Antes de seguir para o outro lado do mundo, um desvio estratégico até à ilha Terceira para ir fazer pela primeira vez na data correta e acompanhada uma peregrinação, a peregrinação da Serreta, a qual acaba no Santuário de Nossa Senhora dos Milagres. A mesma realiza-se na sexta-feira e sábado anteriores ao domingo da festa da Serreta, que corresponde ao segundo domingo do mês de setembro, exceto se calha no dia 8 de setembro. Caso aconteça esta coincidência dá-se o adiamento da festa para o domingo seguinte, de modo a impedir que a festa da Serreta coincida com as festividades em honra à Nossa Senhora do Livramento de Angra do Heroísmo.
O culto a Nossa Senhora dos Milagres é muito antigo, começou nos finais do século XVII, quando o Padre Isidro Fagundes Machado (1651-1701) sentindo-se vítima de perseguição refugiou-se num lugar remoto da ilha, chamado Queimado, que na atualidade faz parte da freguesia da Serreta. Neste sítio construiu uma pequena ermida onde colocou uma pequena imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus (a atual imagem de Nossa Senhora dos Milagres). Esta ermida original ou melhor a sua reconstrução ainda pode ser vista se fizerem o Trilho do Peneireiro. Após a morte do padre, a ermida ficou ao abandono acabando por se degradar, mas nem mesmo o estado degradado afastou as pessoas do local, pelo contrário, a edificação continuou a atrair muita gente. Então, o prelado vendo que o sítio não tinha condições e que alguns dos que ali acorriam praticavam atos desrespeitadores mandou recolher a imagem à Igreja de São Jorge, das Doze Ribeiras e, mais tarde, transferiu-a para a sua atual casa, o Santuário da Nossa Senhora dos Milagres, na Serreta. Apesar da imagem desde sempre chamar a si muitas pessoas por ter fama de ser milagrosa, a criação do seu culto só começou num voto feito em 1762. Neste ano, o exército franco-espanhol invadiu Portugal, naquela que viria a ficar conhecida para a história como a Guerra Fantástica e um grupo de pessoas nobres e alguns eclesiásticos, da Terceira, fizeram um voto solene na Igreja de São Jorge, das Doze Ribeiras, de que se a ilha não fosse invadida pelo exército estrangeiro que se tornariam escravos de Nossa Senhora dos Milagres. O voto incluía a formação duma irmandade e a organização anual duma festa em honra desta santa e até à presente data a irmandade continua a promover a festa em sua honra, a qual continua a atrair até si muitas pessoas. Este ano, segundo sei, foram cerca de dez mil pessoas que saíram à rua para se deslocarem à Serreta vindas de todos os pontos da ilha Terceira.

O dia começou antes do raiar da aurora havia que começar cedo para não apanharmos as horas de sol alto, já que a previsão prometia um lindo dia bastante ensolarado. Saímos da freguesia da Sé, mais propriamente da histórica Rua Direita, em Angra do Heroísmo, que foi mandada construir por volta de 1474, fazendo com que a estrutura da cidade de Angra ficasse mais moderna e aberta ao mar. Ela representa o verdadeiro significado de rua direita, pois ligava o cais e a alfândega à praça e casa do Capitão donatário sem desvios. Os anos foram passando e esta rua histórica, que é muito bonita, não ficou parada no tempo, ao seu ritmo foi acompanhando a evolução da cidade, mas mantendo em si a traça antiga das casas pintadas de cores alegres e o frenesim da atividade diária de quem lá vive e trabalha.
Daqui viramos para a Travessa de São João que nos levou à Rua de São João, que subimos até à Rua da Sé, onde passamos pela Igreja da Sé, dedicada a São Salvador. Em 1461, construía-se o primeiro templo neste local, mas em 1534, o Papa Paulo III instituiu na cidade de Angra do Heroísmo a sede do bispado e como o templo primitivo era muito modesto para receber o bispado mandou-se erigir o grandioso templo atual (a partir do ano de 1568 e cuja obra levou 50 anos a ficar concluída). Esta é considerada a maior igreja de todo o arquipélago dos Açores. Prosseguimos caminho, o dia amanhecia lentamente repleto de cores, a cidade recebendo os primeiros tímidos raios de sol ia acordando ao seu ritmo e nós sem darmos conta já estávamos na Zona Balnear do Fanal, entrando, assim, na freguesia de São Pedro, passamos a rotunda e viramos para a esquerda para seguir o caminho que corre junto à costa, passamos a Zona Balnear da Silveira, para mais à frente fazer um desvio até à Poça dos Frades, outra zona balnear, mas esta última ainda no seu estado natural, já que por enquanto não tem nenhuma zona de rocha coberta por cimento, o que faz com que as piscinas naturais sejam ainda muito mais encantadoras. Voltamos à estrada e seguimos rumo a São Mateus da Calheta, uma freguesia dedicada às atividades piscatórias, pelo caminho encontramos aquilo que parecia ser uma ruína dum antigo forte que parei para fotografar. Ao chegarmos a São Mateus da Calheta, passamos pelo Grande Forte de São Mateus, que se encontrava fechado talvez por ser sábado, nas imediações encontramos umas obras na orla costeira. Este forte foi mandado construir, no contexto da crise de sucessão de 1580, pelo corregedor Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos para cumprir o plano de defesa da ilha elaborado por Tommaso Benedetto, em 1567, mais à frente o porto de pescas. Passando o porto, encontramos a elegante Igreja Paroquial de São Mateus da Calheta, que foi construída após a destruição da Igreja Velha pelo furacão de 1893. A primeira pedra para a edificação deste templo foi colocada no ano de 1895, mas só ficou concluída no ano de 1911, fazendo com que seja uma das igrejas mais antigas da ilha. Mais à frente, o Império do Divino Espírito Santo do Terreiro, que foi construído no século XIX. Antes de sairmos de São Mateus passamos pela Zona Balnear do Negrito.

A peregrinação prosseguia alegre, com muita paz e, para contentamento da Menina da Ilha Rainha, muito mar, andamos longos metros em asfalto, aliás, diga-se de passagem, o caminho todo que percorremos até à Serreta foi sempre em asfalto. O sol já estava mais acordado mostrando-se sorridente e, por esta altura, já começamos a ver mais peregrinos nas ruas, eu, claro, atenta a tudo, fotografava as pessoas que por nós passavam. Quando dei por mim já estávamos em São Bartolomeu de Regatos, onde paramos num miradouro que ficava à beira da estrada para contemplar o mar, que se apresentava calmo a bater na encosta como que a marcar o ritmo dos peregrinos. Aqui aproveitamos para retemperar as forças e após esta pequena pausa voltamos a meter o pé na estrada para dar continuidade à nossa caminhada rumo à Serreta, mas antes de chegarmos ao destino, o nosso caminho começou a subir desviando-se da costa chegando a peregrinação à freguesia das Cinco Ribeiras, onde alegres visitamos a Igreja Paroquial, que é dedicada a Nossa Senhora do Pilar, mandada construir no século XIX. Este templo foi destruído pelo terramoto de 1980 e, mais tarde, reconstruído com a atual traça que desvirtuou bastante o edifício. No adro da igreja está exposto o sino que vitimou o sacristão durante o terramoto de 1980. No largo da igreja, o Império do Espírito Santo, que tem inscrito no seu frontispício a data de 1886 e o Ex Libris desta freguesia, o chafariz que apresenta o formato de um talhão, exemplar único em toda a ilha Terceira. Este chafariz foi construído em 1890 e foi na água que saía das suas fontes que a Menina da Ilha Rainha lavou as mãos para se refrescar.
Por esta altura da caminhada já começávamos a ver alguns peregrinos de bicicleta e moto que faziam o caminho de volta. Enquanto nós continuávamos com a nossa energia e alegria rumo à Serreta, até parecia que tínhamos contagiado o sol que irradiava sobre toda a ilha e todos os peregrinos com os seus raios e foi com este contentamento que chegamos à freguesia de Santa Bárbara, onde entramos na igreja paroquial cuja invocação é a mesma que dá nome à freguesia. O primeiro templo edificado neste local data do século XVI, tendo ao longo dos anos sofrido alterações na sua traça. Com o terramoto de 1980, a igreja ficou muito danificada, mas ao contrário do que aconteceu na igreja das Cinco Ribeiras, esta foi reconstruída (1985) mantendo a traça original. No seu interior existe uma pia batismal muito diferente que por ser pintada de muitas cores torna-a muito alegre e há ainda um órgão de armário que já merecia uma intervenção de restauro. Eu feliz da vida com este caminho, pois estava a ser produtivo para ver o interior de muitas igrejas que não conhecia, aprecio a arte e arquitetura religiosa.

Mais à frente um dos momentos altos da caminhada, chegamos à freguesia das Doze Ribeiras, entramos na Igreja Paroquial dedicada a São Jorge e como já mencionei foi nesta igreja que durante muitos anos a imagem de Nossa Senhora dos Milagres esteve recolhida antes de ir para a sua morada atual. De referir apenas que esta igreja foi mandada erigir sobre a primitiva ermida e que atual construção data do século XIX, no seu interior é muito singela. Ao sairmos da igreja, atravessamos a rua para irmos ver o Império do Espírito Santo das Doze Ribeiras, que tem inscrito no seu frontispício a data de 1989. Retomamos a caminhada e ao longe começo a ouvir o som de cascos de cavalos, não estava à espera de ouvir tal barulho e penso para mim: – Já ando a ouvir coisas. Contudo o ruído dos cascos começou a ficar cada vez mais sonoro e próximo pelo que olho para trás e vejo um grupo de cavaleiros trajados à maneira, imponentes cavalgando nos seus lindos cavalos, paro para apreciar a cena e os meus olhos arregalam-se com a tamanha beleza dos equídeos. Fico com a sensação de que um deles persentia o meu fascínio por estes animais porque começou a exibir-se, quem não gostou desta exibição foi o cavaleiro, uma vez que parecia não ter controlo sobre o cavalo. O grupo seguiu o seu caminho, mas notava-se que os animais estavam um pouco nervosos por estarem na estrada com os carros a passarem muito próximo deles. Mais tarde, quando chegamos à Serreta, cruzamo-nos, novamente, com este grupo de cavaleiros. Neste momento senti-me abençoada por ter visto esta manifestação de fé por parte dos cavaleiros e segui para a Serreta ainda mais alegre. Prosseguimos a nossa jornada passando por um fontenário e por um lindo moinho de vento muito bem conservado que parei para fotografar, mais à frente o miradouro das Doze Ribeiras com o seu baloiço, foi aqui que fizemos uma última paragem para retemperar as energias.
E num ápice a nossa peregrinação estava prestes a terminar, entramos na freguesia da Serreta e começamos logo a sentir no ar o ambiente de festa, o povo, na rua, na azáfama dos últimos pormenores, montava os pórticos para os peregrinos passarem. Quanto mais avançávamos no caminho rumo ao santuário mais festivo ficava o ambiente, algumas pessoas aproveitavam as barracas para retemperar as forças da caminhada, mais perto do santuário, outras aproveitavam para descansar. Antes de entramos no santuário noto que estavam a montar um palco, talvez à noite fosse haver algum concerto. Seguimos, subimos as escadas de acesso ao santuário e aqui o ambiente ficou mais solene, peregrinos de todas as idades entravam e saiam da igreja, outros estavam sentados a rezar ou simplesmente a contemplar e a absorver o momento. Eu aproveitava enquanto a Menina da Ilha Rainha fazia a sua reflexão para ver o interior da igreja, uma vez que não o conhecia. No altar-mor sobre o império a pequena imagem da Nossa Senhora dos Milagres, toda faustosa, que apesar de ser pequenina diz o povo que é muito milagrosa. Volto para junto da minha companheira de caminhada e deixo-me ficar sentada ao lado pensando, refletindo sobre a peregrinação, o quão fomos agraciadas pelo tempo, o sol sempre radioso no céu e o quão aquela caminhada tinha sido alegre e pacificadora.
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