A minha passagem relâmpago pela Ilha Terceira

Acordo com a vista imperial do Monte Brasil! Ao longe vejo os benditos hipogeus, tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Esta vista faz nascer em mim um sabor agridoce, por um lado, estou feliz por conhecer a localização dos hipogeus e, por outro lado, estou triste porque estão localizados em zona de acesso restrito. Enfim, não me deixo entristecer, até porque ainda não perdi a esperança de que um dia conseguirei visitá-los.

O dia acorda sorridente, mas deu para perceber que na noite anterior havia chovido. O programa de festas já estava traçado pela peregrina da “Ilha Rainha”, esta ilha foi assim intitulada por Briant Barrett no seu livro “Relato da Minha Viagem aos Açores 1812-1814” e, como já devem ter percebido estou na ilha Terceira.

Saímos de Angra do Heroísmo (inicialmente o flamengo Jácomo de Bruges que povoou este local deu-lhe o nome de Angra, que significa pequena baía. Mais tarde Dona Maria II acrescentou o Heroísmo devido à bravura que a população demonstrou durante as Lutas Liberais no princípio do século XIX.) e seguimos para a freguesia dos Altares para fazer o pequeno trilho que passa no Parque das Frechas. Este pequeno trilho tem 1 km de distância, mas claro que feito por mim iria acrescentar alguns quilómetros, porque como é sabido gosto de ver todos os cantos à casa. A minha sorte neste dia foi a companhia também gostar de andar. O trilho apesar de marcar ser linear fizemo-lo de forma circular, fomos pelo parque e voltamos pela estrada.

Iniciamos a caminhada na Rua do Saco e logo no início do trilho encontramos dois moinhos de água antigos e as suas levadas. O caminho durante alguns metros é acompanhado pela Ribeira da Agualva dum lado e do outro pelos antigos e atuais socalcos dos pomares. Mais à frente encontramos uma pequena barragem que faz a retenção de águas da Ribeira de Agualva. Neste local existe um moinho de água cuja sua construção é em pedra basáltica.

Moinhos de água

O trilho prossegue com uma subida de escadas que nos guiam para uma mata de incensos, eucaliptos e criptomérias. No cimo destas escadas há um pequeno desvio à esquerda que nos leva a uma cascata pequenina, mas muito encantadora, bom na realidade sou suspeita para falar de cascatas porque para mim todas as cascatas são bonitas. Voltando ao trilho embrenhamo-nos pela mata para mais à frente e após subir mais umas quantas escadas, que segundo a anfitriã, antes não existiam e que para ali se chegar teríamos de o fazer subindo por umas cordas, só posso deduzir que esta devia ser uma boa zona para estimular a adrenalina, viramos à esquerda e tentamos ir ver a cascata que existia na zona, mas a ribeira estava composta e como não tínhamos sapatos para trocar decidimos voltar para o caminho do trilho. Ao regressarmos ao caminho dei que tinha uma bifurcação e nesta altura descobri que a menina da Ilha Rainha era bem pior do que eu para aventura não é que me desafiou a virar à direita para o caminho errado usando o argumento, “não é a menina que gosta de ver todos os cantos nos trilhos”. Eu como não estava na minha terra e também estava sem GPS não estava muito tentada a sair dos eixos, mas a curiosidade tinha-se instalado em mim, gostava de ir ver onde o mesmo ia acabar pelo que aproveitei a deixa e lá fui eu. No entanto, devo confessar que fiquei desorientada com o incentivo e perguntei se me estava a enganar, se aquele caminho que estávamos a fazer não seria o caminho que tínhamos percorrido inicialmente, mas a anfitriã tinha sempre resposta pronta para dar e referiu se eu tinha visto aquela árvore caída no princípio e realmente não tinha visto a árvore. Oh! Não me enganava, estávamos mesmo a ir ver para onde o caminho errado nos levava. Andamos uns metros grandes e o caminho acabava nuns pastos cujos muros eram de pedra solta muito bonitos, sempre me encantou este tipo de construção pela singela forma como são construídos. Voltamos ao caminho certo e nesta zona conseguimos ver a cascata que não conseguimos ver atrás de cima. Terei de aqui voltar para a ver de pertinho porque de cima é encantadora tem dois saltos.

Parque das Frechas

Saindo da mata começamos a ter novamente a ribeira do lado esquerdo a fazer companhia, nesta zona podemos ver os vestígios da moagem que aqui era praticada noutros tempos, no chão vêem-se algumas relheiras e também pulos e regos que eram usados para desviar a água e encaminhar a mesma para os chafarizes e moinhos. Antes de chegarmos ao Parque das Frechas houve tempo de fazer mais um desvio para ver uma cascata artificial, uma vez que corria de um tubo, fui enganada pela ilusão ótica. Prosseguimos caminho e chegamos ao Parque das Frechas, é aqui que nasce a Ribeira da Agualva. De referir que este parque já é descrito por Gaspar Frutuoso que em 1589 no seu livro Saudades da Terra, que escreve o seguinte: “Há neste lugar da Agualva muitos pomares e frescos bosques de árvores e rosales (…) onde muitos homens nobres de toda a ilha e fora dela vão tomar recreação.”. Nesta zona de lazer pode-se desfrutar da natureza no seu estado puro e também ver a mais bonita cascata de todo o trilho. Claro que todos os cantos deste parque foram vistos, fomos à ponte da qual se pode ver a cascata de cima, atravessamos a mesma e fomos até às casas de captação de águas. Após ter visto os cantos todos voltei para o carro feliz e contente. Para mim o dia estava ganho e poderia ter ido para casa relaxar, mas não fui para casa, a menina da Ilha Rainha tinha outros planos para aquele dia que envolviam mais caminhada, coisa que não gosto nada de fazer como é sabido. Seguimos para o carro para irmos visitar a lagoa do Cerro que não conhecia. A caminhada até à lagoa foi agraciada de forma tímida pelo sol que por entre as nuvens aquecia a ilha. A lagoa e mais uma vez sou suspeita para falar, por que são como as cascatas todas bonitas. Esta é pequenina, tem o formato circular e aos meus olhos muito encantadora. Num lado do seu contorno tem um abrigo para observação de aves e foi neste abrigo que almoçamos. No entretanto, a chuva quis abençoar a caminhada juntando-se ao sol formando-se ao longe um arco-íris, todo este cenário e o silêncio que se fazia sentir tornou aquele local ainda mais mágico. Enquanto almoçava observava a lagoa que enquadrada pelas aberturas do abrigo parecia um quadro saído duma tela de Gustave Courbet. E num ápice acordava para a realidade, era tempo de voltar à civilização, ao barulho e à confusão de Angra do Heroísmo, por mim teria ficado perdida no meio do mato.

Lagoa do Cerro

Mal sabia eu o que me esperava na chegada a Angra, quer dizer, já sabia que o meu destino nesta passagem pela Ilha Lilás iria passar pelo Monte Brasil, só não sabia era que iria ser neste dia. Penso que a anfitriã queria despachar-me para que não tivesse mais razões para voltar à ilha e como tal queria fazer tudo num só fim-de-semana (risos). Estacionamos na base do Monte Brasil, sobre este monte falarei mais ao pormenor noutro texto, e seguimos subindo para entrar na fortaleza e explorar o caminho das Beladonas. Aqui neste caminho e segundo algumas pesquisas que fiz poderiam existir mais algumas grutas escavadas pelo ser humano. Assim, e já que as outras grutas são de acesso restrito havia que ir explorar este caminho já que o mesmo é de livre acesso e ver se realmente havia algum vestígio arqueológico. Lá fomos nós à terceira caminhada do dia era aproveitar a boa energia para caminhar da peregrina. Chegamos ao caminho, a peregrina é orientada pelo que todo o santo dia não precisei de ligar o GPS, andamos alguns metros e nada, já eu tinha perdido a esperança de ali existir o quer que seja quando para minha surpresa mesmo no final do caminho encontramos uma pequena cavidade escavada no tufo vulcânico no seu interior um banco também escavado no tufo, fiquei animada ao ponto de batizar aquela cavidade de “hipogeu superior” só para me enganar e pensar tinha visto os hipogeus. De referir que não penso esta cavidade tenho sido escavada por povos antigos, mas alguém a escavou não há dúvidas, suponho eu que talvez algum preso político ou algum dos concentrados alemães que passaram por este monte e que por ele estavam autorizados a passear livremente. Quem quer que seja que a escavou soube escolher bem o sítio uma vez que a vista deste local é muito bonita e coroada com a ilha de São Jorge e Pico na linha do horizonte.

Hipogeu Superior

O dia acabou a ver o pôr-do-sol no passeio da zona balnear do Fanal. Enquanto absorvo todo aquele momento invade-me o pensamento uma frase de Albert Einstein “observe profundamente a natureza e vai começar a entender tudo melhor” e penso a felicidade reside nas coisas mais simples da natureza que é provida duma beleza simples e cativante. Um dia memorável para mais tarde recordar!

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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