Para acabar o ano em grande e assim atrair boas energias para o ano bissexto que se aproxima, nada como uma caminhada longa. Aproveitando que o tempo pela ilha lilás (Terceira, Açores) neste dia previa e concretizou-se estar aprazível para caminhar, fomos meter os pés no trilho oficial da Malha Grande, esta seria estreia para ambas, nem eu, nem a Menina da Ilha Rainha havíamos feito este percurso por completo. Para mim, a parte que passa na Rocha de Chambre já não ia ser surpresa. Este trilho desenrola-se dentro da Área Protegida para a Gestão de Habitats ou Espécies do Planalto Central e Costa Noroeste, faz uma pequena incursão na Reserva Natural do Biscoito da Ferraria e Pico Alto e acaba na área de paisagem protegida das vinhas dos Biscoitos.
Saímos cedo e seguimos rumo aos Biscoitos, onde havíamos combinado encontrar com o Vasco, o nosso taxista de eleição para quando queremos fazer trilhos lineares longos, que nos foi deixar no início do percurso, ou seja, na Rocha do Chambre, nós escolhemos fazer o caminho nesta direção, mas também podem fazer na direção contrária, visto que este é linear. De referir que parte deste trajeto é coincidente com o trilho circular da Rocha do Chambre.
Chegadas ao ponto de partida e após verificar que nada faltava, seguimos caminho, na primeira bifurcação, depois pela direita caminhando acompanhadas à direita pela urze e à esquerda por um muro de pedra. No final deste caminho, que era rochoso e irregular, começamos a andar por um de terra batida, no horizonte viam-se muitos cones vulcânicos e ao longe, a coroar a vista a majestosa, Serra de Santa Bárbara, nas pastagens algumas vacas e no ar o som da central geotérmica do Pico alto que conforme fomos avançando o som foi ficando cada vez mais intenso. Mais à frente entramos num pasto e daqui e até chegarmos à Rocha de Chambre foi sempre a subir. Aqui e ali íamos parando para apreciar a paisagem, descansar e transpor algumas cancelas.

Conforme a altitude aumentava o tempo foi mudando, o sol foi dando lugar a algum nevoeiro, mais tarde e alguma leitura depois sobre este local chego à conclusão que esta zona da ilha e na maioria dos dias é mesmo assim, segundo consta aquela imensa floresta intocável, alojada no fundo desta imensa caldeira do vulcão do Pico Alto, é mais alimentada pela força desta humidade do que pela chuva. Chegadas ao bordo do cone vulcânico, ou como é normalmente chamado a Rocha do Chambre (a parede visível do cone vulcânico), a vista é de cortar a respiração, o nevoeiro adensava o misticismo daquela floresta fazendo parecer que tínhamos viajado no tempo para o jurássico, no entanto, os únicos dinossauros que vimos foi a ave mais pequena da Europa, a Estrelinha. Daqui viramos à esquerda e continuamos a subir junto à falésia em direção ao geodésico do Juncal que marca o ponto mais alto deste trilho, 704 metros de altitude, e a paisagem nem mesmo com o nevoeiro deixava de encantar.
Deste ponto iniciamos a descida rumo a uma clareira onde fomos acompanhadas pela muita vegetação endémica, musgo, cedro-do-mato, entre outras e digo-vos que descida esta, começamos por passar por umas escadas de madeira que nos levou a um o terreno bem lamacento e escorregadio. Nesta zona não sabia o que fazer, se apreciava as plantas, se apreciava as paisagens, que eram deslumbrantes, lá longe via-se a sempre majestosa Serra de Santa Bárbara ou se me concentrava onde metia os pés para não cair, esta última acabou por ser o meu maior foco para ver se não me lesionava. Aqui bem tentamos não ficar muito sujas, mas com tanta lama tornou-se missão impossível, nem mesmo havendo alguns sítios onde haviam madeiras para transpormos o lamaçal íamos conseguir sair ilesas à sujidade, porque para compensar as madeiras, aqui e acolá eram muitos mais os sítios que não havia nada e cada passo dado era sinónimo de enfiar o pé na lama até à canela, apesar das peripécias todas lá saímos da clareira enlameadas sujas, mas sem mazelas. Começamos a subir uns degraus desiguais que nos levaram a uma mata de criptomérias e, eventualmente, acabamos por chegar aos inevitáveis degraus de grade de ferro, digo-vos não sei se esta zona é melhor a subir ou a descer, já fiz nos dois sentidos e nenhum é fácil para quem como eu é de baixa estatura. Para cima são degraus para gigantes e para baixo são degraus bons para as articulações dos joelho, tal como costumo dizer em tom de brincadeira: “Quem constrói os degraus dos trilhos só deve fazer o percurso a vez em que os constrói, porque é com cada degrau que é de bradar aos deuses”.
Após a descida destes degraus “maravilhosos”, pois acredito que quem faça o trilho uma vez, se lembre deles numa segunda vez de incursão no percurso. Continuamos a caminhar por entre uma mata de criptomérias e os nossos passos aqui foram marcados pelo ritmo do som da água que saía duma linha de água que nos acompanhou até chegarmos a um caminho florestal, onde encontramos o cruzamento com o trilho da Rocha de Chambre, foi neste local num entroncamento mais a baixo que fizemos uma paragem para almoçar.

Após esta paragem seguimos pela esquerda no entroncamento e o caminho mudou de “feição”, o céu azul deu lugar a um céu fechado por criptomérias e o chão de terra batida deu lugar a um chão coberto pela ramagem das árvores. Mais à frente, este caminho estreitou e entramos numa canada esburacada com pedras que tornavam o piso irregular, que acabou num chão de rocha, no qual tive medo andar de tão escorregadio que era. Este trajeto levou-nos a um caminho florestal de bagacina vermelha, ladeado por árvores de incenso, mais à frente passamos a ser acompanhadas por pastagens e numa das quais vimos uma manada de lindos cavalos, que me fez pensar talvez pertencessem a algum cavaleiro, já que na Terceira se mantém a tradição das touradas. Andamos mais uns metros e seguindo a indicação do trilho viramos à direita e continuamos a descer por entre um caminho de bagacina ladeado por pastagens. A Menina da Ilha Rainha, que tem um amor incondicional às grutas e um olho treinado para as encontrar, num olhar rápido pelo horizonte logo encontrou aquilo que parecia ser a entrada duma gruta e eu como não tinha lido o texto informativo sobre este trilho, porque decidimos fazê-lo de um dia para o outro, ou seja, fomos à aventura e descoberta, não sabia que existia mesmo uma gruta naquela zona. Mais tarde e algumas leituras depois, vim a confirmar a suspeita da alegre Menina da Ilha Rainha pelo que já ficou a promessa feita que lá voltarmos munidas de lanternas para irmos ver a gruta que é chamada dos Balcões, um tubo lávico resultante da última erupção terrestre da ilha, datada de 1761, com origem no Pico Vermelho, Pico do Fogo e Pico das Caldeirinhas. Continuamos a serpentear por entre as pastagens e conforme as íamos descendo as paisagens pareciam saídas de outro planeta, da terra saiam afloramentos rochosos. Estes afloramentos são o resultado de escorrimentos de lava vulcânica da já referida erupção vulcânica de 1761. Continuamos a descer este caminho florestal, deixando para trás as pastagens. Conforme íamos descendo, o odor no ar ia mudando, do cheiro a silagem passamos a um cheiro intenso a eucalipto muito agradável, mais à frente viramos à esquerda e entramos numa canada cujo chão em outros tempos deve ter sido calcetado, mas na atualidade encontra-se em ruínas e as pedras escorregadias tornavam a caminhada mais lenta. Foi nesta canada que apanhei um valente susto, ia a passar por um portão feliz da vida, sobre mim pairava a tranquilidade, pensava em tudo menos em canídeos. Longe de mim imaginar que havia cães naquela zona, uma vez que reinava o silêncio. No entanto, ao passar junto ao portão, os cães começaram a ladrar que até dei um pulo ao ser surpreendida. Mais à frente e parecendo que me queriam ajudar a relaxar apanhamos umas pavoas, que por algum tempo decidiram ir à nossa frente, como que a abrir caminho para nos proteger de novos sustos, depois acabaram por se fartar de serem as nossas companheiras e foram à sua vida. A ladear a canada lindos muros de pedra, os do lado esquerdo estão mais bem conservados, viam-se também algumas portas de acesso aos terrenos construídas com lindas lajes de pedra.
Esta canada levou-nos a pisar uma estrada de asfalto momentaneamente, porque aqui viramos à direita e entramos outra vez num caminho de bagacina vermelha por onde passamos por alguns pomares, a banana era a fruta rainha do pedaço. Seguimos por este percurso, uns metros mais à frente o trajeto começou a ficar tapado por árvores de incenso altas. Ao longe começamos a ouvir o som de motosserras, uns minutos depois estávamos nós a passar por três senhores que faziam limpezas na mata, de louvar este procedimento, pois evita o risco de incêndio. Continuamos a descer e a ter os muros de pedra a ladear o caminho. Por fim, chegamos a um cruzamento e aqui viramos, uma última vez, à esquerda entrando numa mata de incensos, depois encontramos numa zona com muros de pedra, onde parecia, em tempos idos, terem existido pomares e por onde andamos durante alguns metros longos. Nesta zona, a caminhada começou a parecer um filme, no qual o personagem acorda e está sempre no mesmo dia, já que voltamos a entrar numa mata de incensos e do nada lá estávamos nós outra vez a ziguezaguear por entre os muros de pedra para em seguida entramos outra vez numa mata e voltarmos aos muros de pedra. A única diferença foi que na segunda passagem pela mata tivemos de passar por cima duma árvore que tinha tombado e fechando o caminho. O filme repetitivo da mata e do muro acabou e voltamos ao asfalto da Rua Longa, descemos e acabamos por entrar no percurso do trilho municipal das Vinhas Bravas, sobre esta parte falarei noutro texto porque este trilho é muito rico para que escreva de forma superficial.

A nossa caminhada terminou junto às piscinas naturais dos Biscoitos e nunca antes as palavras de Henry David Thoreau fizeram tanto sentido “Caminhar sem rumo é uma grande arte.” E eu acrescento que “caminhar num caminho marcado também é uma arte.”, é como ir ao museu ver a arte que foi pré-selecionada para estar exposta e saber apreciar a escolha, no nosso caso em especial fomos apreciar as paisagens de quem idealizou o trilho. E num ápice a nossa caminhada chegava ao fim e à semelhança de outras já realizadas foi feita ao nosso ritmo, com muita energia boa, alegria, muita paz e tranquilidade.
Galeria das fotografias legendadas: Aqui