estrada perdi a minha companhia, visto que comecei a descer para a Prainha e a senhora seguiu para a sua casa. A descida para a Prainha começa num pasto, mas conforme fui perdendo altitude entrei numa mata de arbustos de porte médio. Já na Prainha, a minha caminhada continuou contornando a costa, passando por um pequeno pórtico, para, no final, chegar ao Forte de São João Baptista, também conhecido como Castelo de São João Baptista ou Castelo da Praia. Segundo trabalhos arqueológicos recentes, neste sítio histórico levantou-se a possibilidade do mesmo poder ser a mais antiga estrutura de fortificação no arquipélago.

O trilho oficial acaba no parque de estacionamento da Praia Formosa, que com as suas areias calcárias é dotada de uma grande beleza. No entanto, o meu trilho não acabou aqui, dado que tinha deixado o carro em Vila do Porto. Assim sendo, iniciei a minha via dolorosa, e quem conhece a ilha de Santa Maria sabe do que falo, a subida para se sair da zona da praia para chegar a Almagreira é duma inclinação que só de olhar dá medo e subir debaixo do sol do meio-dia, é caso para se dizer, que ninguém merece tal sina, mas tinha que ser! E lá fui eu arrastando-me, pedindo licença aos pés para subir, a cada passo um suplício, aquele sol ia-me matando lentamente, entretanto lá cheguei a Almagreira, se bem que mais morta do que viva. No entanto, a subida foi recompensada, após passar a igreja paroquial, que é dedicada a Nossa Senhora do Bom Despacho, descobri a Rota dos Corsários, que em tudo correspondia a um dos desígnios que me levaram a rumar a esta ilha, ou seja, desvendar mais segredos sobre a mesma. A rota é constituída por 6 painéis interpretativos espalhados por vários pontos da ilha. Estes painéis têm os textos em português e inglês. O painel que passei indicava um conjunto de 13 covas matamouros. A palavras matamouros provém da palavra árabe matmûra, que significa “silo subterrâneo para cereais”. Estas covas permitiam a conservação do grão num ambiente selado, evitando, desta forma, que o grão ganhasse humidade e a invasão do gorgulho. Estão localizadas um pouco mais à frente da Igreja da Almagreira, do lado esquerdo da estrada, quem segue em direção ao centro Vila do Porto. É escusado dizer que os outros dias em que ainda permaneci na ilha andei à procura dos restantes painéis.
Acabo o trilho onde o comecei, já não sou pirata, nem geóloga, sou a Peregrinação Turística, a mais pura essência de mim mesma, quem ali está sentada, metida com os meus pensamentos, absorvendo tudo o que vi, aprendi e partilhei (mesmo que tenha sido partilha momentânea com a breve companheira da subida do Touril) e deixo-me ali ficar um pouco, aproveitando para recuperar as energias e absorver mais um pouco a paisagem que me rodeia.
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