Trilho não oficial Matas da Agualva

O dia começou cedo, ou não tivesse eu despertado com o repicar dos sinos da Igreja da Misericórdia. Estou uma vez mais na bonita cidade de Angra do Heroísmo e sempre que aqui venho os deuses do tempo fazem por mandar pelo menos um dia cinzento e nublado, mas hoje até vinha a calhar porque tinha planeado ir fotografar as cascatas do Parque das Frechas, em Agualva e de seguida iria espreitar o trilho novo das Matas de Agualva, o qual não sendo oficial está melhor marcado do que muitos trilhos oficiais.

Parque das Frechas

Meto o tripé na mochila e agarro na Menina da Ilha Rainha para seguirmos rumo a Agualva, para aproveitar o dia da melhor forma possível. Chegadas a esta freguesia somos recebidas por multidões e portas tapadas pelo que logo percebemos que mais tarde haveria tourada à corda, mas decidimos manter o plano já que o dia ainda agora tinha começado, estacionamos o carro e rumamos ao Parque das Frechas (sobre este parque não me vou alongar, uma vez que já fiz um pequeno texto sobre o mesmo que pode ler aqui). Entramos no parque e iniciamos a subida até à zona de lazer e ao contrário da primeira vez que aqui estive que me foi permitido fazer desvios para ir ver os caminhos errados, desta vez desvios só mesmo para ir fotografar as cascatas. A ribeira corria e as duas primeiras cascatas estavam bastante fotogénicas, mas o mesmo já não se pode dizer da última queda de água, a grandalhona, que pouca água tinha pelo que não a fotografei, deixei para uma próxima passagem. Noto, e até comentei com a Menina da Ilha Rainha, que fizeram uma espécie de dique para conter a água que corre desta cascata e formar um lago, que a meu ver não faz sentido, porque forma um lago tão raso que nem sequer dá para as pessoas tomarem banho e a água que ali fica parada tem mau aspeto. Seguimos, chegando à zona de lazer onde fizemos uma paragem para retemperar as forças, após esta pequena pausa retomamos a caminhada. Saímos do parque para iniciarmos o trilho novidade, uma vez que nenhuma tinha-o feito e este revelou ser uma agradável surpresa.

Junto à placa informativa seguimos pela direita por uma via de terra batida, que passa próximo da Fonte João Pato, para um pouco mais à frente atravessarmos a Ribeira do Sabão, subindo em direção ao Cabouco da Fontinha. Nesta subida apanhamos um cabreiro que mudava os seus animais de pasto, só ultrapassamos o grupo quando pararam junto à Fonte da Fontinha, na zona do Cabouco. Ao longo desta elevação, muitas pastagens lembrando-nos a realidade rural vivida por esta freguesia de Agualva. Continuamos a subir rumo ao Caminho do Pau Grosso. Este caminho é assim chamado devido a um grande eucalipto, cujo perímetro da base tem mais de 5m de perímetro, que pode ser visto na bifurcação. Nesta zona da bifurcação seguimos pela esquerda, ao longo do Caminho Florestal do Pico Alto, que é asfaltado. Esta rua é íngreme, mas fresca, muito graças à sombra oferecida pelas muitas árvores (Faias, Eucaliptos e Criptomérias) que também embelezam a subida, pelas aberturas entre as árvores fomos apreciando as vistas sobre Agualva. A subida foi coroada com a chegada ao miradouro da Varanda da Agualva do qual se tem uma vista soberba e desobstruída para a referida freguesia. Andamos alguns metros longos pelo caminho florestal e mais à frente viramos à esquerda para o Atalho Alto, uma zona de mata fechada, onde iniciamos a descida em direção ao Parque das Frechas, percorrendo antigas vias usadas pelos madeireiros. Esta zona é muito bonita, parece que viajamos no tempo e regressamos a um passado longínquo. O encanto desta mata deve-se às árvores, que são de grande porte. Neste local podemos observar Faias, Criptomérias, Acácias e Pinheiros. Aqui e ali a floresta é salpicada por muitos e formosos fetos arbóreos, que apesar de serem mais pequenos, complementam a beleza do local, dando-lhe muito charme. A juntar a esta beldade ainda há a Fonte do Estaleiro, uma das muitas nascentes da Ribeira da Silveira, que para a ela se chegar é preciso fazer um desvio. Após este desvio, voltamos ao atalho e continuamos a nossa descida por mais algum tempo neste percurso, mais à frente fomos convidadas a virar à direita saindo do atalho para percorrermos o caminho por onde passa a tubagem que antigamente levava a água à BA4 (Base Aérea n.º 4), nas Lajes. Este caminho serpenteia numa mata e acaba na Fonte da Silveira (casa de captação de águas) que para ser vista é preciso fazer, novamente, um desvio. Daqui voltamos para trás e prosseguimos o nosso trilho pela margem da Ribeira da Silveira, a qual a certa altura tivemos de atravessar para chegarmos ao Caminho do Recantinho, que nos levou de volta ao Parque das Frechas e daqui seguimos para o carro, onde acabamos a caminhada debaixo de chuva torrencial.

Cabreiro num dia normal de trabalho

Este trilho, e como já referi não é oficial, mas tem tudo o que é preciso para que um dia mais tarde possa ser homologado como tal, achei-o muito interessante, porque não é só mais um trilho para acumular quilómetros, uma vez que a juntar aos quilómetros que temos de percorrer, que refira-se não são só os 4km indicados na placa informativa, este também acumula em si a realidade rural que se vive nesta localidade e proporciona o contato com os dois elementos que mais marcam a história de Agualva, sendo eles: a água, que atualmente abastece 6 das 11 freguesias do concelho da Praia da Vitória e que em tempos idos foi a força motriz das muitas azenhas que existiam neste local, e a madeira, que desde sempre tem sido usada como matéria-prima pelas muitas carpintarias e serrarias desta freguesia. Um bem-haja e boas caminhadas!

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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