Egito, a Terra dos Faraós

Descida do Rio Nilo parte 1 – Eclusa do Esna e Templo de Edfu

Após um dia longo, chego ao cruzeiro em modo descansar, mas a meio de conversa acabo por descobrir que nesta noite o cruzeiro iria passar a eclusa do Esna (construída no século XX), fico com a pulga atrás da orelha, nunca vi este processo dum barco passar por eclusas, pelo menos assim de tão perto e mesmo sentindo-me cansada decido que iria assistir ao vivo e a cores. Para quem não sabe, a eclusa é um elevador hidráulico através do qual é possível transportar barcos por canais com diferenças de altitude através de um sistema de comportas.

Enquanto espero pelo cruzeiro entrar na eclusa decido que vou até ao quarto para me refrescar e, momentaneamente, tentar descansar, já que ainda ia demorar umas horas grandes até chegar à vez do cruzeiro onde seguia entrar na eclusa. Chego ao quarto refresco-me e deito-me a descansar, mas a minha cabeça está ainda com a adrenalina toda e não consigo dormir, mas aproveito para relaxar o corpo e vou ocupando os pensamentos com o que havia visto neste meu primeiro dia neste país em tudo muito diferente do sítio onde vivo. O modo de vida para estes lados pensei que fosse ainda mais caótico, mas não, é relativamente calmo quando comparado com outros países que já visitei em África. O trânsito apesar de se conduzir a altas velocidades, não vemos os carros todos em cima uns dos outros e não há buzinadelas pelos menos aqui em Luxor não ouvi buzinar, as pessoas são muito simpáticas, mas quando vais às compras é preciso estar-se atento aos preços que se paga, achei que havia policiamento a mais, a cada canto que virava um polícia e todos ostentavam grandes carabinas, as ruas são sujas, mas não é por falta de varredores, em todos os cantos há gente com vassoura na mão, pelo que não percebo de onde vem tanto lixo. No céu reinava um sol que parecia uma bola de fogo e a cor do céu hoje estava esquisita não estava azul parecia estava coberto por uma neblina e fico na dúvida se eram poeiras ou poluição. Incrível é ver grandes plantações de milho ao longo dos caminhos por onde passei e dizerem-me que é preciso importar mais milho para alimentar a população e também nas ruas muitas carroças puxadas por burros.

Eclusa do Esna

Começo a reparar que o meu quarto está cada vez mais escuro e a sentir mais movimentação nos corredores do barco, vem-me ao pensamento que já devem estar a posicionar o barco para entrar na eclusa, pelo que levanto-me saio e vou até ao deck superior, mas ainda não estava na vez do barco onde seguia viagem entrar na eclusa, no entanto, deixo-me ficar naquele espaço a aproveitar a fresca para tomar notas no meu diário de viagem e apreciar um pouco das margens do Nilo à procura dos famosos crocodilos, que mais tarde vim a saber já não existem naquela zona, observo que as margens deste rio são bem movimentadas, ao longe vejo algumas casas de palha que são habitadas já que nas suas frentes vemos pessoas a fazerem a sua vida e que ao verem os barcos passarem acenam. Nas águas do rio, pescadores a pescar para o seu sustento e em redor dos barcos vemos algumas garças brancas pequenas, que afoitas tentam roubar o pescado. Nesta zona, a paisagem transforma-se, vemos muitas árvores de tâmaras e quando dou por mim, o tempo havia voado, o sol já havia dado lugar à sua namorada, a lua, e o barco já se encaminhava para a eclusa. Começo a reparar que borda afora do barco há uns pequenos barcos a remos que estão acostados ao cruzeiro e os colaboradores do cruzeiro recebem as cordas destas pequenas embarcações amarrando-as ao cruzeiro. Vendo estas movimentações e ingénua penso estamos a ser atacados por piratas, mas fiquem descansados que não eram piratas, mas sim pequenos comerciantes que tentam vender as suas mercadorias aos turistas. Estas pequenas embarcações momentos depois vão protagonizar uma cena que me causou medo, entraram na eclusa com o cruzeiro e ficaram enclausuradas num espaço tão pequeno, houve um momento que pensei que tinha acontecido algo menos bom, porque deixamos de os ver, mas estavam só tapados pelo cruzeiro. É assustador observar um barco tão grande entrar no espaço tão pequeno, ver a água subir e as comportas abrirem para a embarcação continuar a sua viagem noite dentro até Edfu e eu ia seguir viagem rumo ao meu quarto para descansar. Deito-me, apago a luz e começo a ouvir uns zumbidos aos quais começo a dedicar a minha atenção, mais parecia Hercule Poirot, no livro de Agatha Christie, “Morte no Nilo”, a tentar resolver o crime, mas não pensem que houve algum crime a bordo, porque os zumbidos eram os mosquitos que haviam decidido hospedarem-se naquele compartimento. Se não fossem tão barulhentos até tinha-os deixado ficar, mas como não se calavam fui à receção pedir que fossem mandar os mosquitos serem hóspedes de outra pessoa e quando, finalmente, se fez silêncio consegui dormi.

A noite deu lugar ao dia e para variar o sol ainda não tinha despertado e já estava um calor de matar, mas hoje fiz-me esperta e antes de meter o nariz fora de portas meti protetor solar em toda a pele que ia ficar exposta aos raios solares. Sair do barco para dar continuidade à aventura por terras dos Faraós é que foi uma aventura. Chego à saída e dou conta que o cruzeiro não estava atracado ao pontão e que para chegar a terra firme teria que passar por pelo menos 3 barcos e, assim foi, passei por dentro dos 3 barcos, cheguei a terra firme e segui com a minha vida rumo ao Templo de Edfu que significa vingança. A vingança do bem sobre o mal, ou seja, a vitória do Osíris sobre o seu irmão Seth. Seth era muito invejoso do seu irmão, porque o pai tinha dado a parte fértil do Egito ao irmão e a ele tinha dado a parte seca, mas o que Seth não sabia era que o pai tinha feito esta divisão porque sabia que ele era o mais forte e seria o único capaz de tratar daquele território. Na cabeça de Seth, o pai tinha dado a parte fértil ao irmão porque era o filho preferido e foi assim que surgiu o mal no mundo da criação egípcia. Este templo é um dos maiores e mais bem conservados do Egito, o seu estado de conservação prende-se com o facto de ter permanecido enterrado e de sobre este terem sido construídas casas que o protegeram até ao ano de 1860, altura em que Auguste Mariette começou os trabalhos arqueológicos que trouxeram novamente luz sobre este templo.

Salão Hipostilo

A sua construção deu-se durante a era Ptolemaica, é dedicado a Hórus e tem uma longa história de utilização, visto que só foi abandonado quando o Império Romano se tornou cristão e o paganismo foi proibido no ano de 391 d.C.. Mal se entra no complexo passa-se por umas construções, as quais não percebi a sua utilidade por estarem algo degradadas, mas no perfil do complexo e ainda bem longe vemos um gigantesco pilone de 36 metros de altura. Ao aproximar-me deste vejo no chão em frente duas grandes estátuas de Hórus e na parede, na parte superior, estão gravadas cenas de Ptolomeu a fazer oferendas aos deuses, abaixo desta cena vemos o mesmo faraó a castigar os inimigos em frente a Hórus e a Ísis. No centro do pilone, a porta principal por onde só passavam os sacerdotes e o faraó No cimo desta porta, esculpido vemos o deus Rá ladeado por duas cobras, que significa a luz (Rá o bem) que protege do mal (as cobras que são o mal). Passo a porta ao bom estilo rainha faraó e entro no grande pátio. Este recinto, cujo comprimento é 49 metros e largura 42,6 metros, era o local até onde a população egípcia podia entrar para adorar os deuses e deixar as suas oferendas. Este pátio está rodeado por colunas, penso que contei 32, mas posso ter contado mal. No final deste recinto há uma porta que dá acesso à sala das colunas e a ladear a porta duas estátuas de Hórus. Deixo o pátio que parecia um formigueiro, de tanta gente estar naquele local, e entro na zona que em outros tempos era reservada aos sacerdotes e faraó, a linda sala das colunas, uma cópia do Grande Salão Hipostilo, em Carnaque, mas mais pequena, os capitéis das colunas têm a forma de flor de lótus, o teto é decorado com corpos celestes que representam o céu e em algumas zonas parece estar queimado, mas segundo o que me disseram não é queimado, é manchado do lodo que em tempos cobriu o templo. Os relevos das paredes nesta sala retratam a cerimónia de fundação do templo, alguns destes relevos encontram-se danificados, mas não é só nesta zona que se observam relevos danificados ou mesmo destruídos, em outras áreas do templo há relevos danificados e destruídos. Há quem diga que tais atos aconteceram com a chegada dos romanos que, tal como fizeram a muitos outros templos egípcios, transformaram este local em igreja católica e como consideravam os relevos profanos acabaram por os destruir e há quem diga que os mesmos foram destruídos por pessoas que acreditavam que as figuras tinham o poder curativo. Neste local ainda visitei a biblioteca e o quarto da purificação.

Passo a sala das colunas e entro em outra sala com colunas ainda mais pequena que a primeira. De referir que esta sala também conhecida como o Hall do Festival e as outras salas que a sucedem são as partes mais antigas do templo. Neste espaço há uma porta que leva ao exterior do templo, mas como ainda não tinha visto todo o interior não saí, ainda há uma sala que servia de armazém para guardar as oferendas e uma sala que despertou em mim o meu lado mais curioso e falo-vos da sala que chamam de laboratório, porque nela as paredes estarem inscritas com formulas de perfumes que eram usados na mumificação. Estes perfumes eram usados para unir o corpo terrestre ao corpo espiritual. A curiosidade chegou quando comecei a ver os hieroglíficos que estavam esculpidos nas paredes alguns pareciam ser lâmpadas e outros pareciam ser rostos, mas não rostos humanos, tinham formas que pareciam pertencer a seres fora do nosso planeta, mas como não sou especialista em escrita egípcia antiga não me vou alongar sobre este assunto, irei guardar os meus pensamentos para não estar aqui a especular. No entanto, digo-vos que aqueles símbolos deixam uma mulher a pensar sobre o povo egípcio antigo, o qual pode ter sido mais avançado do que se pensa.

Conforme vou prosseguindo rumo ao interior do templo, este vai ficando cada vez mais escuro, chego à sala das oferendas, na qual as paredes são decoradas com relevos muito detalhados dos barcos sagrados de Hórus e Hathor. Nesta sala há duas escadas, uma na parede leste e outa na parede oeste, que davam acesso ao telhado (atualmente não se pode sair para o telhado) que são muito curiosas, já que uma sobe em espiral e a outra é em linha reta. Estas representam o voo do falcão que quando voa em direção ao sol fá-lo em espiral e quando voa em direção à terra fá-lo em linha reta.

Da sala de oferendas chego à sala mais sagrada do templo onde antes só o sumo sacerdote podia entrar. Ao redor desta sala há um corredor que leva a dez salas de culto. No interior da sala existe o santuário que é feito de uma pedra monolítica de granito preto com 4 metros de altura e uma cartela gravada do Rei Nekhtenbu II. Era neste compartimento que a estátua de Hórus ficava. Ao lado do santuário há uma mesa de oferendas e uma réplica do barco cerimonial no qual Hórus era levado durante os festivais.

Escadas de Hórus

Por esta hora já tinha a roupa a modos de torcer de tão transpirada que estava, pelo que já só queria sair para o “ar fresco” do exterior e foi o que fiz, voltei à sala pequena das colunas e sai. Já no exterior há um corredor em redor ao templo que é chamado de corredor da Vitória. Começo a percorrer o corredor. Nas paredes alguns relevos estão danificados, do lado direito há umas escadas que mediam o nível do Rio Nilo, naquela altura era o nível do rio que determinava os impostos que as pessoas iam pagar, ou seja, quanto mais alto estivesse o nível do rio mais impostos pagavam. Na traseira do templo há uma parede com relevos de cartucho e alguns destes estão vazios. Estes cartuchos vazios são da época dos faraós greco-romanos que decidiram não inscrever os seus nomes, pois não acreditavam que eram deuses. No lado esquerdo conta-se a história da batalha do bem contra o mal, vemos Hórus e Ísis a lutar contra um hipopótamo, este hipopótamo representa o mal, a história é contada em 14 cenas onde Hórus mata sempre o hipopótamo, mas este nunca morre e vai sempre crescendo, significando que o mal nunca para de crescer, mas Hórus está protegido por Ísis, que é a deusa do amor, o que significa que apesar de haver mal no mundo a pessoa tem sempre a opção de ser boa.

Em breve a segunda parte da aventura da descida do Rio Nilo…

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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