Acordo, nesta cidade que é Património Mundial da UNESCO, desde 1983, e para variar, os deuses do tempo deram uma trégua à chuva, mostrando terem alguma piedade da minha pessoa. O dia amanheceu bastante soalheiro com o sol a dar um ar da sua graça, estendendo os seus raios sobre a cidade de Angra do Heroísmo, onde as casas pintadas de várias cores ficam ainda mais bonitas e alegres quando iluminadas pela luz do astro rei.
O trilho escolhido carrega em si parte da história da Freguesia do Raminho, tornando-o especial não só para os Terceirenses, mas também para todos os habitantes deste arquipélago dos Açores ou não estivesse a história destas ilhas ligada a vários eventos sismológicos e vulcanológicos e falo claro do trilho da Rocha do Peneireiro, que segundo me foi dito o nome deste está ligado ao da ave peneireiro, achei estranho, pois nunca ouvi falar que tivessem existidos peneireiros nesta ilha.
O dia começou cedo para mim e para a Menina da Ilha Rainha para seguirmos viagem até à Mata da Serreta, pois era naquele local que iríamos iniciar a caminhada. A primeira parte da jornada até chegarmos ao Miradouro do Raminho foi feita pela estrada, mas uma vez chegadas ao miradouro o cenário mudou e começamos a andar num caminho de bagacina vermelha e aqui sim começou a “cheirar” a trilho! Este Miradouro do Raminho tem uma vista muito bonita sobre a costa Norte da ilha Terceira em dias de bom tempo é possível ver no horizonte as ilhas Graciosa e São Jorge. Deixamos este local para trás e avançamos rumo ao caminho do conhecimento e descoberta! Logo no início há uma placa informativa, aliás todo o trilho é acompanhado por placas informativas quando chegamos aos sítios que indicam um acontecimento ou lugar com história, tornando assim este percurso ainda mais interessante e cativante. Nesta primeira placa informativa lê-se o seguinte: «É um quadro que inspira mais majestade que horror. Uns diriam que o rei dos mares ali tinha recolhido e amontoado os imensos rochedos que entulhavam o oceano; outros julgariam que ali tinha caído do céu um dilúvio de penhascos, ou um vulcão os tinha vomitado do centro da Terra; outros, enfim, considerariam aquelas moles imensas, como os restos da construção do grande edifício do Globo, ou como as cantarias e materiais que o Criador ali tinha junto e guardado para alguma nova obra da sua omnipotência. A verdura das urzes que por entre aqueles penedos soltos se erguem, e os enfeitam, formam um painel agradável», penso que é importante referir e transcrever o que ali está escrito, visto que todo o trajeto“ gira” à volta de acontecimentos e lugares da freguesia do Raminho.

Seguimos caminho e só paramos quando chegamos à vigia da baleia. Na atualidade, esta está adaptada a miradouro. Daqui é possível ver a costa norte e oeste da ilha. Em tempos idos, mais propriamente, na época associada à baleação nos Açores, ou seja, na primeira metade do século XX, este miradouro era mesmo uma vigia da baleia e é notório verificar qual a sua função em outras épocas ao entramos dentro da casota da vigia da baleia existe uma placa informativa que diz o seguinte: construída em 1950 (?) pela empresa de Francisco Linhares dos Santos e Sócios (Biscoitos). Alguns vigilantes: Mestre Augusto, Mestre António Machado e Senhor Fernando. Sinais de informação utilizados: Panos, fogueiras e rádio. Altitude 153 m.
O dia continuava bastante soalheiro e nós aproveitando o bom tempo continuamos alegres e bem-dispostas a explorar o caminho do trilho. Eu espreitando todos os cantos e a notar que em vários sítios ao longo do caminho parecia que ali já tinha existido presença humana, uma vez que há muros de pedra a dividir o terreno por todo o lado. Fico curiosa e comento com a Menina da Ilha Rainha sobre a existência dos muros. A conversa fica ainda mais interessante com especulações e histórias que fomos inventando. De referir que mesmo antes de acabar o percurso iria ver a minha curiosidade esclarecida, mas sobre esta parte falaremos mais à frente. Por ora falemos da próxima paragem, o Lugar da Procissão dos Abalos, assim, chamado porque no ano de 1867 (neste mesmo local ocorreu em 1998 e 1999, novamente, uma erupção do vulcão da Serreta) deu-se uma grave crise sísmica que causou grandes danos nas freguesias da Serreta, Raminho e Altares. A mesma culminou com a erupção do vulcão da Serreta, localizado no mar. A população temendo pelas suas vidas e bens decidiu sair à rua para pedir misericórdia a Deus para que fossem poupados à tragédia. Desde então no dia 31 de maio realiza-se uma procissão, a qual sai da Igreja do Raminho e vai até ao Cabo do Raminho, terminando junto ao cruzeiro que existe neste lugar. O povo sai à rua, com as roupas do dia-a-dia, levando as coroas do Espírito Santo e a imagem do Senhor dos Passos, ao chegarem ao cruzeiro ouvem as palavras do padre. Esta procissão tem a particularidade de na ida e no regresso o povo caminha em passo apressado e cantando o terço. No regresso pedem misericórdia cantando em pontos previamente marcados que ficam sempre voltados para o local onde se situa o vulcão submarino.
Nas imediações do lugar da procissão dos Abalos, outro ponto de interesse a Baixa da Serreta que não é mais do que o cimo do cone vulcânico submarino que está associado a várias erupções vulcânicas que se têm verificado neste local desde 1867, sendo este um cone secundário do grande vulcão emerso da Serra de Santa Bárbara.

Continuamos a nossa descida passando por uma zona de pastagens com as suas habituais residentes, as vacas. O caminho já há algum tempo passara de bagacina vermelha para terra batida e eu continuava imersa na minha curiosidade, pensando naqueles muros de pedra que a mãe natureza havia reclamado para si, o que eles estavam ali a fazer e não tardou muito para ver satisfeita a minha curiosidade. Uma vez chegadas à Fonte da Fajã, veio as tão esperadas respostas às nossas questões. Tal como já suspeitávamos, existiu aqui em tempos idos uma povoação de seu nome Fajã, cujos habitantes estavam agregados aos Altares até ao início do século XIX. A fonte, e segundo a placa informativa, não tinha água potável para os animais matarem a sua sede e os que dela bebiam definhavam e acabavam por morrer.
Por entre subidas e descidas ligeiras, lá prosseguíamos nós a explorar a Canada da Fajã até que chegamos a um entroncamento, onde viramos à direita entrando num dos últimos troços intocados da antiga “Estrada Real”, que ligava Angra do Heroísmo aos Biscoitos, pela costa oeste, a Canada das Vinhas. Aqui podemos ver as velhas curraletas de antigos vinhedos e pomares que, à semelhança das que fomos encontrando ao longo do caminho, estão tomadas pela mãe natureza. Esta parte do trilho até chegarmos à Ermida de Nossa Senhora dos Milagres é bastante fresca, praticamente, todo o percurso é acompanhado por árvores. Sobre a ermida diz-se que foi construída no século XVI, pelas mãos do sacerdote Isidro Fagundes Machado, que fugido da perseguição recolheu-se ao Lugar do Queimado, na Canada das Vinhas, construindo a ermida para cumprir um voto feito em hora de aflição. De referir que esta não é a construção original, visto que após a sua morte o edifício ficou ao abandono e não tardou em cair em ruína, tendo sido erigida no mesmo local outra ermida que deste então tem sido mantida. A imagem original, por falta de condições para a manter na edificação, foi recolhida no ano de 1842 à primeira igreja construída para a Nossa Senhora dos Milagres. Em 1907 é novamente transferida para uma nova igreja, que na atualidade é conhecida como o Santuário de Nossa Senhora dos Milagres. Neste local repleto de serenidade, silêncio e paz aproveitamos para almoçar.
Após o almoço seguimos caminho passando por uma mata de árvores-de-fogo e um pouco mais à frente o trilho da Rocha de Peneireiro acaba junto à estrada que leva ao farol da Serreta, mas o nosso trilho não acabou aqui, ou não fosse eu boa a aumentar quilómetros aos meus percursos. Atravessamos a estrada e fomos meter os pés na Grande Rota, entramos numa mata onde em sítios a descida era perigosa devido à pedra solta e às folhas secas das árvores. Confesso que nesta parte valeu-me ter no GPS a marcação da Grande Rota, é bastante “confusa” e é preciso estar-se muito atento, porque as marcações algumas vezes estão assinaladas em postes e noutras estão em pedras e árvores. Este tipo de marcação confesso que me desorienta, porque fico sempre sem saber onde procurar a próxima sinalização. Neste caso e como estamos a falar numa marcação de Grande Rota, na qual a sinalização é feita com as cores branco e vermelho, é de salientar que o branco acaba por ficar quase camuflado quando pintado em árvores e em algumas pedras. Sou da opinião que neste tipo de marcação e tendo em conta o tipo de terreno deveriam ter optado por sinalizar todo o caminho com postes, mas claro que este é o meu ponto de vista e vale pelo que vale. Tirando este à parte, a mata por onde se desenvolve a rota é muito bonita, passamos por um antigo abrigo, curraletas e em alguns sítios, quando a vegetação permite, somos brindados com vistas muito bonitas sobre a costa. Neste dia tivemos sorte, São Jorge e Graciosa presentearam-nos com a sua presença na linha do horizonte: A descida terminou junto ao farol da Serreta e daqui iniciamos a subida para voltar ao carro. Na subida e apesar da mesma ser realizada dentro duma mata, não é muito complicado para se encontrarem as marcas, uma vez que as árvores deste lado são mais escuras. Também deste lado, quando a vegetação permite, conseguimos ter vistas interessantes para a costa. Esta subida leva-nos à Estrada Regional através da qual caminhamos até chegarmos à mata da Serreta, sítio no qual acabámos o trilho.

E como costumo dizer, para se ser feliz não precisamos de muita coisa. Neste dia posso afirmar que fui muito feliz a Mãe Natureza abrilhantou o nosso dia com sol para transformar o caminho num sítio ainda mais mágico e bonito. A coroar todo o cenário tive a companhia sempre agradável e gentil da Menina da Ilha Rainha.
Para acabar o dia com boa energia nada como ir para a beira mar e apreciar o sol a dar lugar à lua no céu. A Menina da Ilha Rainha para não variar não desilude na escolha do local, levou-me a ver o pôr-do-sol na zona da Gruta das Agulhas, confesso não conhecia este lugar encantador. A Mãe Natureza não querendo deixar a Menina da Ilha Rainha ficar mal oferece-nos um céu cheio de lindas cores e um mar calmo para ficarmos sentadas nas escadas a ver o sol namorar a lua. Um bem-haja e boas caminhadas!!!
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