O dia amanheceu nublado pelo que ficamos na dúvida se havíamos ou não ir caminhar, mas estávamos de férias de Carnaval, por terras da ilha Terceira, pelo que como ninguém iria levar a mal decidimos ir caminhar. Saímos de Angra do Heroísmo e rumamos a Santa Bárbara já que queríamos explorar o Pico da Vigia e este localiza-se nesta freguesia.

Antes de avançar, devo dizer que este não é um trilho oficial foi caminho inventado por nós para passarmos por alguns locais que marcam a história de Santa Bárbara. Estacionamos o carro junto à igreja paroquial de Santa Bárbara. A primitiva igreja foi construída, possivelmente, em 1515 e ao longo dos tempos foi sendo reconstruída e ampliada. Deixamos a igreja para trás e seguimos em direção à Estrada Regional onde caminhamos por uns poucos metros para mais à frente viramos para o Caminho Velho e, para meu espanto, na esquina deste caminho escavadas no leito da Ribeira das Sete umas das mais impressionantes relheiras que já vi na ilha Terceira. Estes sulcos foram escavados pela passagem contínua dos carros de bois e mostram os tempos árduos em que não existiam pontes e a vida não era fácil nestas ilhas, mas apesar destas contrariedades e dificuldades as pessoas não desanimaram e continuaram a lutar para aqui sobreviverem e viverem. Outros tempos e outras formas de ser e estar na vida e que a mim, por também ser residente nestas ilhas, me deixam muito orgulhosa dos meus antepassados, pessoas destemidas e lutadoras. Fiquei tão encantada com estas lindas relheiras que foi a muito custo que as deixei para iniciarmos a descida do Caminho Velho. Nesta descida fomos sempre acompanhadas pelo som das duas ribeiras que serpenteiam esta freguesia e as casas, algumas destas, as típicas edificações de piso térreo construídas em pedra, com as suas chaminés que fazem lembrar as redondas do Algarve, uma destas era coroada por corações. Este caminho levou-nos à Canada de Nossa Senhora da Ajuda e aqui vimos ao longe um Pitbull à solta, a Menina da ilha Rainha cheia de medo do cão deixou-se ficar mais atrás, eu, também, com medo, mas mais destemida comecei a chamar pelo cão para ver a sua reação e para meu espanto era uma criatura muito mansa, até deixou fazer festinhas e durante algum tempo fez-nos companhia para depois desaparecer sem deixar rastro. É nesta canada que se pode visitar a ermida de Nossa Senhora da Ajuda que se encontrava fechada e duvido que abra as portas ao público devido ao seu de conservação. Segundo consta esta construção já existia no ano de 1545, mas a sua traça ao longo dos anos tem vindo a ser alterada. A atual edificação, e segundo uma cartela no frontispício, data de 1672. Contornamos a ermida por fora e quando ia a sair para continuar a descida a Menina da Ilha Rainha chamou-me dizendo que a visita guiada ainda não tinha acabado, fazendo-me descer por uns degraus que existem nas imediações da ermida, os quais levaram-nos a uma pequena gruta, a qual tem uma pedra no centro, sobre a pedra a imagem de Nossa Senhora da Ajuda fechada numa redoma, diz-me minha guia que não sabe se esta é a imagem original, mas dizem os antigos que esta imagem está envolta numa lenda, a qual levou a que esta ermida tenha sido aqui construída. A lenda diz que a Santa teria sido encontrada junto à costa e que teria sido levada para a igreja, mas que inexplicavelmente aparecia no dia a seguir sempre neste local. Há até testemunhas que dizem ter visto luzes que acreditavam ser nossa senhora a voltar a este local e terá sido por este motivo que a ermida foi aqui construída.

Deixamos a ermida e seguimos para o local que durante muitos anos era um concorrido ponto de romaria e que levou a que a casa anexa à ermida fosse construída para abrigar os romeiros e falo-vos do Pezinho de Nossa Senhora uma cavidade natural funda que existe numa laje de pedra da Ribeira das Sete, que por ter a forma duma pegada é apontada pela crença popular como resultado da aparição de Nossa Senhora na ribeira. Vimos a pegada e decidimos ir até ao Parque de Lazer do Pezinho de Nossa Senhora para almoçarmos, mas antes do almoço um desvio para irmos ver o miradouro de Santa Bárbara de onde se tem uma vista panorâmica sobre a encosta e sobre o mar. A minha guia estava entusiasmada para me mostrar a zona pelo que antes do almoço ainda descemos em direção à zona marítima para irmos ver as construções que estão a acontecer neste local. Diz-me a Menina da Ilha Rainha que o padre anda a construir uma poça para banhos. É certamente um sacerdote visionário e empreendedor. Antes de chegarmos à poça, mais um desvio a minha guia turística estava empolgada para me mostrar coisas lindas e tinha mais uma carta escondida na manga para me mostrar. Nada mais, nada menos, que uma linda cascata de dois saltos, na qual um dos saltos corria por entre um buraco que existia nas pedras. Esta cascata é a foz da Ribeira das Sete, fico encantada. Não fosse o mar revoltoso e não sei se ia ser fácil conseguirem-me fazer sair de junto da cascata. Tal como já sabem sou fascinada por cascatas. Saímos de junto da orla costeira, o mar estava alterado e perigoso e começamos a subir para irmos ver as obras da futura poça para banhos e digo-vos não sei se será fácil construir e manter uma poça de banhos naquela zona, o mar é poderoso neste local, mas se conseguirem será uma mais-valia para Santa Bárbara. Finalmente era hora de comer, a Menina da Ilha Rainha, a minha guia, ainda foi espreitar a zona dos grelhados e o salão de comer, eu fiz-me ao piso de me sentar na plateia da pequena praça de touros que existe no parque para comer, mas tive que esperar que ela chegasse para poder comer, uma vez que as sandes estavam na sua mochila.
Após comermos era hora de ir subir o Pico da Vigia, haviam dito que ali existia uma vigia da baleia, mas como a guia havia-me falado do local previamente decidi fazer uma pesquisa e descobri não era vigia da baleia e sim uma vigia que havia sido usada durante a Segunda Grande Guerra Mundial e lá fomos nós feitas historiadoras exploradoras à descoberta da vigia para confirmarmos se era de baleia ou militar. Iniciamos a subida da Canada de Nossa Senhora da Ajuda, a meio caminho viramos à direita e seguimos neste caminho por uns metros longos. Mais à frente, viramos, novamente, à direita para um caminho de terra batida e foi nesta zona que entramos num carreirinho que nos levou até ao geodésico do Pico da Vigia, que tem a seguinte inscrição: “IGP 1839”, mas antes do chegarmos ao geodésico, a vigia veio-se mostrar, ainda com alguma imponência, apesar do teto ser um reaproveitar dum disco de uma parabólica. Eu, ao ver lá de longe a vigia que se veio a mostrar ser mesmo militar, fiquei parecendo uma criança de feliz que estava por termos encontrado o local. Tirei umas fotos para arquivo e voltamos para trás, para o caminho de terra batida e depois para o de asfalto, onde seguimos em frente para uns largos metros depois virarmos à esquerda e subirmos até ao ponto de partida. Nesta última parte da caminhada fomos acompanhadas por pastagens numa destas vimos vacas “gigantescas” da raça ramo grande, bem bonitas por sinal.

A caminhada não foi longa, nem sempre tem de o ser, mas foi muito ao meu gosto, dir-vos-ia mesmo que foi uma das minhas caminhadas preferidas com lugares muito bonitos para ver e que em si agregam muita história. A minha guia, com o seu entusiasmo, cativava-me e pensava para mim o quão sortuda estava a ser neste dia. Até São Pedro tinha sido bonzinho, em pleno mês de fevereiro, o dia estava perfeito para caminhar. A felicidade está nas pequenas grandes coisas que a vida mete no nosso caminho. Um bem-haja e boas caminhadas!!
Galeria das fotografias legendadas: Aqui
«O mundo é um livro, e quem não viaja lê apenas uma página.»
Agostinho era um homem muito à frente do seu tempo e disse muitas coisas, algumas que considero fundamentais.
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Sem sombra de dúvidas que quem não lê vê muito pouco, a leitura engrandece a alma.
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