Após longos meses à espera finalmente o calendário marcava o tão desejado dia 3 de agosto, nem queria acreditar! Os longos dias de espera tinham terminado! Acordo na charmosa cidade de Angra do Heroísmo, onde o sol aos poucos ia iluminando as ruas com os seus raios escaldantes, anunciando mais um lindo dia de verão, daqueles que a quem se atrevesse a sair de casa era desejar boa sorte para sobreviver ao calor. Nós, quer quiséssemos, quer não quiséssemos teríamos mesmo que sair de casa já que o plano para hoje era participar na segunda edição do Angra Trail. Assim, fizemo-nos de corajosas e lá fomos nós rumo ao ponto de partida para viver mais esta aventura que em tudo tinha para ser especial.
Chegamos à Avenida Tenente-Coronel José Agostinho um pouco antes da hora prevista para ser dado o sinal de partida e já de aquecimento feito, devido ao muito calor e à humidade que neste dia havia de estar na casa dos oitenta e muitos por cento. A prova viu o seu início um pouco atrasado, tendo arrancado junto do Memorial International. Esta escultura foi inaugurada em 2011 e assinala a 62.ª Conferência Distrital Rotary Distrito 1960. No chão de calçada portuguesa vê-se o símbolo do Clube Rotary, uma roda dentada, a qual representa o lema desta associação humanitária: “Servir para transformar vidas”. Daqui viramos à direita percorremos um pouco da Avenida Tenente-Coronel José Agostinho, para mais à frente virarmos novamente à direita e entrarmos no Passeio Panorâmico das Baías de Angra. Foi neste local onde fiz uma primeira paragem para apreciar a zona do Fanal, mais à frente passamos pelo Bosque dos Dragoeiros, um dos maiores dos Açores, conta no seu interior com cerca de 200 Dragoeiros. Subimos, ao longe começava-se a vislumbrar a silhueta da Fortaleza de São João Baptista como que a coroar a base do Monte Brasil comecei a ficar ainda mais entusiasmada com aquela visão, mas para minha tristeza ainda não era hora de lá irmos, chegamos ao fim do Passeio Panorâmico das Baías de Angra, atravessamos a rua que dá acesso ao Monte Brasil e entramos no Parque Municipal do Relvão, passamos pela estátua de Ngungunhane. Esta estátua é uma homenagem ao último imperador do Império de Gaza que atualmente é o território de Moçambique, e o último monarca da Dinastia Jamine, de origem Zulu. Este imperador foi feito prisioneiro por Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque no ano de 1895 e foi condenado ao exílio, tendo sido levado para Lisboa, a acompanhá-lo veio o príncipe herdeiro Godide e outros dignitários, passou algum tempo nesta cidade de Lisboa e depois foi desterrado para a Fortaleza do Monte Brasil que hoje vai ser o cenário da segunda edição do Angra Trail. Deixamos a estátua que é 3D para trás e contornamos o espaço do Relvão, ao longe via-se o Porto de Pipas, toda a baia que deu nome à cidade Angra e a agraciar a linha do horizonte o Ilhéu das Cabras. A luz neste dia estava fenomenal convidava a fotografar e eu claro não iria deixar passar esta oportunidade pelo que parei puxei da máquina e numa questão de segundos, a demora de tirar a máquina e ao olhar em frente novamente já o mar estava repleto de canoas coloridas que davam ainda mais alegria às fotografias.

Por esta altura da prova e com tantas paragens deixei de ver a Menina da Ilha Rainha que avançava a bom ritmo radiando alegria para todos por quem passava, eu para não ficar mal vista decidi apertar o passo para alcançar a minha companheira, só a alcancei junto à muralha onde se localiza o Baluarte do Espírito Santo, mais tarde a caminhada irá passar junto a este baluarte, mas para já a prova seguia com um desvio à esquerda que nos levou ao caminho do Monte Brasil. Estávamos cada vez mais perto da Fortaleza de São João Baptista, mas uma vez mais ainda não era desta que íamos caminhar no seu interior, entrarmos antes na zona das Bocas de Lobo, a qual contornamos, depois passamos por baixo das arcadas do Portão das Armas e seguimos contornando a fortaleza, neste último terço da muralha as Bocas de Lobo e comparando com as que vimos até esta altura estavam muito mal conservadas. Nesta zona o funcho estava mais alto que minha pessoa, mas diga-se de passagem não é difícil ser-se mais alto que eu, viramos à direita para começar a caminhar rumo a entrarmos na fortaleza, mas antes da subida e de entrar na fortaleza olho em frente e os meus olhos encantam-se com o que veem a costa desta ilha é lindíssima ao longe o Pico da Vigia destaca-se no interior da ilha com a sempre majestosa Serra de Santa Bárbara a protege-lo, tirei uma foto para mais tarde recordar e segui encantada subindo feliz e contente atrás da Menina da Ilha Rainha para finalmente passarmos a ponte, o Portão das Armas e entrar na Fortaleza de São João Baptista. Esta fortaleza construída no Monte Brasil que é um istmo da ilha Terceira, ocupa uma área de área de 3,2km e tem uma muralha com cerca de 5km que abrangem parte significativa do perímetro deste monte. Foi mandada construir em 1593, pelo Rei D. Filipe II de Espanha e I de Portugal. Impunha-se a construção desta fortaleza para proteger o importante Porto de Angra contra os ataques de corsários e piratas, uma vez que era neste porto que se reuniam as embarcações da Carreira da índia e das Américas para a torna-viagem, onde todas juntas as embarcações iriam cumprir a última etapa de navegação até à Península Ibérica, sob escolta da Armada das Ilhas. A obra ficou concluída em 1636 e recebeu o nome de Fortaleza de São Filipe, mas com a Restauração de Independência de Portugal (1640) foi redenominada com o nome atual em homenagem a D. João IV. Foi nesta altura mais precisamente em 1645 que se mandou construir a Igreja de São João Baptista de fachada maneirista, com portal de colunelos é dominada por duas pesadas torres sineiras. Esta igreja foi o primeiro monumento comemorativo da Restauração da Independência de Portugal, do poder da coroa espanhola. Na atualidade a igreja, um dos principais edifícios que se erguem no interior da fortaleza encontra-se a receber intervenção de restauro. Resta referir que esta é uma das maiores fortalezas erguidas pelos espanhóis no seu espaço de conquista dos séculos XVI e XVII, na atualidade encontra-se classificada como imóvel de Interesse Público desde 1943.
E foi precisamente a imponente igreja o primeiro edifício que vi mal entramos na Praça de Armas, claro tive que parar para tirar algumas fotos. Nesta paragem perco momentaneamente a companhia da alegre Menina da Ilha Rainha que avançou rumo ao Palácio dos Governadores onde segundos depois a alcanço para juntas passarmos por um túnel, onde a sempre atenta a minha companhia nota umas cavidades nas paredes as quais no seu cimo têm uns símbolos e pergunta-me se sei qual é o significado, eu respondo que não sei para que serviam, um outro participante da caminhada a meter-se connosco em tom de brincadeira diz que serviam para arrumar as “almas perdidas” a forma como falou arranca-nos risos (quando cheguei a casa fui pesquisar, mas até à presente data ainda não descobri para que serviam aquelas cavidades. A realidade é que se calhar não serviam para nada e são só mera decoração, mas nós seres humanos pelo menos alguns de nós gostam de dar significado a tudo).
Seguimos a caminhada, o ambiente estava bem sereno, eu aqui e acolá parava para tirar umas fotos e fazia alguns desvios para ver tudo, afinal não são todos os dias que podemos passar por alguns destes espaços, visto que a fortaleza é uma zona militar que se encontra ativa fazendo com que alguns espaços sejam restritos à população em geral. Nas minhas muitas paragens aproveitava para absorver toda aquela energia boa que se sentia no ar, todos ao se ritmo iam fazendo as suas provas e eu tinha o bónus extra da energia positiva que a minha companheira de caminhada emanava. A passagem pelo túnel levou-nos a uma pequena subida que nos levou a passar pelo Baluarte de São Pedro que data de 1828, mais à frente transpusemos o Portão das Armas desta feita por cima e atravessamos a Bateria de Dona Maria I que data de 1829. A sinalização indicava caminho para zona do Regimento de Guarnição 1, onde entramos num caminho de tufo vulcânico que tinha sido limpo há bem pouco tempo, até parecia só havia sido limpo para a prova passar. Neste caminho e sabendo eu que os tão falados hipogeus (o hipogeu é uma construção subterrânea ou gruta artificial escavada na rocha para servir como sepultura ou templo funerário.) se situam neste lado do Monte Brasil comecei a ficar ainda mais entusiasmada, pois sabia que estava a metros de tornar a minha perseguição de longa data em realidade, mas antes de lá chegarmos ainda tive tempo para uma peripécia que já vos conto.

O caminho prosseguia calmo e sereno, só o sol não dava tréguas, eu já me sentia a desidratar e pensava para mim “ainda bem que a organização deu aquela garrafa de água a meio caminho”, pois estava malandra para abrir a mala e tirar a minha própria água que havia levado. Passamos pelo Reduto de São Gonçalo, mais à frente vimos uma pequena cisterna e algumas estruturas em ruínas. Após passar as ruínas deu-se a minha peripécia, e digo-vos só mesmo eu para me perder no caminho que estava muito bem sinalizado, seguia inebriada pela paisagem envolvente e distraída em vez de seguir pela esquerda o caminho certo não sigo para a direita passo um pequeno túnel que me levou à costa onde caminhei até encontrar uma fenda alta, nisto o meu telemóvel começa a tocar era a Menina da Ilha Rainha a saber por onde andava eu, pois tinha-me deixado de ver e dizer-me que os tão procurados Hipogeus estavam no enfiamento do caminho certo. Nem sei o que vos diga sobre o que senti nesta altura, porque não há palavras que descrevam o sentimento, só vos posso dizer que o meu coração começou a bater mais rápido ansioso. Desligo o telemóvel e meto-me a fazer o mesmo caminho, mas em sentido inverso e concentro-me no que estou a fazer para não voltar a sair do caminho certo e assim chegar rapidamente aos hipogeus. Chego ao Forte de São Diogo do Zimbreiro onde se localizam as cavidades num ápice, quando olho em frente vejo a radiante Menina da Ilha Rainha de sorriso rasgado nos lábios indicando-me a posição dos tão procurados e sonhados Hipogeus, mas espera lá começo a olhar em redor e noto que não sou a única pessoa que andava à procura destas cavidades, os outros participantes também ao que parece estavam expectantes por os verem e fazerem o registo e caio em mim a minha missão de observar e fazer o registo das cavidades não ia ser pera doce. Os outros participantes tinham-se apoderado do espaço, tiravam as fotos e ficavam colados à entrada das cavidades, por momentos juro que pensei que alguns dos participantes só se tinham inscrito para irem ver aquele local. Com toda esta situação acabei por ficar impaciente, mas a Menina da Ilha Rainha acabou por me serenar e mesmo sabendo ia perder muito tempo acabei por ser paciente e esperar todos fizessem o seu registo para no fim fazer as minhas observações e registos em paz e tranquila para seguirmos com a prova. Do que pude observar e na minha humilde opinião não creio que estas cavidades tivessem a função de servir como local de enterro. No entanto são muito enigmáticas e deixam quem por lá passa plantada a semente da curiosidade, são quatro no total, isto se contarmos com a primeira que fica desterrada das outras três. Esta cavidade mais isolada é muito singela, na realidade não tem nada no seu interior e tem a forma dum cubo. As outras três estão escavadas perto umas das outras. A que fica mais à direita quando estamos de frente para a encosta é a mais pequena, a sua entrada tem o formato de um círculo e está escavada a uma altura considerável do solo pelo que não consegui ver a sua configuração no interior. Já as outras duas estão escavadas ao nível do solo, a cavidade do meio a sua entrada tem o formato de um círculo, o seu interior tem o formato duma concha bivalve, é escavada em altura e em profundidade, no seu interior há um tanque que neste dia tinha água pelo que não consegui ter noção da altura desta cavidade, no teto veem-se estalactites, ao primeiro olhar fico com a sensação que estou perante uma cisterna. Este tanque que é acessível por uns degraus tem em seu redor um tipo passeio. A parede do fundo desta cavidade e na linha da altura do passeio há um nicho que me deixou intrigada com a possibilidade de poder ter sido um local onde em tempos existisse algum objeto. A gruta mais à esquerda é escavada ao nível do solo, a sua entrada tem o formato de um arco abatido, tem também a forma duma concha bivalve e um a profundidade de 5 a 6 metros e altura de mais ou menos 2 metros. Na parede do fundo tem escavadas no chão quatro pequenas cavidades de forma circulares as quais estão ligadas entre sim por um canal. Olho para as cavidades uma última vez para mentalmente tentar gravar o máximo de pormenores da sua existência e sigo para continuar a prova não podia ficar ali mais tempo para não correr o risco de ser desclassificada e consequentemente também a Menina da Ilha Rainha ter a sua prova anulada por minha culpa, mas digo-vos saio deste local com mais dúvidas que certezas. Sigo falando mentalmente comigo mesma sobre o que tinha acabado de ver, perguntando-me o que seriam aquelas cavidades, para que serviam, qual a sua utilidade e torno a afirmar para mim mesma “não acho sejam sepulcros”. A realidade é que quem as escavou sabia o que queria fazer e deu-se ao trabalho de escavar o que tinha idealizado com rigor e delicadeza, mas quis o destino que quem quer que seja que as tenha escavados não tivesse deixado nada por escrito sobre qual era a sua finalidade e como tal talvez nunca se venha a ter a certeza sobre qual era a finalidade daquelas cavidades, o que para mim está tudo muito bem, porque assim posso sempre ficar a imaginar mil e uma coisas que poderia ser feitas nestes espaços, como por exemplo podiam ser uma piscina particular dos prisioneiros que habitaram o Monte Brasil que ao final do dia vinham refrescar-se e aproveitar o pôr-de-sol já que a vista deste local é de cortar a respiração.
A muito custo deixei as cavidades para trás e juntamente com a alegre Menina da Ilha Rainha voltamos pelo mesmo caminho até chegarmos ao Regimento de Guarnição 1 aqui seguindo as indicações viramos à direita para subir por um caminho que havia sido limpo recentemente que nos levou à estrada de asfalto onde viramos à esquerda e começamos a descer rumo à entrada da fortaleza, mas esperem não pensem a prova acabou aqui por que faltavam ainda uns quilómetros para acabar. Assim, na zona onde se vê o Paiol Espírito Santo viramos para este caminho e percorremos parte do caminho de cimento, mais à frente tornamos a virar, mas desta feita para a esquerda passamos junto ao Baluarte de Santa Luzia e junto aos redutos dos Dois Paus e o de São Francisco, neste fiz um desvio para fotografar e também apanhar um susto, no chão havia um buraco o qual contornei, mas longe de mim imaginar que quando o mar batia na encosta o som da onda ecoava por aquele buraco, estava eu descansada e entretida com as fotografias vem uma onda bate na encosta, eu sem contar só ouvi o estrondo do som da onda do mar que ecoou pelo buraco, acho que dei um pulo que me devem ter saído os pés do chão. A partir daqui não foi espreitar mais nenhum reduto e ainda passamos por mais dois o de São Benedito e o de Santo Inácio. Mais à frente passamos pela antiga casa do faroleiro que está ao abandono e consequentemente apresente sinais da sua má conservação, se não se fizer nada a casa vai acabar em ruína, depois passamos pelo Forte de Santo António dos Artilheiros aqui começamos a derradeira subida passamos pelo Farolim do Monte Brasil e a subida piorou com o acrescentar das escadas. O último quilómetro e meio até à Casa do Regalo, local da meta foi super tranquilo amenizado pela sombra que aqui e acolá dava um ar da sua graça.

Chegadas à meta recebemos a nossa merecida medalha de finisher, merecida sim! Ou pensam foi fácil cumprir o trajeto da prova sob um sol tórrido. À nossa espera um rico lanche de convívio para todos os participantes. Eu pessoalmente adorei a prova, mas sou suspeita para falar porque gosto sempre de todas as provas. No entanto esta prova em concreto foi muito especial para mim por tudo que vi e experienciei. No que toca ao trajeto, o que dizer, não há palavras para o descrever, estava muito bem conseguido e muito interessante. Tivemos oportunidade de passar e conhecer sítios que estão interditos ao público em geral o ano inteiro. Sobre a caminhada posso dizer que estava acessível a todos os participantes vi ao longo de todo o trajeto pessoas de todas as idades. O convívio no final foi muito bonito vimos os participantes de todas as vertentes a conviver entre si.
Quero deixar uma palavra de estima e respeito à minha companheira de caminhada a Menina da Ilha Rainha que tem o dom de me surpreender sempre pela positiva, a sua força de vontade e resiliência deixam-me muito orgulhosa dela.
Para finalizar quero deixar uma palavra de apreço e agradecimento à organização e a todos os que de alguma forma contribuíram para o sucesso desta edição do Angra Trail e felicitar todos os que participaram. Um bem-haja e boas caminhadas!
Galeria das fotografias legendadas: Aqui