As aldeias de grandes altitudes de Granada.

O dia acordou cinzento e gelado, muito gelado, mas não havia muito a fazer a não ser vestir mais roupa para ficar confortável e quente e manter o plano delineado seguindo rumo para Alpujarra e aqui visitar o trio das populares e pitorescas aldeias caiadas de branco do Barranco del Poqueira: Pampaneira, Bubión e Capileira. Escolhi estas três, mas há muitas mais aldeias para visitar nesta zona.

A primeira aldeia que visitei foi Pampaneira, tem cerca de 350 habitantes e é a mais baixa das 3 em altitude, ficando a 1058 m de altitude. O nome vem do latim pampinus que significa broto de videira, uma alusão aos tempos da ocupação romana quando esta localidade era famosa pelos seus vinhedos e vinho.

Pampaneira

Neste pequeno povoado, cuja maior parte do seu território localiza-se dentro do Parque Nacional da Serra Nevada, concentra a sua beleza na Praça da Liberdade, a qual é dominada pela Igreja de Santa Cruz, de arquitetura Mudéjar da primeira metade do século XVII. É deste largo que começa a irradiação das ruas estreitas, ingremes e com canais de água no centro. Numa destas artérias encontrei por acaso uma chocolataria e digo-vos vale muito a visita, o chocolate é artesanal e usa produtos locais na sua confeção, para mim um dos melhores chocolates que já comi até hoje.

Ainda deliciada do chocolate, decido ir dar uma volta pela pequena aldeia para apreciar e absorver todo aquele cenário e ambiente que parece ter parado no tempo. Logo à entrada da praça a Fuente de San António – Chumpaneira, monumento que todos os solteiros devem visitar, diz que quem beber da sua água resolve este problema da solteirice. Passo a fonte, prossigo praça adentro e opto por subir uma ruela para sair do centro do povoado e explorar as imediações onde encontro o espaço daquela que é considerada a rede social mais antiga do mundo conhecida até hoje, as pias, onde em tempos idos se lavava a roupa e que aqui se chama de Lavadero del Cerrilo. Aqui e ali paragens para desfrutar das vistas deslumbrantes sobre os picos da Serra Nevada e para as aldeias de Bubión e Capileira.

Esta localidade conserva no seu traçado a arquitetura tipicamente berbere, onde vemos casas construídas com material abundante nesta área pedra, madeira e argamassa. Estas construções estão perfeitamente adaptadas ao terreno montanhoso, são pintadas de branco com telhados planos feitos de ardósias e forrados com um solo argiloso impermeável, conhecido como launa. As chaminés são altas e são cobertas por um “chapéu” feito de ardósia. Ao longo da subida, há muitas passagens com cobertura que permitem passar de uma rua para a outra. Estas passagens parecem que são feitas à semelhança dos telhados das casas com vigas de madeira de nogueira, castanheiro, pinho, oliveira ou amêndoa, sobre as quais se cruzam outras madeiras de menor espessura e, acima das vigas, são dispostas placas de ardósia que são tapadas com launa. Mais tarde vim a saber que estas passagens se chamam de Tinaos. Este tipo de arquitetura também pode ser visto nas duas outras aldeias que visitei.

Pias de lavar roupa

Deixo a paz de Pampaneira e sigo para a sua vizinha a pacata Bubión, situada a 1300 m acima do nível do mar, tendo pouco mais de 400 habitantes. Tal como Pampaneira e como já referi esta aldeia também soube e muito bem preservar a arquitetura típica berbere, ruas íngremes com casas bem adaptadas ao terreno montanhoso e telhados planos cobertos de launa. O povoamento desta localidade remonta à época romana. Deixo-me levar pelo tempo que aqui parece corre mais devagar e caminho um pouco pelo povoado. Vejo a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Bubión com a sua torre medieval da época dos Nasrida, nas imediações da igreja as pias que aqui têm o nome de a Fuente de la Hondera, era neste local que em tempos idos as pessoas lavavam a sua roupa e aproveitavam para socializar um pouco.

Sigo nostálgica por uma estrada sinuosa rumo a Capileira, sendo esta a aldeia maior e a que se encontra a maior altitude, ficando a 1436 m acima do nível do mar e com uma população de 600 pessoas. Tal como as outras duas aldeias que visitei, esta também tem uma arquitetura única nas suas casas que são perfeitamente adaptadas ao terreno quebrado e ao clima. Estas edificações estão dispostas em ruas estreitas e íngremes lembrando o tempo da ocupação moura. O nome deriva do latim capitellum que significa alturas e foi a caminhar nas alturas que visitei a Iglesia de Nuestra Señora de la Cabeza, a qual foi construída no local onde existia uma mesquita. No entanto, a igreja original foi substituída pelo edifício atual de estilo mudéjar, no século XVIII. Nas imediações da igreja, a Praça do Calvário com a sua Fonte do Calvário e desta praça comecei a andar pelas ruas passando por belos Tinaos.

Pormenor das ruas

Estas três povoações são dos locais mais visitados de Granada. Situadas na encosta sul da Serra Nevada num cenário de tirar o folego formam entre si o Sitio Histórico do Barranco de Poqueira, tendo sido declaradas Bens de Interesse Cultural.

O dia, e para não variar, já ia longo pelo que decidi voltar a Granada e ir descansar já que no dia seguinte partiria para Córdoba. Entro no carro e inicio a descida, venho em paz e tranquila, estas aldeias, e por incrível que pareça, ainda encerram em si um ambiente de quietude e serenidade.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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