A Grande Rota do Oeste, Ilha Terceira.

Recentemente, numa das minhas passagens relâmpago pela ilha Terceira, desafiei a Menina da Ilha Rainha a acompanhar-me e meter os pés na Grande Rota do Oeste. Ela corajosa e destemida acedeu ao meu desafio e foi assim que fiz a minha primeira grande rota acompanhada. Desta vez fomos bafejadas com bom tempo para realizar a empreitada dos trinta e um, quase trinta e dois quilómetros que compõem o trilho. O sol, o suspeito do costume que torna tudo mais alegre e leve, marcou presença e foi com este bónus que iniciamos a nossa caminhada na Reserva Florestal de Recreio da Lagoa das Patas (criada pelo Decreto Legislativo Regional n.º 16/89/A, de 30 de agosto), que ocupa uma área de 6 hectares e que se localiza a cerca de 452 metros de altitude. O nome desta reserva deve-se à bonita lagoa artificial de pequenas dimensões que se encontra no seu interior, a qual é alimentada da escorrência proveniente da Serra de Santa Bárbara e foi junto a esta lagoa que demos início ao nosso percurso. Daqui seguimos pela estrada como manda a sinalização do trilho, mais à frente entramos num caminho florestal, que é ladeado por grandes Criptomérias e que nos levou ao início do trilho oficial dos Mistérios Negros, onde fizemos um desvio para subir ao Pico Gaspar (597 metros acima do nível do mar). O interior da cratera deste pico, e talvez porque ainda não sofreu a influência do Homem, é coroada por um mar de plantas endémicas que são um regalo para a vista e ajudam a tornar a sua subida mais venturosa, afinal não é todos os dias que podemos completar a natureza no seu estado mais puro. Atingir o topo da cratera é ser-se inesperadamente surpreendido pela bonita vista. Dali vemos a Caldeira Guilherme Moniz, a Serra de Santa Bárbara e a zona que dá nome ao trilho os Mistérios Negros, os domos traquíticos de cor negra que mais à frente neste percurso passaremos junto a eles. Voltamos atrás e então entramos no trilho oficial, onde subimos e caminhámos por um mato de criptomérias, depois passamos para um passadiço de madeira que serpenteava por entre as árvores. Mais à frente chegamos a um caminho de terra e aqui a paisagem muda, a acompanhar-nos surgem os cedros do mato e o Pico Gaspar. Passar por este caminho é o pronúncio para aquilo que nos espera, uma mata encantada de lindos cedros e como que a aclamar a mata as lagoas, apanhamos pelo menos duas das lagoas do Vale Fundo. Foi numa destas lagoas que viramos e entramos na zona onde tive mais medo de caminhar, era uma mata de criptomérias fechada, uma paisagem muito igual onde a falta de marcas leva a que a pessoa se sinta perdida, mas valeu-me o GPS para me manter relaxada e no caminho certo. Esta mata levou-nos a um caminho de bagacina vermelha bem fresco, uma vez que era fechado por Criptomérias, mas antes de aqui chegarmos passamos por um pasto. Caminhamos largos metros por este caminho de bagacina que nos levou à pequena, mas encantadora Lagoa do Cerro. Nesta lagoa há uma casa para observação de aves. Voltamos ao caminho de bagacina e tornamos a entrar numa mata de criptomérias, onde a sinalização era pouca e mais uma vez valeu-me o GPS. Após sairmos da mata encontramos um caminho agrícola gasto pelo uso e pelo tempo onde caminhámos descendo até um bebedouro. Nesta via e acompanhando a nossa passagem algumas vacas, que curiosas mugiam para nós. Ao chegarmos ao bebedouro viramos à esquerda para uma rua de bagacina vermelha, onde começamos a subir. Aqui encontramos uma família de lavradores feliz a mudar as suas vacas de pasto, eu claro medrosa de vacas logo parei de caminhar para dar prioridade às ruminantes. Continuamos neste percurso por algum tempo, mais à frente entramos num caminho de asfalto também este gasto pelo tempo, penso que já estaria na hora de quem de direito mandar arranjar estes caminhos. Este levou-nos a passar por um campo experimental ou de ensaio de café, as árvores estavam carregadas de bagas ainda verdes, mas diga-se de passagem que estas árvores são muito bonitas.

Lagoa das Patas

Bom, por esta hora já há muito que caminhávamos na Reserva Florestal Parcial da Serra de Santa Bárbara e dos Mistérios Negros (criada pelo Decreto Legislativo Regional n.º 11/2011/A, de 20 de abril), os trajetos aqui existentes são muito bonitos, fechados com sombra por árvores altas de várias espécies. No fim desta estrada e após termos descido um pouco viramos à esquerda e voltamos a subir primeiro por uma estrada de asfalto e mais à frente por uma de terra batida que nos levou a outra mata de cedros do mato muito bonita, mas que a meio já não estava a achar muito engraçada porque não havia sinalização suficiente e a juntar à falta de sinalização encontramos um obstáculo que não era suposto sequer existir e o qual tivemos de transpor, uma sebe de arame farpado, nunca se viu tal coisa num trilho oficial nem sei o que vos dizer, um verdadeiro perigo. Aqui aproveito para deixar umas sugestões construtivas, primeira penso havia de existir uma equipa de campo que fizesse os trilhos com regularidade para prevenir situações destas do arrame farpado e segunda aproveito para dizer que deveriam marcar os trilhos somente com marcos de madeira porque torna-se complicado para quem faz estas rotas ter que se concentrar onde mete os pés e ainda ter que andar à procura da sinalização que por vezes está camuflada pintada em árvores ou pedras.

Saindo da mata de cedros encontramos mais um caminho de terra batida que nos levou ao trilho oficial da Serreta, aqui fizemos um desvio para ir ver a Lagoinha, uma pequena lagoa situada na cratera do vulcão de Santa Bárbara, a uma altitude de 786 m acima do nível do mar, para a ela chegarmos caminhámos por entre um mato de cedros. Após vermos esta lagoa escondida no meio desta floresta de cedros voltamos ao mesmo percurso, onde viramos à esquerda e começamos a descer. Neste local vimos muita obsidiana e lá fomos nós avançando no trilho rumo à Mata da Serreta, primeiro por um pasto que é acompanhado pela Ribeira do Além e depois por uma escadaria. Após a escadaria, voltamos a um carreiro de terra batida e passamos por um campo experimental de criptomérias e ciprestes, mais à frente, o parque de estacionamento do Pico do Negrão, local onde se inicia o trilho oficial. Aqui começamos a nossa descida numa via de asfalto para mais à frente virámos à direita e entramos em percursos florestais, que nos levaram à Reserva Florestal de Recreio da Mata da Serreta, na qual acabamos a primeira etapa. Esta mata ocupa uma área de 15 hectares, localiza-se a 200 m acima do nível do mar e foi o primeiro lugar da ilha Terceira a ter infraestruturas de lazer ao dispor da população. Nesta mata há um chafariz que pertenceu ao antigo claustro do Convento da Graça, em Angra do Heroísmo.

Caminho agrícola na zona da Reserva Florestal Parcial da Serra de Santa Bárbara e dos Mistérios Negros

Claro que a Grande Rota só ficaria concluída após fazermos a segunda etapa, mas nós muito despachadas já a havíamos feito uns tempos antes embora de forma aldrabada, mas fizemos e ficou a promessa de que iríamos voltar e fazer a etapa novamente, só que desta vez pelo caminho certo, porque fizemo-la de forma circular, ou seja, começamos e acabamos na mata da Serreta. Assim, iniciamos o trilho a caminhar na estrada regional para mais à frente viramos para o miradouro de Agualva, aqui a grande rota percorre o trilho do Peneireiro (sobre este trilho escreverei um pequeno texto, porque achei-o muito interessante, uma vez que conta a história da Freguesia do Raminho ligada aos vários eventos sismológicos e vulcanológicos). Parte deste trilho caminha-se por pedaços da original estrada regional e por carreiros de servidão, passando por florestas de metrosíderos e pelas antigas curraletas usadas para cultivo de vinha. Este trajeto acaba numa estrada de asfalto, a qual atravessamos e entramos num caminho pedregoso e escorregadio, onde os metrosíderos continuavam a prover sombra, já que o sol estava quente em demasia. Aqui, devo confessar, penso que se estivesse sozinha não teria feito esta descida por completo. A mata era muito fechada fazendo com que a receção do sinal do GPS se perdesse, a juntar a isso a pouca sinalização que além de ser escassa, por vezes, estava camuflada nas árvores e rochas não tornavam a nossa vida fácil, mas a Menina da Ilha Rainha, segura de si, incentiva-me a que continuássemos e, assim foi, completamos a descida e ainda bem que fizemos o resto do caminho é muito belo. A determinada altura deu-se uma abertura na vegetação e pudemos ver a bonita e escarpada encosta e, ao longe no horizonte, a ilha de São Jorge tornava o cenário ainda mais mágico. Este percurso levou-nos a cruzar mais curraletas e eu pensei para mim os antigos habitantes eram mesmo bravos. A vereda levou-nos ao local onde existiu um farol que foi destruído pelo sismo de 1980. Na atualidade, há neste local um farolim automatizado, onde contemplamos a vista e descansamos um pouco. Após esta pequena pausa, retomámos a caminhada e à nossa espera mais uma rica subida, que só não matou porque o trilho desenvolve-se por entre mais uma mata de metrosíderos, que proviam sombras que nós agradecíamos. Na ascensão, o fascínio de aqui e ali se conseguir ver o recorte da costa através das janelas formadas pelas árvores. Este percurso levou-nos novamente ao trilho do Peneireiro e aqui seguimos por um caminho de servidão que indicava saída para o Pico do Negrão, o qual levou-nos à estrada por onde caminhámos até chegarmos novamente à mata da Serreta.

Caminho florestal na zona da Serreta

E assim se fez a Grande Rota do Oeste da ilha Terceira, sempre ao nosso ritmo e com muita boa disposição. Esta rota não percorre a ilha toda, mas poderia percorrer, uma vez que não faltam caminhos para que de futuro se possa fazer o prolongamento e consequente restante ligação e quem sabe mesmo criarem ramais de junção a zonas de interesse, como por exemplo a Serra da Santa Bárbara. Este trilho tem muito potencial e pode ser que quem de direito o possa explorar e tirar proveito abrindo mais trajetos, os pedestrianos agradecem. O trilho desenrola-se quase ou até mesmo todo dentro de áreas protegidas, começa na zona protegida da Lagoa das Patas, passa para a zona protegida da Serra de Santa Bárbara e acaba na zona protegida da mata da Serreta, passando por 4 freguesias do concelho de Angra: São Bartolomeu de Regatos, Altares, Raminho e Serreta, pelo que quem decida realizar a caminhada vá consciente da importância do terreno que vai pisar e que deixe tudo como encontrou. Um bem-haja e boas caminhadas!!!

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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