Mais um dia a acordar cedo por terras de Andaluzia, mas hoje era especial, uma vez que seria o meu último dia por esta província autónoma, que é muito rica culturalmente pelo que já estava nostálgica, o destino final Córdoba e lá fui eu mais uma vez à aventura e à descoberta. A viagem até Córdoba foi bastante tranquila, as estradas são muito boas e esta por onde cheguei estava praticamente deserta, vi meia dúzia de carros se tanto. À semelhança das outras estradas todas por onde passei, tinha um cheiro intenso a azeitona e todos os pedacinhos de terra estavam cultivados e organizados. Chego ao destino e estaciono o carro nos arredores de Córdoba para evitar os congestionamentos da zona citadina e sigo a pé até à Mesquita Catedral de Córdoba, que, diga-se de passagem, é um edifício que impõe respeito pela sua monumentalidade. É enorme! Ao ver tal construção pensei para mim: “Um dia não vai dar para ver tudo!”, mas estava dedicada a vê-la de forma lenta para absorver todos os pormenores, já que esta agrega em si tanta história, dado que este local onde está construída serviu de culto a visigodos, muçulmanos e cristão. Esta edificação foi mandada construir por Abderramão I, no ano de 786, sobre os restos de uma antiga basílica visigoda e durante muitos anos foi a maior mesquita do Mundo. Na atualidade, esta mesquita catedral, cujo nome eclesiástico oficial é Catedral de Nossa Senhora da Assunção, reflete a fusão perfeita entre a arte islâmica e outros elementos cristãos.
A mesquita foi transformada em catedral após a reconquista da cidade de Córdoba, em 1236, por Fernando III de Castela, tendo já nesta época sofrido algumas alterações, construíram-se pequenas capelas abobadadas e uma Capela Real, mas a grande transformação deu-se no ano de 1523 quando Carlos V, rei de Castela e Aragão, mandou construir a grande catedral de planta em forma de cruz latina no centro da mesquita na antiga sala de orações. A obra durou mais de 80 anos a ficar concluída tendo sido erigidos uma grande cúpula renascentista e os braços do cruzeiro.

Entro no edifício e deixo-me ficar um pouco no Pátio das Laranjeiras que nos tempos da ocupação muçulmana era o centro da vida islâmica, contemplo os 54 metros de altura do minarete, o qual após a reconquista foi coberto por elementos barrocos e passou a ser o campanário da catedral, aqui aproveitando a sombra das muitas árvores (laranjeiras, palmeiras, oliveiras e ciprestes) e o silêncio que se fazia sentir para me concentrar e entrar na mesquita catedral. Quando entro no edifício fico abismada com a grandeza do seu interior e digo-vos não há preparação que vos prepare para o que vão ver! Deparo-me com uma floresta de colunas e arcos de ferradura pintados de vermelho e branco a perder de vista, onde se destaca a quibla e o mihrab muito elegantemente decorados com inscrições do Alcorão e um arco de ferradura decorado com temas vegetais. Uma curiosidade sobre a quibla, nesta mesquita está mal orientada, uma vez que devia apontar para Meca, mas aqui aponta para o Rio Guadalquivir. Este erro de cálculo deve-se aos arquitetos do califado que imitaram a orientação das mesquitas de Damasco sem terem em conta a posição de Andaluzia no mapa. Percorro as várias capelas que existem nas laterais do edifício e, por fim, chego à parte central onde encontro a Catedral cristão que impressiona, mas deixa a pessoa confusa visto que, supostamente, não deveria estar ali e, no entanto, lá está ela ocupando o antigo espaço dedicado à oração dos muçulmanos.
A manhã passou-se e após ver a Mesquita Catedral com calma saio e decido passear pelas ruas estreitas nas imediações que em tempos idos foram uma judiaria. Após perder-me neste antigo bairro judeu aventuro-me a ir visitar o templo romano de Córdoba, que em tudo é muito parecido com o templo de Diana em Évora, mas este daqui é maior, foi erigido no século I d.C., mas só foi descoberto em 1950, quando foram feitas obras de ampliação da rua junto à Câmara Municipal de Córdoba. É o único templo romano que se conhece a sua existência nesta cidade que é dedicado ao culto imperial. Fazia parte do Fórum Provincial junto com um circo, estava erguido sobre um pódio, tinha 6 colunas de capitel coríntio e na fachada existia um altar. A reconstrução deste templo ficou a cargo do arquiteto Félix Hernández.
Olho para o relógio porque ainda havia muito para ver e por incrível que pareça o tempo parecia andar mais devagar como quisesse que visitasse toda a cidade sem sobressaltos ou correrias, pelo que segui caminho rumo à Ponte Romana ou também conhecida como Ponte Velha. Esta localiza-se no centro histórico de Córdoba e passa sobre o Rio Guadalquivir ligando o Bairro Campo de la Verdad ao Bairro Catedral, durante vinte séculos foi a única ponte que existia nesta cidade, mede 331 metros de comprimento e é composta por 16 arcos, originalmente existiam 17 arcos. No externo Sul podemos ver a torre defensiva Calahorra e no extremo Norte a Porta Puente, esta última é obra do arquiteto Hernán Ruiz II em 1572 sendo uma das portas mais velhas da antiga muralha que aqui existia. No centro da ponte podemos observar o Triunfo de San Rafael, obra do escultor Bernabé Gómez del Rio, datado de 1651.
A sua construção costuma a ser atribuída à época do primeiro imperador romano Augusto (20 a.C.-14 d.C.), nesta altura Córdoba chamava-se Colónia Patrícia. Após a construção das pontes San Rafael (1953) e a Miraflores (2003) esta ponte foi fechada ao trânsito e foi convertida em ponte pedonal, sendo muito utilizada por turistas como forma de entrar em Córdoba, mas durante muito tempo foi parte integrante da autoestrada Nacional N-4. Importa mencionar que é muito provável que a Via Augusta, que ligava Roma a Cádis, tenha passado por aqui visto que esta construção era o único ponto de travessia que existia nesta zona do rio que se atravessava sem utilização de qualquer tipo de barco. Resta referir que a primeira reconstrução desta ponte é atribuída ao Califa Wali Al-Samh ibn Malik Al-Khawlani e data do ano de 720 quando esta cidade estava sob o domínio dos muçulmanos.

Os deuses controladores das horas estavam favoráveis à minha estadia por Córdoba pelo que ainda tive tempo de ir visitar o Alcázar dos Reis Católicos que é muito encantador, mas como ainda tinha fresco na mente o de Sevilha, acabei por considerar este muito despido. Este palácio fortificado foi mandado erigir por Afonso XI de Castela, em 1328, sobre as ruínas do antigo palácio do califado, mas não se pense que os muçulmanos foram os primeiros a construir neste local porque há provas que romanos e visigodos viveram aqui antes.
Este Alcázar foi transformado em 1482 em quartel-general das tropas dos Reis Católicos que ali viveram 10 anos. Os próprios reis fixaram ali residência durante 8 anos para orquestrar a estratégia para conquistar Granada, o último reduto árabe em Espanha. Foi aqui que nasceu D. Maria, uma das filhas dos Reis Católicos, que mais tarde viria a ser rainha de Portugal. Foi também neste local onde começaram as conversações e os preparativos da primeira viagem à América de Cristóvão Colombo. Aliás nos jardins deste edifício há um conjunto escultórico alusivo a este momento histórico, no qual vemos Cristóvão Colombo com os reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Esta construção após a reconquista de Granada se concretizar foi doado pelos reis católicos à Igreja de Córdoba, que mandou instalar as Cortes dos Santos Ofícios (a Inquisição). Mais tarde este espaço foi usado como prisão civil e ainda foi prisão militar.
Se o seu interior digamos é “desprovido de decoração” o mesmo já não se pode dizer dos seus jardins que são dotados de uma beleza exuberante, não admira que hajam relatos que dizem a Rainha Isabel, a Católica, se perdesse a passear e a ler neste jardim. São 30.000 m2 de área plantado sobre as antigas hortas, decorado com muitas flores e árvores como palmeiras, ciprestes, laranjeiras e limoeiros, há fontes e tanques que estão carregados de peixes e estátuas dos antigos reis.

As horas foram passando e eu como quem não quer nada lá consegui cumprir o programa previsto para esta passagem relâmpago por Córdoba, mas digo-vos se fosse hoje teria ficado mais um dia nesta localidade para a explorar mais profundamente, pois fiquei com a sensação que tem muito mais para oferecer a quem por lá passa para além da Mesquita, do Alcázar e da judiaria. E pronto era tempo de dizer um até já Andaluzia e seguir rumo a Portugal. No entanto, ficou semeada a vontade de voltar a esta cidade que tem o dom de encantar os visitantes e que a UNESCO em 1984 declarou ser Património da Humanidade.
Galeria das fotografias legendadas: Aqui