Estamos em outubro e a ilha de Santa Maria, que apesar de ser conhecida pelo seu clima ser mais ameno, não se escapou a que o outono descarado já se tivesse instalado. Neste dia, o tempo acordou sisudo, muito nublado e cinzento, mas como não chovia decidimos ir caminhar e no cardápio estava o trilho Entre a Serra e o Mar (PR03 SMA) que começa e acaba na freguesia de Santa Bárbara.
Antes de metermos os pés no trilho decidimos fazer dois desvios. O primeiro até à Ermida de Nossa Senhora de Fátima. Este desvio prendeu-se com o facto de no dia anterior ter mostrado um pequeno vídeo sobre Santa Maria à Menina da Ilha Rainha que acabou por ficar encantada com esta singela ermida. Esta edificação localiza-se na freguesia de São Pedro e foi construída no Alto das Feteiras. O seu fundador foi o Padre Virgínio Lopes Tavares, que a 11 de julho de 1924 pede licença para a sua construção, mas a obra só se iria iniciar no ano seguinte a 18 de outubro, a 17 de maio de 1928 recebia a bênção, mas a sua construção só foi finalizada em 1933, após a escadaria projetada por Álvaro Fernandes Serpa ter ficado concluída. Na atualidade, estes degraus são o seu maior atrativo, são precisamente 150 e representam os mistérios e orações do Terço. Subi-los é um excelente exercício para aquecer os joelhos, chegamos ao adro e, consequentemente, à entrada da ermida. Entramos na cativante capela e enquanto a Menina da Ilha Rainha fazia a sua prece, talvez pedindo forças à Santa para me sofrer, eu aproveitava para apreciar todos os pormenores da igrejinha, por dentro e por fora.

Deixamos a ermida e seguimos para o segundo desvio rumo à digamos “Meca” de Santa Maria, o sempre misterioso e encantador Barreiro da Faneca, área de paisagem protegida que ocupa cerca de 835 hectares.
Findos que estavam os desvios, era hora de seguirmos rumo a Santa Bárbara para irmos fazer a nossa caminhada diária, já que nas férias a atividade física não pode ser esquecida. Chegadas a esta freguesia cujo seu povoamento remonta ao século XVI, tendo sido a terceira freguesia a ser criada na ilha, estacionamos o carro junto à igreja paroquial que é dedicada a Santa Bárbara. Este templo foi construído no século XVIII em alvenaria de pedra que é rebocada e caiada e elementos em cantaria a ornamentá-lo. Entrámos, vimos a igreja toda com calma e na saída reparo que há no adro plantadas umas oliveiras, acho interessante, nunca antes vi oliveiras plantadas no adro duma igreja, sigo pensado que se calhar pode ter algum significado, já que esta árvore é várias vezes referenciada na religião estando sempre ligada à paz, fecundidade, purificação, força, vitória e recompensa. No entretanto, penso para mim: “Lá estás tu a fazer ligações que se calhar nada têm que ver, se calhar plantaram as oliveiras por plantar”. Descemos os poucos degraus que elevam a igreja da rua e seguimos caminho, viramos para a esquerda e começamos a subir rumo ao Covão da Mula (local onde a população extraia o barro para uso doméstico) por uma rua com alguma inclinação que nos levou a passar por uma zona de pastos, onde as suas habituais moradoras, as vacas, faziam a sua vida. Aqui em Santa Maria não vemos muitas vacas da raça de leite, vemos mais vacas de carne e estas que vimos hoje pareciam ter ido ao cabeleireiro, pois o pelo da cabeça encaracolava.

Prosseguimos caminho até ao Poço Grande, onde começamos a descer em direção à estrada, a qual atravessamos e continuamos a descer por um caminho de terra batida. Neste carreiro começamos a perceber que este local, em tempos idos tinha mais população, prova disto eram as casas abandonadas que observamos, mas a boa notícia foi que também vimos casas a serem recuperadas. Mais à frente, chegamos a Lagos que me marcou por ter visto uma escola primária em ruínas, não é um bom sinal quando vemos uma escola assim, indica que noutras alturas naquele local existiam crianças suficientes para se ter um edifício destes em funcionamento e que na atualidade ou não há crianças suficientes ou não existem mesmo crianças, também foi aqui que encontramos alguns turistas, que tal como nós podiam estar a fazer o trilho ou, então, podiam, simplesmente, estar a passear. Aqui o caminho começa a descer para a Ribeira do Amaro, a qual atravessamos numa ponte de madeira e começamos a subir, a meio da subida fizemos uma paragem e qual não foi o nosso espanto ao olharmos para trás uma linda paisagem sobre o Ilhéu das Lagoinhas e a Baia do Tagarete. Os caminhos nesta inclinação que nos levou ao Norte eram ladeados por árvores de incenso e faia e pareciam ser caminhos antigos de ligação entre lugares já que eram calcetados. Neste lugar passamos pela Ermida de Nossa Senhora de Lourdes que é virada a norte, algo raro nas igrejas dos Açores. Este edifício, cuja construção data do século XIX, foi erguida após a aparição de Nossa Senhora de Lourdes, em França. A capela estava fechada, mas nós curiosas fomos espreitar o seu interior pela janela e o altar-mor parecia ser uma gruta, uma vez que estava todo coberto por pedra. Seguimos caminho deixando a ermida para trás entrando num caminho de cimento, que nos levou à estrada que percorremos por alguns metros, depois viramos à esquerda e continuamos a descer por uma via de asfalto e mais à frente viramos à direita entrando num carreiro de terra batida. A meio caminho fizemos um desvio para irmos ao miradouro dos Alagares e aqui para mim foi o ponto alto do trilho, este miradouro tem uma vista fenomenal sobre a Baia de São Lourenço, área protegida que se encontra rodeada por curaletas de vinha que estão construídas em socalcos. Voltamos ao caminho de terra batida e iniciamos a subida para o Poço da Pedreira por uma via asfaltada fazendo uma paragem para contemplar a vista no Miradouro do Barreiro, junto a este havia indicação de existir um trilho que descia até à Baia de São Lourenço, não o fizemos, mas tomei nota do local para numa próxima passagem por Santa Maria ir espreitar. Este poço era uma antiga pedreira que fornecia a pedra para a construção da cantaria das casas. Na atualidade esta pedreira está desativada e o lugar foi classificado como Geossítio, do Geoparque dos Açores. E daqui iniciamos a nossa descida para Santa Bárbara pela Canada dos Atoleiros, no início desta canada passamos por dois moinhos de vento em ruínas, cuja sua construção data do século XX, que apresentam a estrutura típica dos vários moinhos desta ilha: corpo cónico em alvenaria de pedra rebocada com duas portas opostas no mesmo eixo e uma janela no eixo perpendicular ao piso térreo e cúpula giratória. Na descida fomos a contemplar o centro da freguesia de Santa Bárbara com a igreja a destacar-se. Esta descida levou-nos ao lugar da Boavista onde atravessamos uma ponte que tinha a seguinte inscrição “O.P. 1879”, mais à frente a Menina da Ilha rainha aproveitou um fontenário para refrescar as mãos e num ápice estávamos outra vez junto à igreja.

Quando acabamos o trilho aproveitei para ir ler uma placa informativa mais pequena que tinha visto quando fomos ler as informações sobre o trilho. Nesta placa mais pequena o texto falava sobre o programa LIFE SNAILS (2022-2026) um projeto de conservação de caracóis cujo objetivo é a conservação de três espécies de moluscos endémicos de Santa Maria o Plutonia angulosa e Oxychilus agostinhoi, ambos criticamente em perigo, e o Leptaxis minor, que se encontra em perigo. Este projeto pretende recuperar o habitat dos caracóis fazendo o controlo das espécies de plantas exóticas e invasoras e plantando flora endémica e nativa. Pelo que se virem caracóis deixem os bichinhos passarem em paz já que estão na sua vida.
O tempo este foi sempre a ameaçar com chuva, mas a realidade foi outra conseguimos fazer o trilho com muita tranquilidade. E como costumo dizer o tempo não pode ser impeditivo para se fazer o que se gosta, pois nem sempre o sol brilha. Um bem-haja e boas caminhadas!
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