Vale da Achada e as suas lagoas

O dia acordou bastante cinzento e nublado na ilha Terceira, mas a menina da ilha rainha fez-me a perna para caminhar e lá fomos nós à descoberta das lagoas do Ginjal e do Junco. Seguimos rumo ao parque industrial de Angra do Heroísmo, local onde iriamos iniciar a nossa caminhada, e que caminhada!

A incursão levou-nos ao Vale da Achada, agora por certo estão a perguntar-vos onde fica este vale na ilha Terceira. Na realidade esta imensa planície que ocupa o interior da maior caldeira vulcânica dos Açores (7Km) é um dos pontos turísticos mais procurados desta ilha, a famosa “Manta de Retalhos”. Agora sim, já devem estar a imaginar a paisagem magnífica que é considerada geossítio do Geoparque dos Açores, a qual pode ser vista do alto da Serra do Cume e onde se pode contemplar muitas pastagens e campos de cultivo divididos por muros de pedra basáltica e, em alguns casos, sebes de hortênsias.

Se ver de cima é a vista que é, imagine-se agora a caminhar pelo meio dela, é uma sensação para a qual não há palavras para descrever, é viver um pouco do dia-a-dia da azáfama de quem ganha a vida com a lavoura. Percorro com olhar atento a paisagem e noto que é salpicada por cerca de uma dúzia de pequenos cones vulcânicos, na sua maioria cones de escórias, os quais ajudam a moldar esta planície. Vem-me ao pensamento que estou no interior da caldeira do vulcão mais antigo da Terceira, o Cinco Picos. Mergulhada nos meus pensamentos sigo serpenteando por entre aqueles caminhos estreitos na companhia da menina da ilha rainha. Tudo me encanta neste cenário! As várias tonalidades de verdes e castanhos, os antigos silos onde se guardavam os cereais, as casas construídas em pedra, os tratores que vão passando na “correria” para a frente e para trás, transportando silagem e outros produtos e as vacas que não ficam indiferentes à nossa passagem, curiosas chegam-se aos muros.

Lagoa do Ginjal

E é envolta neste cenário que chego à lagoa do Ginjal. Esta pequena, mas encantadora lagoa de baixa profundidade fica à beira da estrada junto ao Pico do Vime e encontra-se bastante eutrofizada. Por ter águas calmas e estar localizada num sítio onde reina o silêncio é local de eleição das aves aquáticas para fazerem paragem na sua migração. De referir que esta lagoa está associada a uma lenda que de forma sucinta reza o seguinte: há muitos anos atrás vivia na ilha Terceira uma família muito rica que tinha uma filha de nome Pérola. Esta menina era muito bonita e tinha um farto cabelo louro. Todos os homens desta ilha queriam casar com ela, mas por causa do dinheiro. A menina sabendo ter tantos pretendentes vivia assustada com medo que o pai a obrigasse a casar com um deles. Certo dia uma fada com pena da menina levou-a para um castelo que ficava no fundo da lagoa do Ginjal e a menina lá ficou escondida por muitos anos aparecendo no cimo das águas transformada em cisne. Passado algum tempo, apareceu um rapaz que realmente gostava dela e não do dinheiro que ela tinha. Dado que apareceu o amor verdadeiro a Pérola o castelo onde vivia escondida surgiu da água tendo ela casado e vivido feliz para sempre.

Deixamos a lagoa do Ginjal para trás, o tempo continuava a ameaçar chuva, mas São Pedro não se ficou pela ameaça mais tarde mandou mesmo precipitação para alegrar o dia. Seguimos rumo, ainda queríamos ir à lagoa do Junco, localizada no sopé do complexo desmantelado da Serra do Cume, pelo que voltamos um pouco atrás no caminho, até chegarmos a uma via que passava pelo meio de dois picos onde viramos. Ao chegarmos ao final desta rua, a manta de retalhos muda de feição, no ar o cheiro da silagem não deixa dúvidas estamos numa zona dedicada à lavoura e se as incertezas continuassem a existir bastava contemplar a paisagem para ver os pavilhões das explorações pecuárias que sarapintavam no horizonte. Nós movidas pela vontade e curiosidade de conhecer a lagoa do Junco continuávamos a nossa caminhada, por uma das explorações que passamos vimos um carro cisterna que por certo recolhia o leite para o entregar na fábrica. Deste lado, os caminhos são mais lamacentos, mas nem mesmo a lama nos demoveu do nosso propósito de ver a lagoa. Depois de muito caminhar lá chegamos à lagoa do Junco que é maior em cumprimento do que a do Ginjal pena mesmo é estar dividida por muros, penso que estes muros fazem com que esteja tão eutrofizada. À semelhança da primeira também esta se localiza à beira da estrada. Sendo local de referência para se ver aves migratórias, mas como neste lado da manta de retalhos nota-se mais a atividade do ser humano isto leva a que as aves se movimentem mais entre as várias charcas aqui existentes.

Vale da Achada

Foi aqui que almoçamos agraciadas por este cenário envolto em mistério, da lagoa chegava a nós o som relaxante do coaxar das rãs e ao fundo a Serra do Cume envergonhada escondia-se atrás do nevoeiro. Após este almoço em tudo foi cativante e inspirador voltamos para o ponto inicial pelo mesmo percurso e eu metida com os meus pensamentos refletia o quão a vida é bela quando a deixamos fluir sem nos impormos a nada e aceitando o que esta nos oferece, mesmo que seja chuva todo o santo caminho de volta! Até breve e boas caminhadas!!!! 

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