Caminhando pelo património das Vinhas Bravas dos Biscoitos na Terceira

O dia acordou a querer alegrar-se, por entre as muitas nuvens que pairavam no céu de Angra do Heroísmo o sol aparecia tímido. Como não chovia, decidimos ir outra vez meter os pés no Trilho Municipal das Vinhas Bravas, nos Biscoitos (foi idealizado pelo Senhor Paulo Mendonça) para ver se desta vez o fazíamos por completo, já que na primeira passagem fizemos só metade e acabamos o trilho felizes pensando que o tínhamos feito por completo.

Seguimos até à freguesia dos Biscoitos (assim chamada uma alusão ao basalto negro que ali se formou devido às escoadas lávicas resultantes de várias erupções vulcânicas), local onde se situa este trilho municipal dedicado às vinhas. Não há registo formal de quando as vinhas foram introduzidas na ilha Terceira, mas pelo menos desde o século XVI e até à atualidade produz-se vinho verdelho nesta zona da ilha que é muito afamado.

Apanha de uvas

Este trilho está implementado na Área de Paisagem Protegida das Vinhas dos Biscoitos, a qual ocupa uma área de cerca de 165 hectares. Chegamos aos Biscoitos, estacionamos o carro junto ao chafariz, atravessamos a Estrada Regional e paramos para ler a placa informativa do trilho. Após as leituras, iniciamos a caminhada descendo a Canada da Rua Longa que nos levou ao Caminho Vinhas do Mar, antes de prosseguirmos, um desvio para ver a ruína do Forte da Rua Longa. Não há informação disponível sobre a data de construção deste forte. O que se sabe é que em 1520 o 1.º Provedor das Armadas dos Açores, Pero Anes do Canto mandou construir o Forte de São Pedro, no Porto da Cruz dos Biscoitos para defesa daquele ancoradouro que atendia as suas terras e também era local de acostagem das naus portuguesas e há quem defenda que pela mesma época o referido provedor tenha mandado construir o Forte da Rua Longa preocupado com a defesa da outra enseada deste povoado, por onde era possível o desembarque. Sabe-se que durante a II Grande Guerra Mundial este forte abrigou um nicho de metralhadoras. Inspecionamos o local e chego à conclusão que do forte nada resta a não ser o recorte, porque acredito que o muro e a pequena estrutura que ainda ali resistem sejam de construção mais recente, mas o desvio não foi em vão já que a Menina da Ilha Rainha aproveitou para olhar o mar, que neste dia, apesar de estar revolto, estava com uma cor muito bonita. Voltamos pelo mesmo caminho e prosseguimos o nosso percurso pelo Caminho Vinhas do Mar, um pouco mais à frente passamos pela Baía do Rolo (pedra rolada), há quem diga que era neste local que em tempos idos as naus que percorriam as rotas de África e Índia eram carregadas com produtos locais (vinho e fruta).

Estava frio e a chuva que se encontrava no mar preocupava-me sabia que mais tarde ou mais cedo iriamos ser abençoadas por ela. A chuva chegará, mas mais tarde por ora seguíamos alegres pelo Caminho Vinhas do Mar onde paramos para ver a Calheta dos Lagadores, era neste local que se lavavam os cestos que eram usados nas vindimas. Na atualidade, este sítio continua a ser procurado, mas pelos amantes dos banhos do mar e do mergulho já que é um lugar abrigado e de baixa profundidade (12m) que serve de lar a alguns peixes que habitam os mares dos Açores, como o Mero, o Lírio, o Sargo, o Congro, a Bicuda, o Polvo e a Moreira-preta. Nas imediações, as antigas trincheiras que foram construídas e utilizadas no contexto da II Grande Guerra Mundial. Passamos pela Fonte das Pombas e aqui atravessamos para a Menina da Ilha Rainha ir visitar os gatinhos que tínhamos visto da primeira vez que aqui estivemos, desta vez havia ainda mais gatinhos, para sua alegria. Ao longo deste caminho do lado esquerdo já se começava a ver a paisagem que dá nome ao trilho, as curraletas, que foram construídas pelo homem para protegerem as vinhas das intempéries. Aqui e acolá salpicam a paisagem as adegas e algumas conseguíamos perceber que já não cumpriam a sua função inicial, haviam sido transformadas em residências. Eu seguia metida com os meus pensamentos sobre esta paisagem em tudo cativante e majestosa, pensando nos meus antepassados o quão tinham sido resilientes e lutadores que de tudo conseguiam tirar algum proveito, ou se não vejamos, estas gentes pegaram num terreno infértil, com difíceis condições de humidade, salinidade e solo rochoso de basalto e transformaram o mesmo num terreno pródigo para a produção de vinha.

O caminho levou-nos a passar por um parque infantil e mais à frente a visitar as famosas Piscinas Naturais dos Biscoitos, onde a Menina da Ilha Rainha toda orgulhosa levou-me a conhecer o Abismo. Estas piscinas foram esculpidas pelo mar na rocha de basalto de origem vulcânica e em 1969 sofreram alguns ajustes que permitiram começar a serem usadas como piscinas. Contornamos a costa saindo, momentaneamente, do trilho para logo a seguir regressamos ao mesmo entrando no Caminho Canto do Feno, onde passamos pelo já referido Porto dos Biscoitos, que alberga em si muita história, por aqui e no contexto das Lutas Liberais de Portugal João Moniz Corte Real, então líder dos absolutistas terceirenses, recebeu algum armamento proveniente da ilha do Faial e também por aqui passou a história da baleação dos Açores. Passamos o porto e nas imediações o farol, mais à frente o, também já referido, Forte de São Pedro e mais acima um monumento dedicado aos homens do mar e da terra. Continuamos a percorrer o Caminho Canto do Feno onde à esquerda acompanham-nos as vinhas e as adegas e à direita a linha costeira e ao longe vemos o Pico Matias Simão. A costa nesta zona é agraciada por vegetação endémica dos Açores e podem ver-se plantas como salsa-burra, perrexil-do-mato e o bracel-da-rocha. Um pouco antes de chegar ao final deste caminho viramos à esquerda entrando num terreno onde fomos espreitar um miradouro e no qual caminhamos por um caniçal que nos levou a andar pelo meio das vinhas e para mim esta zona foi um dos momentos altos do percurso, aqui pudemos ver de perto as curraletas e os covachos onde a videira é plantada, ficando protegida dos ventos salgados pelos muros e usufruindo da temperatura que a pedra de basalto negro oferece. Foi a caminhar por entre as vinhas que tive a verdadeira noção do trabalho, persistência e esforço que os antigos tiveram para transformar este terreno infértil, num terreno generoso para a produção de vinho.

Piscinas naturais dos Biscoitos

Aqui e ali vimos em algumas zonas das vinhas pequenos tanques que fazem a recolha e posteriormente o aproveitamento das águas da chuva. Vimos lindas figueiras e outras árvores. Esta passagem pelas vinhas acabou na Canada das Vinhas onde a chuva começou a fazer companhia ao sol e que nos quis acompanhar até ao final do trilho, mas lá de vez em quando foi dando algumas tréguas, foi neste local que passamos por mais adegas e também pela Escola Básica e Integrada dos Biscoitos. No final da Canada das Vinhas viramos à esquerda para a Canada da Salga, dizem que é nesta canada que estão as vinhas mais antigas da ilha Terceira, mas descemos a canada toda acompanhadas por muitas casa e pastos, juro que não vi vinhas, no entanto, podem estar em sítio que não tenha acesso ao público em geral. A canada levou-nos de volta à zona do Forte de São Pedro onde viramos à direita e seguimos para a Canada de Santo António. Logo no início desta canada uma das praças de touros mais antiga do país, datada de 1885 e que tem a particularidade de ser quadrada, mais à frente a Ermida de Santo António, mandada construir em 1690 pelo Alferes José Dinis Ormonde (natural do Corvo, mas que se encontrava a prestar serviço militar no Forte de São João Baptista). Segundo reza a história, a ermida foi aqui construída porque o alferes encontrou o padroeiro a flutuar no mar junto à costa entre os Biscoitos e as Quatro Ribeiras, diz-se que a imagem terá sido levada várias vezes para a igreja paroquial e que voltava sempre a este lugar de forma misteriosa, pelo que o alferes cumprindo a vontade do santo mandou construir a ermida ali.

Mais à frente e aproveitando um local abrigado paramos para almoçar, para retomarmos, mais tarde, a caminhada, continuando a subir a Canada de Santo António para chegarmos a um parque de estacionamento junto ao parque de campismo onde, ao longe, vimos a Adega da Cooperativa dos Biscoitos, da primeira vez que fizemos o trilho fomos ver a cooperativa de perto. Prosseguimos, mas desta vez em frente e entramos numa canada que nos levou a passarmos por uma zona coberta de incensos e a passar novamente por muitas curraletas, algumas pareciam estar ao abandono. No entanto, da primeira vez que aqui estivemos vimos homens a acartar as uvas aos ombros em cestos de plástico, fruto das modernices, para uma carrinha que os esperava na Canada Brás da Silva e onde um senhor muito simpático nos ofereceu uvas e figos. Chegamos à Canada Brás da Silva e atravessamos, entrando novamente numa zona de vinhas, mas estas estavam organizadas de forma diferente, diz quem sabe que estão organizadas em “tornas”, ou seja, são fiadas de curraletas ligadas entre si por uma vereda. Nesta zona passamos por um campo de futebol onde da primeira vez e para alegria da Menina da Ilha Rainha encontramos um gatinho preto muito bonito. Esta canada acaba na Ribeira do Chamusco que nos levou de volta à Baía do Rolo, onde viramos à direita para o Caminho do Mar, o qual subimos e que nos levou de volta ao ponto onde tínhamos estacionado o carro.

Mas a nossa caminhada não estava completa já que a Menina da Ilha Rainha tem quase sempre uma surpresa para complementar algumas das nossas caminhadas, desta feita perguntou-me se conhecia o Museu do Vinho e como disse que não conhecia levou-me a visitar. Esta visita foi uma mais-valia à nossa caminhada. Se bem que ficou a promessa de voltarmos, o tempo não permitiu apreciar tudo como devia ser. Sobre a nossa visita o que dizer fiquei encantada! Fomos recebidas pela dona do museu que nos disse que o museu havia sido criado em 1990, ano em que a Casa Agrícola Brum tinha feito 100 anos de existência. Em seguida fez uma apresentação do museu que nos levou a entender a história da vinha e do vinho da ilha Terceira. Esta apresentação começou na produção e foi até ao engarrafamento do vinho. Após esta apresentação, a qual foi feita num antigo alambique, fomos ver o espaço, no exterior há duas casas típicas, uma torre fortificada do século XVIII, também existem várias prensas em pedra e lagares, um deles chamou-me à atenção porque parecia uma pia de lavar roupa, mas não era porque tinha o bico por onde saia o vinho. Ainda vimos curraletas e uma coleção de 23 antigas castas que tinham sido plantadas na ilha ao longo dos anos, uma eira e um palheiro. A chuva não ajudou a que a visita ao exterior fosse muito longa pelo que fugimos para os espaços interiores, num destes espaços vimos uma coleção de utensílios utilizados no passado nos trabalhos na vinha e na produção de vinho e vários documentos ligados à história da família Brum. Para acabar a visita fomos à adega onde gentilmente nos ofereceram um copo de verdelho licoroso para provar e digo-vos que vinho este é de chorar por mais de tão bom que era.

Caminhos por entre as curraletas

A caminho de casa o tempo havia piorado para além da chuva, agora tínhamos nevoeiro e vento a acompanhar e eu para abstrai-me pensava no quão o meu dia tinha sido enriquecedor. Realmente Leonardo da Vinci quando certo dia escreveu: “Aprender é a única coisa que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende.” não poderia estar mais correto. Um bem-haja e boas caminhadas. 

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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