Apesar da previsão ser sol, sol, sol, a verdade é que os deuses do tempo decidiram abrilhantar o primeiro passeio da Associação dos Montanheiros com céu nublado e chuviscos, como alguém do grupo que se ia juntado para seguir para o ponto de partida disse: “- Não seria passeio dos Montanheiros se não chovesse.”. Chego ao ponto de encontro no Tentadeiro da Florestal do Pico da Bagacina às 9h30m e pensava que ia ser a primeira a chegar, mas estava redondamente enganada, pois quando cheguei muitos dos participantes já lá estavam.
Após algum tempo à espera dos restantes participantes zarpamos para a zona dos Tabuleiros, uma vez que o ponto de partida ia ser neste local. Antes da caminhada, houve espaço para uma breve explicação do guia, que foi quem me havia dado boleia para o ponto de partida. O passeio arrancou e não houve chuva que demovesse quem se deslocou para fazer parte deste, para mim seria a minha primeira caminhada com os Montanheiros e digo-vos, desde já, que fiquei muito impressionada com a organização, ninguém ficou para trás, não houve paragens muito longas, a paragem mais longa foi para o almoço, e, ao longo de toda a caminhada, o guia ia sempre explicando o que estávamos a ver.
Avançámos Biscoito da Atalhada adentro para uma zona de pastos, ao longe viam-se algumas vacas e eu toda medrosa como sou das vacas, neste dia em especial já nem medo delas tinha, a minha mente já só metia sentido aos possíveis pontos negros (toiros bravos) que poderiam surgir na paisagem, mas nada de ver toiros bravos como havia visto a subirem graciosamente o Pico da Bagacina. São animais muito bonitos e têm um porte que impõe respeito enchem a vista como se costuma dizer, mas não os quero perto de mim, gosto muito deles, mas apenas quando são meros pontos negros na paisagem, pois significa estão bem longe. Após caminharmos por um caminho de terra batida chegamos a um portão que um dos guias, prontamente, abriu e avançamos, mas após alguns metros apercebeu-se que tínhamos entrado no portão errado pelo que voltamos atrás e entramos no portão vizinho, aqui o caminho começou a subir e deixou de ser de terra batida passamos a caminhar pelas vias primitivas ladrilhadas de forma rústica com pedra de basalto. Este trilho serpenteava por entre pastagens e em algumas zonas era ladeado por criptomérias, a vista para trás apesar da chuva era muito bonita. Mais à frente, o nosso guia iria explicar o porquê da maioria destes caminhos que percorremos hoje serem calcetados e também o porquê dos muros de pedra, mas enquanto não chegámos a esse momento, a nossa subida continuava tranquila e a bom ritmo, sem darmos por nada já estávamos no cimo do caminho e a passar por uma casa em ruínas, mais à frente uma paragem para reagrupar, uma vez que iríamos mudar de direção, viraríamos à esquerda para entramos num pasto. Neste pasto, havia uma pequena ermida dedicada a Judas Tadeu, o guia aproveitou a paragem e o reagrupamento para explicar que existem na ilha Terceira pequenas ermidas construídas em pastos recônditos. Estas construções são na sua maioria antigas e estão ligadas à época em que ainda não haviam estradas na ilha, o que tornava difícil aos pastores, que viviam nos campos a tomar conta dos animais, virem ao culto à cidade de Angra, pelo que eram construídas estas ermidas para que estes pudessem ter um local para irem rezar e ter os seus momentos de culto.

Após esta explicação era tempo de continuar a caminhar avançamos por entre pastos e no fim dos pastos entramos numa clareira, a vista daqui era de cortar a respiração, via-se toda a caldeira do Guilherme Moniz, no lado esquerdo uma zona de rocha que o guia disse chamar-se o Rosto. Nenhum caminhante quis perder a oportunidade de fotografar esta paisagem tão bonita e claro começaram a parar e a puxar pelas máquinas e telemóveis, já que por esta hora os deuses do tempo também decidiram colaborar e haviam dado uma trégua na chuva, o sol brilhava timidamente no céu. Com este cenário o guia foi forçado a fazer uma paragem, mas nada se perdeu já que este aproveitou para dar uma explicação sobre o que estávamos a ver dizendo que estávamos na zona central da ilha Terceira e que era aqui onde ainda se podia encontrar a natureza no seu estado selvagem e ao mesmo tempo mais pura, referindo que a fauna que víamos era a mesma que os nossos povoadores haviam encontrado quando chegaram à ilha, ou seja, muita urze. Referiu, também, que as Criptomérias que víamos a salpicar a paisagem eram uma árvore introduzida, mas que possivelmente daqui a uns 8 ou 10 anos a paisagem estaria novamente diferente já que por esta altura era época de abates destas árvores para o aproveitamento da madeira. Para além de falar da fauna também referiu o nome de algumas das elevações que podíamos comtemplar lá ao longe e que ajudavam a embelezar ainda mais a nossa vista, como o Pico Agudo, o Algar do Carvão, o Pico Gaspar, entre outros. Ainda aludiu que esta zona era muito importante para a retenção das águas devido ao tipo de solo. É nesta caldeira que verte toda a água das encostas da Caldeira Guilherme Moniz, a qual é depois captada através das nascentes, como é o caso, por exemplo do Algar do Carvão ou a Furna da Água, esta última é uma das nascentes que faz distribuição de água para a cidade de Angra do Heroísmo.
A caminhada prosseguia tranquila e com alegria, não conhecia ninguém do grupo, mas em momento algum me senti excluída bem pelo contrário todos eram gentis e educados comigo fazendo sentir bem-vinda, passamos por mais um pasto e pulamos um muro de pedra seca para mais à frente andarmos por entre uma mata de criptomérias, aqui e acolá, e quando a paisagem permitia, viam-se nos pastos tanques que fazem retenção das águas das chuvas para o gado beber. No fim da mata passamos por entre um carreiro de criptomérias e viramos para um pasto, cujo caminho começou a descer. No fim do pasto atravessamos por entre umas criptomérias e chegamos a mais um pasto, o qual cortamos na diagonal para chegarmos a uma via de terra batida. Esta faixa era “preciosa”, pois encontramos muita obsidiana ou como o guia a chamou “vidro vulcânico”, como é sabido a obsidiana é considerada uma pedra semipreciosa, senti-me, enquanto caminhei durante uns metros, muito especial, afinal não é todos os dias que temos o privilégio de passar por um trilho ladrilhado por obsidiana. Na primeira entrada de pasto que encontramos à esquerda no “caminho precioso” entramos e aqui fizemos uma paragem para almoçar. Esta zona faz parte da Serra do Morião e tem uma vista soberba sobre a cidade património da UNESCO com o seu istmo o Monte Brasil e o ilhéu das Cabras e sinto que sou uma sortuda, não é para todos poder almoçar com uma vista destas! Refira-se um dos melhores almoços que já tive!!

Após esta paragem continuamos caminho descendo mais um pouco do “caminho preciso”, que por esta altura já estava coberto de pedra basáltica, que nos levou a entrar num pasto, mais à frente atravessamos um pequeno ribeiro seco, ao olhar para a pedra pareceu-me ter relheiras, chegamos a mais um pasto, no qual o Monte Brasil tímido mostrava só as suas zonas mais altas, prosseguimos pela pastagem, passamos por entre as aberturas que existiam nos muros de pedra, numa destas aberturas estava um coelhinho, mas infelizmente já sem vida e foi num destes pastos que fizemos um desvio à direita para irmos ver um tanque/bebedouro antigo. O nosso guia apontou-nos à esquerda para um monte de bagacina e esteve a contar-nos a história daquele monte, dizendo que há uns anos atrás uma inglesa havia visto umas imagens de satélite daquela zona e que havia metido na cabeça que ali havia um portal de ligação com os alienígenas, uma vez que a forma daquele tanque/bebedouro, aos olhos da inglesa, visto de cima parecia ser alguma forma de escrita. Assim, deu-se ao trabalho de contratar o serviço de alguns rapazes para andarem a fazer umas escavações arqueológicas ilegais naquele local, quando se soube destas escavações, os Montanheiros meteram-se à procura do local onde estavam a decorrer as mesmas e quando as acharam apresentaram uma denúncia às autoridades que foram ao local e acabaram com os trabalhos ilegais que ali estavam a ser realizados, mas, infelizmente, o mal já havia sido feito à paisagem, porque os rapazes já haviam escavado um túnel com pelo menos 20 metros, disse o guia que as escavações era rudimentares e em condições precárias, mas a realidade é que o bendito túnel continua ali, resistente à passagem do tempo.
Daqui para frente o nosso caminho foi um misto entre subidas e descidas, mas logo na primeira subida um momento enternecedor, vimos o nascimento de um bezerro e confesso que fiquei emocionada por ver que a primavera, a estação vibrante e cheia da vida, que é marcada pelo renascimento da natureza cumpria o seu ciclo! Foi tão bonito ver aquele bezerrinho nascer e ainda meio tonto já dar os seus primeiros passos em direção à sua mãe, que o lambia carinhosamente para o lavar. Depois de ver esta cena até me pareceu que todos os caminhantes haviam ficado com um semblante ainda mais leve e alegre para ajudar a caminhada que entrava novamente num troço de caminho de terra batida que nos levou a descer e a passar por um grande e belo tanque de retenção de água que tinha uma fonte. Neste ponto tornamos a subir pelo meio de uma pastagem, passamos entre árvores frondosas de criptomérias e ao passar por entre estas árvores percebi o porquê de as irem cortar dentro de alguns anos, é que estão bem grandes. Entramos noutro caminho calcetado de pedra basáltica de forma rude e por esta altura fiquei com a sensação que o guia tinha lido os meus pensamentos, pois do nada perguntou ao grupo se tinham conhecimento que existia tanto caminho calcetado rudimentarmente no interior da ilha, eu claro que respondi que não e o guia lá explicou o porquê. Disse que quase todos estes caminhos eram tão antigos como a história do povoamento da ilha, já que os primeiros povoadores quando chegaram à ilha encontraram um terreno muito pobre para cultivo, porque tinha muita pedra. Assim, os nossos antepassados tiveram que limpar estes terrenos das pedras para os poderem cultivar. As pedras removidas nas limpezas não se perderam, já que os antigos tinham o engenho para utilizarem tudo e assim usaram as pedras para calcetar vias de ligação entre localidades e construir os muros que vemos a dividir os pastos e terras de cultivo em toda a ilha Terceira.
No fim deste caminho chegamos a mais um pasto, o qual subimos, no cimo havia uma cisterna antiga. O guia fez aqui uma paragem para dizer que também é comum verem-se cisternas espalhadas nos altos da ilha, pois estas serviam para reter as águas das chuvas para uso dos pastores e para matarem a sede aos animais. Daqui tínhamos uma vista fenomenal sobre o Monte Brasil.

Mais à frente após passarmos por várias pastagens, mais uma paragem junto a uma casa, como tinha ficado mais para trás entretida nas fotos da cisterna e do Monte Brasil confesso que não ouvi a explicação sobre esta casa, mas pela configuração fiquei com a sensação de que deveria servir para guardar cereais e animais, aqui nesta zona via-se bem os vários picos das várias erupções que foram dando forma à ilha Terceira e a típica paisagem da manta de retalhos, no horizonte as ilhas do Pico e de São Jorge davam um certo encantamento à vista, pois pareciam ser parte integrante da ilha Terceira e claro a sempre imponente Serra de Santa Bárbara, que neste dia se mostrava descoberta e deslumbrante como sempre! Deixamos a casa para trás descemos um pasto que nos levou a um caminho de terra batida e no final deste encontrámos uma mata de criptomérias até parecia que nos iríamos perder, mas com os montanheiros não há desorientações, nem muito menos gentes perdidas, pois confesso que ao longo de toda a caminhada não os vi usar mapas ou GPS e num piscar de olhos estávamos outra vez no Biscoito da Atalhada e, desta forma, a alegre caminhada terminava. E nem sei que vos diga sobre a caminhada, pois gostei de tudo! Muito bem organizada em todos os sentidos e com um grupo que já deixa em mim saudades! Um bem-haja e boas caminhadas!!
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