Templo de Luxor, Vale dos Reis, templo funerário de Hatshepsut e Colossos de Memnon
Chego ao templo de Luxor (Património Mundial da UNESCO desde 1979), inebriada pela alegria do meu cortejo festivo imaginário e quase via a minha alegria virar tristeza, uma vez que aqui chegada deparo-me com uma equipa de filmagens que iriam recolher imagens para um documentário sobre este monumento. Apesar do aparato das filmagens sinto que acabei por ser bafejada pela sorte e lá consegui visitar o espaço. Foi neste espaço que percebi o porquê de muitas pessoas acordarem cedo para irem visitar os templos, por esta hora já tinha a ponta das minhas orelhas escaldadas, para não dizer mesmo queimadas e não fosse o boné que trazia na cabeça e esta também teria ficado cozida. O sol era tão quente que mesmo estando parada à sombra sentia a minha pele a ressequir.
O nome antigo do Templo de Luxor era Ipep-resit, que quando traduzido é algo como o “Harém do Sul”, esta designação está relacionada com a festa que aqui se realizava uma vez por ano. Apesar deste monumento ter uma grande importância para o Festival de Opet, existindo mesmo um local consagrado à tríade de Tebas (Amon, Mut e Khonsu), a realidade é que a verdadeira razão para a sua construção era a de adorar a parte divina e imortal do faraó, o ‘ka’ o símbolo representativo da legitimidade do poder do faraó. Esta edificação tinha a função de rejuvenescimento dos faraós e acredita-se que muitos deles tenham sido coroados neste espaço. O edifício é construído com o chamado arenito Núbio, proveniente da região de Gebel el-Silsila, sudoeste do Egito, não é tão grande como o vizinho, mede 260 metros de largura, mas mesmo assim não deixa de impressionar e se apesar de num primeiro olhar parecer ter sido obra de Ramsés II, já que mal se entra no recinto, vemos um impressionante pilone, que impõe respeito, com cenas da vitória de Ramsés II sobre os hititas, na batalha de Qadesh, em frente a este pilone duas estátuas colossais de Ramsés II e um obelisco de granito rosa do Assuão, com quase 24 metros de altura e 230 toneladas de peso (em tempos idos existiam dois obeliscos, mas em 1829 o Vice-Rei do Egito Mohammed Ali ofereceu um destes obeliscos à França em jeito de agradecimento pelo feito do francês Jean-François Champollion, que decifrara os hieróglifos da pedra de Roseta sete anos antes). A verdade é que as aparências enganam, já que o verdadeiro responsável pela sua construção foi Amenhotep III. No entanto, a obra só ficou concluída no período da ocupação muçulmana. No entanto, outros governantes também deixaram aqui a sua marca, como foi o caso de Hatshepsut, Tutemósis III, Tutankhamon, Horemheb e até mesmo Alexandre, o Grande. Este último até alegou ter sido coroado neste templo, mas as evidências sugerem que este nunca se aventurou até ao sul de Memphis, que agora é considerada a moderna cidade do Cairo.
Saio deste templo, que é um dos monumentos antigos mais bem preservado da história e que por ser um templo egípcio e ter no seu interior uma mesquita e uma igreja católica ganhou o apelido de “Templo da Humanidade”, e deparo-me com mais uma parte da antiga avenida das esfinges com cabeça de carneiros, decido caminhar nela, conforme vou avançando avenida adentro noto que este lado já está completamente restaurado e até já há habitantes que a usam na sua vida quotidiana. Após esta caminhada rejuvenescedora decido continuar a minha demanda e sigo para o Vale dos Reis (em árabe Biban el-Muluk), que é Património Mundial da UNESCO desde 1979. Este vale é um cemitério real que se localiza em Luxor num desfiladeiro na margem oeste do Nilo. O primeiro faraó a construir o seu túmulo neste lugar foi Tutmósis I e suspeita-se que a escolha do sítio deva a existir um pico que se aparenta com uma pirâmide, o Pico al-Qurn (a forma piramidal representava a crença no renascimento e a vida eterna), também a sua localização isolada pode ter contribuído para a escolha deste local, uma vez que reduzia o acesso dos ladrões de túmulos, uma vez que os Medjai (uma espécie de polícia especial) tinham um maior controlo sobre quem entrava no desfiladeiro. A partir de Tutmósis I, todos os faraós do Império Novo (1570-1070 a. C.) escavaram aqui os seus túmulos, tendo sido encontrados mais de 60 túmulos de faraós e nobres.

Chego a este sítio por volta do meio-dia e o sol imponente lá no alto mostrava-me que o sensato seria uma visita rápida, mas decido que vou contrariar o astro rei e prolongar-me na estadia porque há muito para ver, pelo que sigo de forma tranquila visitando os túmulos de Meremptah, um filho de Ramsés II, Ramsés III, Ramsés IV e o de Tutankhamon. Dentro dos túmulos um calor abrasador criando um ambiente de sauna que deixa a roupa suada a modos de torcer. Muitas pessoas entrando e saindo, chego ao ponto de pensar se estou num túmulo ou se num formigueiro, mas mesmo assim não me demovo e vou apreciando todos os pormenores dos túmulos. Dos quatro que vi, o que mais me impressionou foi o túmulo de Tutankhamon não pelo seu tamanho, pois como é conhecimento de todos é muito pequeno, mas por nele ainda residir o jovem faraó que agora se encontra desprovido dos seus preciosos sarcófagos e encontra-se fechado numa caixa de vidro climatizada.
Não satisfeita de repor a vitamina D decido fazer mais um desvio até a um dos templos mais belo do Egito, que fica bem pertinho do Vale dos Reis e falo claro está de Djeser-Djeseru (“A maravilha das maravilhas”) ou como é comummente conhecido o templo mortuário de Hatshepsut, a única mulher que governou o Egito durante um longo período. Este monumento está localizado no Vale de Deir el-Bahari e é obra do arquiteto real Senenmut, que muitos historiadores consideram ser o amante secreto de Hatshepsut. Este edifício distingue-se dos demais templos funerários do seu tempo por ser composto por três pátios de grandes dimensões, que são ligados entre si por rampas. No último pátio atinge-se o santuário um espaço escavado na rocha que é dedicado a Amon. Chego ao complexo e sinto que é desta que o sol irá ganhar-me, mas não desisto de ver tudo de perto, já que ao longe é uma imagem única e marcante que nunca mais esquecerei. Encaminho-me para o primeiro pátio e começo a imaginar o jardim que aqui existia as árvores de mirra (que, na atualidade podemos ver o que resta de uma protegida por uma cerca metálica) e arbustos exóticos trazidos de Punt, os lagos e as esfinges (atualmente apenas existe uma) que me guiam até à primeira rampa, em pensamentos deixo-me invadir pelo fresco deste local em outros tempos e avanço subindo pelos degraus que existem a meio desta rampa, para chegar ao segundo pátio, que deve ser do tamanho dum campo de futebol ao fundo mais uma rampa que leva ao terceiro pátio, subo novamente pelas escadas, a receber-me estão duas estátuas de falcões (Horus) ou o que restam delas e a acompanhar-me na subida, esculpidas na pedra do muro da rampa, serpentes. Chego ao terceiro pátio e sou recebida por estátuas da rainha osírica (sabemos que está morta porque a barba de faraó está encaracolada). A chegada a este patamar teve um grande impacto em mim, já vinha a marcar as grandes estátuas ao longe, pois pareciam estarem sempre a olhar para mim e realmente devido à forma como estão esculpidas ficamos com a sensação que para todos os lados que vamos estamos a ser vigiados, só deixei de me sentir vigiada quando passei pelo portal de arenito rosa e entrei pátio do santuário. Aqui dei a volta ao pátio e aproveitei para me, digamos, refrescar entrando no Santuário de Amon. Após este enganar do corpo e da mente com o fresco relativo que se sentia dentro do santuário decido enfrentar o meu arqui-inimigo Sol e saio do templo em passo apertado para a última visita do dia antes de ir para o fresco do quarto do barco que me levará a descer o Rio Nilo rumo ao Assuão.

Uma curiosidade sobre o templo funerário de Hatshepsut para quem não sabe este monumento não foi construído para guardar o corpo da Faraó e nem muito menos os tesouros que acompanhavam os faraós na sua morte, este era um espaço destinado a que as pessoas fossem levar oferendas à faraó após sua morte. A poderosa faraó, à semelhança de outras mulheres importantes, foi sepultada no Vale das Rainhas que fica do outro lado da montanha em que se encosta o templo, mas, ao contrário das outras mulheres importantes da sua época, ela é a única que tem o seu templo funerário construído no Vale dos Reis.
Quase vencida pelo calor abrasador sigo para os Colossos de Memnon, são assim chamados porque na era cristã os gregos visitaram o templo e ao ver as estátuas estas pareceram ser Memnon filho de Eos – deusa do amanhecer, um grande herói grego morto por Aquiles. Estes colossos são duas estátuas gigantes de quartzito, medem 18 metros de altura, cada uma pesa 1.300 toneladas e foram mandadas construir pelo Faraó Amenófis III, há 3400 anos. Estas representam o próprio faraó sentado no seu trono, ao lado das suas pernas está a sua mãe, Mutemuia e também a sua esposa, a rainha Tié. Nos dois lados do trono há um símbolo que representa a união entre o Alto Egito e o Baixo Egito. A função destas estátuas era serem as guardiãs do antigo templo funerário de Amenófis III que ali existia e que e ocupava uma área de 385.000 metros. Deste antigo templo só sobram mesmo estas duas estátuas, o resto desapareceu devido ao fruto de pilhagens repetidas e, como estava localizado dentro da área de inundação do Rio Nilo, o calcário usado na sua construção foi-se desgastando por séculos de exposição às cheias anuais deste rio.
Chego ao templo, que bafo, mas tudo passa quando olho em frente e vejo o que resta das estátuas que são enormes. Abismada com o tamanho destas estátuas, desço uns degraus que me levam a estar mais perto destes colossos e fico a pensar no trabalho que deve ter sido levá-los até ali, eu sem estar a fazer nada já estava a morrer, agora imagine-se trabalhar debaixo do imenso calor que se faz sentir neste país, gente rija. Após esta visita, era, então, tempo de me fazer deslocar para o barco que me levaria a descer o Nilo até ao Assuão e refrescar-me um pouco.

A aventura pela terra dos faraós ainda agora começou, muitas aventuras esperavam-me! Em breve voltarei para continuar a partilhar esta viagem inesquecível com vocês. Até lá sejam felizes e façam alguém feliz!!!
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