Não sei bem porquê, mas nesta viagem levei os dias a levantar-me cedo para chegar aos sítios a visitar e neste dia que rumava a Granada não foi diferente, a única diferença foi mesmo o frio que se fazia sentir e que ao longo do dia mesmo tendo o sol feito a graça de se meter à janela não fez com que o frio abalasse.
Claro que ir a Granada é sinónimo de ir visitar o castelo vermelho, ou seja, Alhambra, a joia arquitetónica onde está personificada a história desta cidade e o seu legado Nasrida. Este castelo fortificado, que no seu interior alberga uma cidadela, foi mandado erigir pelo fundador da dinastia Nasrida Al-Ahmad para ser a sua residência. O local da construção do mesmo, a colina al-Sabika, foi estrategicamente escolhido, uma vez que o edifício é visto de praticamente de todos os pontos de Granada. Trata-se de uma estrutura imponente, mas só ia ter a noção da sua grandeza quando desci até Albaicín e quando olhei para cima fiquei boquiaberta de tamanho espanto!
Ao longo da história da sua existência e à semelhança de outras pérolas históricas espalhadas por este mundo afora, os vários reis que por ali passaram foram acrescentando novos edifícios deixando assim a sua marca e o que começou por ser uma muralha e um aqueduto mais tarde recebeu a alcazaba, a área residencial do corpo militar de elite ao serviço do sultão que protegia a cidadela e as 4 torres, deste local tem-se uma vista estonteante sobre o bairro de Albaicín com a majestosa serra Nevada a servir de plano de fundo, aquando a minha visita estava vestida de branco, pelo que como podem imaginar o frio gélido que se fazia sentir. Mais tarde, durante o século XIV foram acrescentados os três palácios Nasrida, batizados de Mexuar, Comares e o dos Leões. Destes três palácios, Mexuar, que deve o seu nome à palavra árabe Maswar, local onde se reunia a Sura ou o conselho de Ministros, é o mais antigo e também é o que se encontra mais mal conservado, provavelmente foi mandado construir pelo rei Ismail I. A anteceder a entrada no palácio Comares, o quarto dourado ou pátio de Mexuar. Ao entrar neste pátio e ao olhar em frente fiquei impressionada pela fachada do Palácio Comares, construída em materiais nobres (mármore, madeira e cerâmica). Nela há duas portas, uma que é a entrada para a residência oficial do sultão e a outra não leva a lado nenhum, servia apenas para confundir os ladrões, os três degraus que antecedem as portas simbolizam o trono legítimo. Esta fachada servia como separação entre as áreas administrativas e públicas e a área privada do sultão. Ao passarmos pela porta da residência do sultão, entramos na residência oficial do sultão que foi construída no século XIV. No centro deste palácio encontramos o pátio de Arrayanes (Murtas). Este talvez seja um dos espaços mais famosos de toda Alhambra, uma vez que é um dos mais fotografados, quem nunca vi uma fotografia de Alhambra com uma longa piscina rodeada por sebes cujo fundo é uma fachada dum edifício com 7 arcos de volta perfeita e uma torre? Ainda podemos visitar a Sala de la Barca, que era a sala de receção que leva à Sala dos Embaixadores, a qual se localiza na Torre Comares. Esta sala tem um teto em forma cúbica, no qual estão representados os sete céus da cultura muçulmana, situados uns sobre os outros e é verdadeiramente impressionante. Prossigo na visita a Alhambra, passo por o espaço que é considerado a joia deste monumento, o Palácio dos Leões. Este edifício foi mandado construir no século XIV pelo sultão Muhammad V para ser a sua residência privada, sendo mundialmente conhecido pelo seu pátio que tem forma de um retângulo, onde se pode ver uma fonte sustentada por doze leões de mármore e é esta que dá nome ao pátio e a todo o palácio. É em volta deste pátio, que é rodeado por 124 colunas, que se abrem as dependências consideradas mais sumptuosas e importantes de toda a edificação. As salas que mais gostei foram as espetaculares sala dos Abencerrajes, a sala das Duas Irmãs e o Miradouro de Daraxa.

Passo por uma zona em que algumas dependências se encontravam em restauro, entro numa zona de jardim, no qual se veem algumas casas, onde uma ganha destaque por ser maior e por ter uma torre, um pórtico de cinco arcos e um lago retangular em frente. Esta construção maior mais tarde vim a saber que é o Palácio Partal, o mais antigo de Alhambra e o mais bem preservado, o mesmo foi construído no século XIII, por Muhammad III, aproveitando uma das torres defensivas da muralha, esta última na atualidade é conhecida como a Torre das Damas e foi a primeira residência dos sultões Nasridas.
Saio da zona dos palácios Nasridas e ao passar pelo pátio reparo que o Palácio de Carlos V que anteriormente estava fechado agora estava aberto, pelo que adio a ida ao Generalife e entro neste que é considerado uma das obras mais destacadas do Renascimento de Espanha. A sua construção deveu-se ao facto de Carlos V precisar de um local que reunisse todos os confortos para as suas férias de verão, uma vez que este usava o Alcazar como residência durante a época estival. Assim, em 1527, o imperador ordenou a Pedro Machuca a construção deste edifício que só viria a ficar completo em 1957, a longa demora para a obra ficar concluída deveu-se a variados fatores, como por exemplo a falta de dinheiro ou às revoltas internas que ocorreram em Granada. O imóvel tem uma planta quadrangular e é constituído por dois pisos e um pátio circular. Na atualidade é a sede do Museu de Belas Artes e do Museu de Alhambra.
Deixo o palácio e como sou do contra sigo para o Palácio de Generalife que era por onde era suposto ter começado a visita, mas quando cheguei a Alhambra este estava pilhado de gente, pelo que segui para o pátio principal e aproveitei para visitar os outros espaços, pois estavam visivelmente mais vazios e assim pude desfrutar com mais calma de tudo. Este palácio encontra-se a uma pequena distância de Alhambra e foi construído entre os séculos XII e XIV para ser usado como residência de férias e descanso do sultão e da sua família. O nome Generalife, ou Yannat al Arif, tem várias interpretações e talvez a mais bonita seja “o jardim do paraíso elevado”. Esta construção está cercada por belos jardins que outrora eram pastos, pomares e hortas, que por certo serviam para abastecer a dispensa de Alhambra.

Resta referir que aquando a minha passagem algumas áreas estavam a sofrer intervenção de restauro e é ainda de mencionar que em 1870 Alhambra foi declarado Monumento Nacional de Espanha e em 1984 foi declarado Património Mundial pela UNESCO.
Abandono o Castelo Vermelho e desço a colina que me leva até ao centro da cidade de Granada, perco-me pelas suas ruas à procura de alguns monumentos que quero visitar, pelo caminho uma paragem para comer os famosos turrones, diga-se de passagem que são muito saborosos. Com as forças retemperadas prossigo na minha demanda de visitar a catedral e a Basílica de São João de Deus. O primeiro a receber a minha visita e porque se destacava pela sua monumentalidade na paisagem citadina foi a Igreja Catedral Metropolitana da Encarnação que é a sé da diocese desta cidade e é um dos edifícios mais emblemáticos. Este foi construído sobre a antiga mesquita, embora o início da sua construção estivesse previsto para o ano de 1506, a obra só começou em 1523 e só foi terminada em 1704. A demora na construção prende-se com o facto de a Rainha Isabel ter morrido repentinamente e as obras previstas para a construção da catedral ficaram, então, suspensas para que se construísse a Capela Real. O projeto inicial da catedral de Enrique Egas previa um majestoso templo em estilo gótico, mas com a morte deste a obra passa para as mãos de Diego Siloé, que muda o projeto e a edificação passa a ter linhas renascentistas. Muitos outros artistas e arquitetos participaram na construção deste monumento, eu pessoalmente destaco Alonso Cano, o criador da parte que para mim é a mais impressionante, a sua fachada principal, na qual se veem três arcos e esculturas de várias figuras religiosa em alto-relevo. No interior da catedral é tentar absorver ao máximo toda a arte ali existente, os vitrais, os retábulos dos altares, as colunas que separam as naves, as esculturas, os arcos do teto, entre outras.
Na atualidade está anexa a esta catedral a Capela Real de Granada dedicada a São João Batista e São João Evangelista. Este edifício construído entre 1506 e 1517 em estilo gótico serve de local de sepultamento dos Reis católicos (Rainha Dona Isabel de Castela e o Rei Dom Fernando II de Aragão.), à filha do casal Joana, a Louca, ao seu marido Filipe, o Belo e a um neto Miguel da Paz, Príncipe de Portugal e das Astúrias que morreu em criança.
A sacristia da capela Real está transformada num museu e nele estão expostos quadro de artistas flamencos, livros, trajes cerimoniais dos reis e objetos de ouro, ou seja, neste museu podemos ver o legado dos Reis Católicos figuras incontornáveis da história deste país.
Saio da catedral e já é quase noite pelo que começo a apertar o passo para ver se ainda chegava a tempo de visitar a Basílica de São João de Deus que para mim é o expoente máximo do barroco de Granada e que não poderia deixar de visitar a juntar a toda a arte barroca. Neste local, os mais católicos podem contemplar os restos mortais e relíquias do santo dos enfermos São João de Deus. Esta basílica foi mandada construir pela Ordem Hospitaleira de São João de Deus, no ano de 1737, com o intuito de sepultar os restos mortais do seu fundador. O projeto da sua construção ficou a cargo de José de Bada y Navajas. A fachada do templo é de mármore, tem uma única nave, planta em forma da cruz latina com cúpula sobre o transepto. O interior é luxuosamente decorado com madeira policromada, esculturas de santos e muito dourado. No camarín situado no piso superior há um tabernáculo de prata, obra do ourives Miguel de Guzmán, que no seu interior tem uma urna com os ossos de São João de Deus. Nesta sala há muitos relicários.

A caminho de casa um desvio para ir contemplar a majestosa Serra Nevada que para me receber encontrava-se vestida de branco. Aqui despedi-me do sol que se recolhia para dormir com magnífico um espetáculo de cores, a juntar tive a sorte de ver duas cabras da montanha. E com este espetáculo vespertino que parecia saído dum quadro de Henri Matisse despeço-me de Granada recordando o que certo dia este pintor disse sobre esta cidade “Granada emociona até quebrar e derreter todos os sentidos”. Até breve e boas viagens!!!!
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