Explorando a História da Ilha Terceira: Trilho Interpretativo das Baías de São Sebastião

Aproveitando a passagem pela ilha lilás (Terceira) e o bom tempo que se fazia sentir para irmos caminhar. A caminhada escolhida agradava-me muito, uma vez que a ela estava associada conhecer um pouco mais da história desta ilha e, consequentemente, da história de Portugal e do Mundo. A ilha Terceira talvez seja a ilha de todas as 9 ilhas dos Açores, aquela que tem um passado rico, se por um lado foi em tempos a capital do reino de Portugal, por outro lado era um ponto estratégico de paragem das naus que cruzavam os mares nas rotas comerciais das Índias e Brasil.

Casa da Salga

Saímos do centro da azáfama da cidade Património da Humanidade da UNESCO, Angra do Heroísmo, e seguimos para a freguesia de São Sebastião, onde iriamos iniciar a caminhada. Estacionamos o carro junto ao parque de campismo da Salga, o qual fica nas imediações da deslumbrante Baía da Salga, local que na atualidade é uma zona calma de banhos, mas nem sempre foi assim. Sobre esta baía falarei mais à frente, por ora o destino era ir ver a Casa da Salga. Saímos do parque de estacionamento atravessámos a estrada e entramos num caminho de terra batida que é ladeado por muitas bananeiras, e fico a pensar que talvez esta seja a zona de maior produção de bananas desta ilha. Andámos uns metros longos para chegar à casa que dizem ser a de Brianda Pereira, mas que na realidade não é. Esta casa foi mandada construir pelos Merens de Távora na segunda metade do século XVI, durante o período em que se deu início à construção de vários fortes para proteger a costa terceirense dos vários ataques de piratas e corsários, que aqui chegavam atraídos pelas naus portuguesas que aportavam nesta ilha carregadas de bens preciosos. Esta casa tem em si inerente uma parte importante da história de Portugal, foi neste espaço que, a 25 de julho de 1581, as tropas espanholas que haviam desembarcado na ilha Terceira, destruindo campos de cultivo, casas e aprisionado homens, hastearam contra a vontade dos seus proprietários a bandeira de Espanha e é nesta fase dos acontecimentos que entra em cena a ilustre personagem Brianda Pereira, a quem dizem pertencer esta casa, mas na realidade a casa é pertença dos Merens de Távora. É provável que os espanhóis tenham atacado a casa desta corajosa mulher e aprisionado o seu marido Bartolomeu Lourenço e invadida pelo sentimento de revolta e de defesa da sua ilha incitou os seus conterrâneos a lutarem, mas não se ficou pelos incentivos segundo consta ela própria foi combater. Com o avançar da luta o cenário foi ficando feio e a certa altura o Frei Pedro lembrou-se de reunir o gado bovino e dirigir o mesmo para as tropas espanholas, este estratagema levou a que os espanhóis recuassem dando tempo aos terceirenses de se reagruparem e prepararem a defesa da ilha. Estes acontecimentos ficaram reportados para a história como a Batalha da Salga. Mais tarde, no ano de 1682, esta mesma família, os Merens de Távora, mandou construir a Ermida de Bom Jesus da Salga que é contígua à casa. A escolha da invocação talvez seja uma homenagem e lembrança à bravura dos terceirenses naquele dia da Batalha da Salga.

Deixamos a casa para trás, no entanto, venho desolada por ver uma construção com tanta importância histórica ao abandono, transformando-se em ruínas. Não tarda e nada sobrará deste espaço, perdendo-se, deste modo, para sempre um pouco da história do povo da Terceira. Seguimos caminho rumo às relheiras, que segundo o que constava no placard informativo, existiam na costa litoral, na zona do parque de campismo. Confesso que vinha num misto de tristeza por ver aquela edificação em avançado estado de degradação e de entusiasmo para ver as relheiras, que me deixam sempre encantada. Estas marcas dos carros de bois gravadas na rocha fazem-me sempre viajar no tempo e ir ao encontro dos meus antepassados, que passaram por muito para sobreviver nestas ilhas, onde a vida não era nada fácil há muitos anos. Estas marcas mostram o quão resilientes e fortes eram as pessoas que aqui viviam, mas para minha tristeza não as vi e digo-vos não foi por falta de as procurar, porque andamos para a frente e para trás pelo meio do chorão-das-praias e do junco a picar-nos as pernas, a pular de pedra em pedra e apesar do nosso esforço não encontramos as relheiras. Não há nenhuma sinalização a indicar onde as mesmas possam estar, mas penso que ou estão soterradas, viu-se que fizeram obras na zona, ou, então, foram tomadas pela mãe natureza.

Zona do Parque de Campismo

Daqui seguimos para a Baia da Salga que é outro local importante para a história da Terceira, de Portugal e do Mundo. Foi aqui que, em 1581, se travou a famosa Batalha da Salga, a qual já relatei os factos de forma sucinta no corpo deste pequeno texto. Neste local, há um monumento para celebrar e homenagear este acontecimento. Nas imediações da baía visitámos um dos fortes erigidos para defender a linha de costa desta ilha, o Reduto da Salga. Este reduto foi mandado construir, no contexto da crise de sucessão de 1580 e no rescaldo da Batalha da Salga no ano de 1581, pelo corregedor Ciprião de Figueiredo e trata-se de uma estrutura abaluarta construída em cantaria de pequenas dimensões e de formato triangular, adaptando-se a uma pequena restinga do terreno. Na atualidade, quase nada resta da estrutura original. Ainda neste sítio dizem existir um poço da maré, no entanto, devo confessar que não fiz muito esforço para encontrar o referido poço. A única coisa que fiz foi descer ao que resta do reduto e daí tentar ver se encontrava a estrutura do poço e como não a vi não me dei ao trabalho de descer à costa, mas digo-vos que quando voltar à Terceira vou envidar esforços para ver o referido local, uma vez que na placa informativa diz que há vestígios do poço e eu fiquei curiosa para ver os ver.

O dia estava bem quente, mas nós continuávamos determinadas em concluir o trilho interpretativo da Batalha da Salga e, assim, foi deixamos o reduto da Salga e seguimos rumo ao Forte das Cavalas, outro que foi mandado construir no contexto da crise de sucessão de 1580 pelo corregedor Ciprião de Figueiredo. Trata-se de uma estrutura abaluarta com formato poligonal irregular e com capacidade para nove peças de artilharia.

Mais à frente e fora do contexto da Batalha da Salga, passamos junto ao Farol das Contendas que foi inaugurado em 1934 e dispõe de uma torre em formato quadrangular com 13 m de altura e 54 m de altitude em relação ao mar. Nesta construção também se pode observar um edifício em anexo. De seguida continuamos caminho e chegamos ao último ponto do trilho interpretativo, a Baia das Mós, foi neste local que os espanhóis desembarcaram e começaram a incendiar e destruir tudo o que foram encontrando pelo caminho e foi aqui que inspiradas pela história de bravura dos nossos antepassados aproveitamos e refrescamos os pés na água límpida do mar para retemperar as energias.

Baia das Mós

A vida é feita destes momentos que nos enchem a alma e nos quais sentimos que viajamos no tempo, através deles vivenciamos e aprendemos um pouco mais sobre a nossa história, sobre a bravura daqueles que mesmo vivendo em condições adversas lutaram com o que tinham pela sua independência. Este é um trilho que nos leva a voltar no tempo. É sem sombra de dúvidas um dos mais interessantes que já fiz, só é de lamentar que alguns dos pontos indicados não estejam sinalizados. Contudo é de louvar a quem idealizou o trilho, porque soube aproveitar bem o que havia no terreno e contar a história da Batalha da Salga. Um bem-haja e boas caminhadas a todos!!!

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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