Egito, a Terra dos Faraós – Luxor parte 1

Templo de Karnak

O ano de 2023 foi muito especial para mim, foi um ano de muitas concretizações e de muita felicidade. Um dos momentos que me trouxe muita alegria foi ter ido ao Egito, mesmo que a viagem tenha começado digamos atrasada, tudo acabou por se regularizar tornando-a para sempre inesquecível.

Princípio de setembro, na ilha chovia e eu já de malas feitas para ir para o outro lado do globo, para ir visitar a terra dos faraós. Iniciei a minha estadia neste país acolhedor na cidade de Luxor, nome com o qual os árabes a batizaram e que significa “palácios com mil portas”, mas antes de receber esta designação e sob o domínio dos gregos esta cidade chamava-se Tebas, por se assemelhar a uma antiga cidade grega com o mesmo nome. De referir que no antigo Egito esta cidade foi capital por mais de 1500 anos e que a mesma está inscrita na Lista do Património Mundial da UNESCO desde 1979. Para aqui chegar e por viver numa ilha levou-me a que tivesse de correr, digamos, meio mundo, parti das Lajes na ilha Terceira, Açores rumo a Lisboa, daqui segui para Londres, onde o voo atrasou fazendo com que só chegasse a Luxor às 2 horas da madrugada e para quem tinha a primeira visita marcada para as 6 horas da manhã não ia dormir muito, não ia ser nada. Valeu o sacrifício de ter dormido pouco, a visita à “aldeia fortificada”, ou como é comummente conhecida Karnak, foi avassaladora. Este é o maior templo religioso da civilização antiga que vai resistindo ao passar dos séculos, é dedicado à Tríade de Tebas (Ámon, Mut e seu filho Khonsu) e ocupa uma área de 100 hectares. Este complexo é constituído por quatro áreas: o recinto de Ámon, o principal deus de Tebas; o recinto de Montu, deus da guerra; o recinto de Mut, deusa do céu, protetora da cidade de Tebas e esposa de Ámon e o templo desmontado de Amenhotep IV. Na atualidade, só o recinto dedicado a Ámon-Rá está aberto ao público e por esta razão, muitas vezes, Karnak é visto como sendo só o recinto de Ámon-Rá, mas a realidade é que Karnak vai muito mais além do que este recinto. O primeiro faraó a construir neste espaço foi Sesóstris I (1971–1926 a.C.) do império médio, mas as construções continuaram até ao império novo ou o período Ptolemaico (305–30 a.C.). Neste espaço faraós como: Seti I, Ramsés II, Ramsés III e Hatshepsut deixaram a sua marca. Aliás, vale a pena mencionar que foi durante o reinado de Hatshepsut que se iniciou um ambicioso programa de construção, o qual incluiu a reconstrução de Karnak em arenito, tornando-o mais permanente, muitas das construções antes eram à base de tijolos de barro. De referir que foi neste espaço que Hatshepsut se fez representar pela primeira vez vestida como faraó, antes mesmo de se declarar faraó do Egito.

Antiga Avenida das Esfinges

Cheguei bem cedo ao local pensando que iria evitar a multidão, mas para meu grande espanto o recinto já parecia um formigueiro quando lá cheguei e fico a pensar que afinal há mais almas neste mundo que dormem pouco, como nada podia fazer para mudar a situação decidi juntar-me à multidão e perder-me neste imenso templo, mais tarde durante este dia viria a perceber o porquê de as pessoas dormirem pouco. Entro no complexo passando por um corredor ladeado por 40 esfinges com cabeça de carneiros, parte da antiga avenida de 3 km que ligava este templo ao rio Nilo e que passava pelo templo de Luxor. As esfinges representam uma forma de Amón-Rá (deus sol). Entre as suas patas vemos uma pequena figura de Ramsés II. Passo pelo primeiro pilone (grande pórtico dos templos em forma de pirâmide truncada) e fico com a sensação ou que estava inacabado ou, então, que alguns dos seus tijolos tivessem sido pilhados ou até mesmo reutilizados. Este pórtico foi mandado construir durante o reinado de Nectanebo (reinou de 379 a 361 a.C.). Entro no pátio noto umas rampas de tijolo de barro coladas ao pórtico, ao ler a placa informativa confirmo que a construção nunca tinha sido concluída, mas mesmo inacabado não deixa de ser o maior pórtico do templo. Já no interior deste imenso pátio e olhando em redor penso que estes faraós não sabiam construir em pequeno. Este pátio foi erigido no reinado de Taharqa (690-664 a.C.), que para embelezar o local mandou edificar 10 colunas de 21 metros de altura, na atualidade apenas uma sobrevive à passagem dos anos. Neste espaço ainda podemos ver esfinges e como não há placa informativa penso que também tenham feito parte da antiga avenida que ligava este templo ao Nilo. E nas imediações destas esfinges, o templo que Ramsés III (1217 a.C. a 1155 a.C.), que era usado para armazenar as barcas sagradas da tríade de Tebas: Amon; sua esposa, Mut; e seu filho, Khonsu que saiam em procissão no festival de Opet (neste evento, cujo tema era o renascimento, realizavam uma cerimónia de re-coroação do faraó e as estátuas da Tríade de Tebas, Amón, Mut e o seu filho Khonsu, saiam em procissão, sendo transportadas em barcas pela Avenida de Esfinges, que ligava Karnak a Luxor. O grande destaque desta procissão era o encontro das duas estátuas de Amón, a de Karnak e a de Luxor. Este templo tem uma particularidade, é rodeado por colunas da figura do faraó que se encontra em posição osírica, ou seja, os braços cruzados sobre o peito, esta configuração indica que o faraó está morto. Ao sair deste templo vejo que no lado oposto há mais um templo com três portas, pelo que curiosa vou espreitar. É capela tripla construída por Seti II (reinou de 1200 a 1194 a.C.). Esta capela tinha exatamente a mesma função da de Ramsés III, mas tenho que mencionar que Seti II construiu primeiro a sua. Dou continuidade à exploração deste espaço e sigo para o segundo pilone, construído com blocos de pedra de monumentos demolidos do faraó herege Akhenaton a mando de Horemebe (1333-1306 a.C.). Antes de passar pelo segundo pilone passo por uma estátua gigantesca de Ramsés II e de sua filha. De mencionar que este pilone e devido à morte de Horemebe teve a sua construção finalizada por Ramsés II que aproveitou para refazer a decoração e meter o seu nome.

Salão Hipostilo

Passando o segundo pilone, chego à sala mais famosa do recinto e já devem ter adivinhado qual é? Não, para quem não chegou lá, é o Grande Salão Hipostilo, a palavra hipostilo vem do grego e significa qualquer como teto suportado por colunas. Na atualidade, o teto já não existe, restam as 134 enormes colunas com capitéis em forma de papiros abertos nos das colunas centrais e papiros fechados nos das colunas laterais esculpidas em arenito. Estas colunas estão dispostas em 16 filas, sendo que as das duas filas centrais são mais saltas que as restantes (24 m de altura e de diâmetro 10 m). O salão ocupa uma área de 5.000 m2. A ala norte foi construída no reinado de Seti I e a ala sul no reinado de Ramsés II, mas faraós ulteriores acrescentaram inscrições às colunas e paredes. Dou por mim “perdida” nesta imensa floresta de papiros gigantesca, não há como não nos sentirmos pequenos perante tal cenário! Deixo a floresta de papiros e passo pelo terceiro, quarto e quinto pilones, mas por estarem tão pertinho uns dos outros e em ruínas quase não se consegue perceber que são três, vejo que o edifício continua em frente, mas movida pela curiosidade do incerto viro à direita, passo mais um pórtico e entro num vastíssimo pátio onde encontro o lago sagrado enorme (120mX77m), é o maior lago sagrado de todos os que existem nos diferentes templos, sendo revestido por uma parede de pedra e tem escadas nos quatro lados, foi mando construir pelo faraó Tutmés III (1473-1458 aC), que o mandou encher com água do rio Nilo. Este lago era o símbolo das águas primitivas das quais a vida surgia no mito da criação do mundo para os antigos Egípcios, era usado pelos sacerdotes para se purificarem antes dos rituais e também era o lar dos gansos sagrados. É aqui junto ao lago sagrado que me deixo ficar a absorver a energia do local na companhia do deus Rá, que alegremente saía de sua casa para vir abençoar o meu dia. Após este momento de contemplação decido que iria ser “Maria vai com as outras” e cumprir o ritual de dar as voltas à estátua do escaravelho, que representa Khepri, era responsável pelo movimento do sol para fora do Duat no final da sua jornada e também representava o renascimento diário de Rá, o deus do Sol. Como sou exagerada dei mais voltas do que era preciso na esperança que Khepri fique impressionado e me faça aqui voltar. Junto ao lago reparo que há muitos obeliscos a salpicar a linha do horizonte instigando a minha vontade de ir explorar e vê-los de perto, já que ao longe parecem ser enormes. O calor fazia com que a vontade de andar fosse pouca, mas a vontade de ver os obeliscos falava mais alto, pelo que decido meter-me por caminhos avessos para poupar nos passos e num ápice dou por mim a chegar ao coração do templo onde encontro um enorme obelisco de granito vermelho, segundo consta é o maior obelisco do Egito, foi mandado construir por Hatshepsut, a única mulher faraó que governou os egípcios que inscreveu nele a seguinte frase: “Vós que vires este monumento nos anos vindouros e falarem disto que fiz…”, como não falar nele? Não passa despercebido, afinal mede 27 metros de altura e pesa 340 toneladas. Parada absorta em frente a este fico a pensar em como a força da gravidade é poderosa mantem este e os outros obeliscos nesta posição há milhares de anos fico fascinada e deixo-me ali ficar por uns breves momentos até o sol começar a incomodar fazendo com que a vontade de encontrar uma sombra fosse maior. O caminho seguia em frente, mas o outro caminho que não tinha explorado não me saía da cabeça e decido voltar atrás, também me lembrei que este tinha alguma sombra pelo que ia ser dois em um, matar a curiosidade e estar à sombra. No final deste percurso encontro o templo dedicado ao deus Ptah (senhor da magia), era um deus criador na mitologia egípcia. “Mestre construtor”, inventor da alvenaria, patrono dos arquitetos e artesãos. O poder de cura e destrutivo também foi atribuído a ele. Este templo foi construído por Tutmés III e, mais tarde, ampliado durante o período Ptolemaico. Neste reina um silêncio estranho, por um lado, transmite uma paz tranquilizadora, mas por outro, também nos transmite inquietude, é que nem os pássaros que se ouviam antes a piar aqui se ouve.  E daqui saio ao bom estilo faraó imaginando estar no cortejo do festival de Opet e sigo para visitar o Templo de Luxor. No cortejo só faltavam mesmo as barcas de transporte da tríade de Tebas, Amon, Mut e Khonsu.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


Deixe um comentário