Não sei bem porquê, mas nos últimos tempos as caminhadas têm nos levado sempre ou quase sempre a Nordeste e este sábado, que antecedeu as eleições para o Parlamento Europeu, não foi diferente, lá fomos nós até Santo António de Nordestinho, para nos juntarmos ao grupo da caminhada organizada pelo Centro Recreativo e Desportivo do Concelho de Nordeste, que iria subir ao ponto mais alto da ilha de São Miguel, o Pico da Vara.
O dia acordou radiante com o céu a parecer estar em chamas, os laranjas dominavam a bela e pitoresca imagem que a mãe natureza neste dia decidiu brindar a quem saiu cedinho da cama. A cor vital senhora e rainha do céu anunciava bons agouros para esta caminhada, que mais tarde se vieram a confirmar.

Assim, um pouco antes da hora prevista para arrancar a caminhada chegávamos ao ponto de encontro, a sempre bonita Igreja Paroquial de Santo António Nordestinho. Esta igreja começou a ser construído no ano de 1889 sobre a antiga ermida que ali existia. A edificação deste templo tem uma peculiaridade muito interessante e talvez única na construção das igrejas nos Açores visto que os alicerces foram abertos pelas mulheres residentes neste local. No ano de 1909 o templo foi benzido, mas ainda sem a torre sineira. Esta figura só viria a ser acrescentada anos mais tarde. Na hora prevista para a partida, a organização reuniu todos os participantes para dar algumas explicações sobre a caminhada e em seguida rumamos para a Casa de Guarda da Reserva Florestal da Atalhada (Freguesia de Santo António de Nordestinho) e foi no caminho de terra batida que percorre esta linda floresta que demos início à caminhada. Após percorrermos alguns metros deste caminho passamos por mais uma casa que fico com a sensação que devia ser de apoio à primeira. Mais à frente um Reservatório de Abastecimento de Água à Lavoura em Santo António, o qual foi inaugurado no ano de 2011 e foi aqui que abandonamos o Caminho Florestal da Atalhada para prosseguirmos à direita, iniciando a nossa subida rumo ao ponto mais alto da ilha de São Miguel, 1103 metros de altitude. Este caminho ascendente, na atualidade, está desfigurado já que há algum tempo era ladeado por grandes Criptomérias, mas de há uns anos para cá estas grandes árvores têm vindo a ser cortada para exploração madeireira e ao mesmo tempo esta zonas têm sido replantadas com novas árvores. No entanto, até as novas árvores crescerem para providenciarem a preciosa sombra o caminhante vai ter de esperar uns anos e em dias de sol se quiser ir ao ponto mais alto da ilha terá que amargar com o sol. Nesta situação nem tudo foram más notícias, se por um lado perdeu-se a sombra, por outro, ganhou-se a vista magnifica sobre as freguesias de Santo António e Algarvia. No dia que ali caminhamos tivemos sorte, já que a estava vista limpa sobre grande parte da Costa Norte.

No fim deste caminho chegamos a uma plataforma plana e a uma bifurcação, na qual viramos à direita e a caminhada prosseguiu novamente a subir uma via lamacenta fechada por grandes Criptomérias, a qual conforme íamos subindo foi ficando envolta por nevoeiro dando um certo encanto ao local. Mais à frente saímos da mata e as frondosas árvores deram lugar à vegetação mais rasteira e endémica como o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), o azevinho (Ilex azorica), a urze (Erica azorica) e turfeiras compostas por Sphagnum sp., importantíssimas para a retenção de água. Por esta altura, a chuva decidiu também juntar-se à caminhada para ver se o grupo desistia de alcançar o ponto mais alto da ilha, mas a única coisa que alcançou foi tornar o caminho ainda mais escorregadio e só deixou de ser, momentaneamente, escorregadio quando chegamos a um passadiço de madeira, mas mesmo antes de chegarmos ao marco geodésico, do ponto mais alto da ilha de São Miguel, o caminho voltou à lama. Nem a chuva, nem o nevoeiro fizeram com que o grupo perdesse a boa disposição e uma vez chegado à zona plana do Pico da Vara aproveitou para retemperar as energias. Repostas as energias era tempo de voltar para o ponto de partida e para baixo pensam vocês que ia ser mais fácil, visto que se costuma dizer que “todos os santos ajudam”, mas não foi o que aconteceu neste dia já que a chuva havia deixado o trajeto lamacento, tornando a caminhada mais lenta, uma vez que nenhum caminhante estava disposto a fazer a espargata. E foi ao ritmo de caracol que chegamos à casa da guarda, aqui reparo havia um carreirinho e claro como não posso ver caminho que não conheça que não vá espreitar, este carreirinho não ia ser exceção, fui espreitar e acabei por encontrar um pequeno jardim de endémicas.

De mencionar que estes caminhos por onde passamos em outros tempos eram caminhos de servidão que davam acesso às zonas de produção de carvão, passagem de gado e comércio entre as povoações do concelho do Nordeste e da Povoação.
Falta mesmo só referir que todo este o percurso está situado em zonas protegidas passando pela Área Protegida para a Gestão de Habitats e Espécies da Tronqueira e Planalto dos Graminhais, Reserva Natural do Pico da Vara e perímetro florestal público da ilha de São Miguel, pelo que é sempre bom lembrar a quem decida subir ao Pico da Vara que deixe o caminho como o encontrou, para que quem vier atrás possa desfrutar desta paisagem maravilhosa que a mãe natureza criou e que tem o dom de cortar a respiração. Um bem-haja e boas caminhadas!!!
Galeria das fotografias legendadas: Aqui