Egito, a Terra dos Faraós

Descida do Rio Nilo parte 2 – Templo Kom Ombo

A volta ao barco foi feita de carrinha pelo que dirigi-me ao parque, enquanto caminhava rumo à viatura ia olhando à minha volta, o parque estava repleto de charruas para todos os gostos e feitios, uma vez que ainda há muito turismo que prefere usar a força animal como meio de transporte, mas digo-vos antes pagar mais um pouco e ir de carrinha porque vi cavalos naquele parque muito magros. Chego ao barco e tenho umas horas para descansar, decido ir até ao quarto, mas como o corpo estava com muita energia não conseguia descansar, pelo que saio novamente, subo as escadas que dão acesso ao deck superior e sento-me para tomar notas sobre o que havia visto até àquele momento, enquanto tomava escrevia aproveitava para apreciar a paisagem. No céu a neblina de poluição não dava tréguas, mas o rio Nilo é bastante limpo. A margem esquerda é mais desértica e observo que nesta há uma linha de comboio. A margem direita tem mais vida, é mais verde, tem muitas árvores, ao longe vejo as pessoas na sua vida quotidiana, os pássaros esvoaçam enchendo o rio de cor. Há vacas e entre esta alguns búfalos tentando disfarçar-se de vacas que nadam no rio para chegarem à erva mais viçosa.

Parede posterior onde estão esculpidos aquilo que se acreditam ser os instrumentos cirúrgicos usados pelos antigos egípcios bastante parecidos aos usados atualmente

A viagem para Kom Ombo foi muito tranquila, o “andamento” foi marcado pelo motor do barco. Kom Ombo, significa Monte de Ouro, por naquele local ter sido encontrado algum ouro. Este templo foi construído entre 180 a.C. e 145 a.C, um pouco depois do reinado de Ptolomeu VI, mas há vestígios de um templo mais antigo, que data da dinastia XVIII, construído pela Rainha Faraó Hatshepsut e pelo rei Tutmóses III, é pequeno quando comparado com os que vi no primeiro dia, mas este tem uma peculiaridade, foi o único templo construído durante o período ptolemaico que venerava dois deuses, Sobek e Hórus, até aqui tudo normal já que há muitos templos no Egito que são dedicados a dois deuses, o que o torna diferente é existirem dois templos exatamente iguais, ou seja, um templo dedicado a Sobek, o deus crocodilo, que junto com Hathor e Khonsu criou o universo, são consagrados na seção sul do templo e um templo dedicado a Haroeris (“Hórus, o Velho”), Tasenetnofret (a Boa Irmã, uma manifestação particular de Hathor ou Tefnet/Tefnut) e Panebtawy (Senhor das Duas Terras) que eram adorados na seção norte do templo.

Entrei no templo pelo lado do mal, ou seja, entrei pela porta da direita e chego ao salão hipostilo externo. Esta sala é comum ao lado do bem e do mal, tem 10 colunas, nas paredes há vários relevos das quais destaco os seguintes: do lado direito o relevo que relata a coroação de Ptolomeu XII, vemos Nekhbet (a deusa com a cabeça de abutre) coroando o faraó com a coroa dupla que significa a unificação do alto e baixo Egito. Nesta cena ainda vemos Ísis, a deusa do amor, e Sobek, deus da fertilidade e da água.

No lado esquerdo, o lado do bem, há um relevo onde vemos Ptolomeu XII a ser apresentado a Haroeris (Hórus velho), vemos a deusa Raettawy (deusa com cabeça de leão) e Isis. A observar toda a cena está o deus Thoth (deus com cabeça de íbis) e Hórus (Hórus novo), os dois Hórus distinguem-se, porque o novo é mais decorado. Esta cena é rodeada com o símbolo da medicina atual.

Passo para o salão hipostilo interno que tem 10 colunas e também é comum aos dois lados, aqui podemos ver um relevo de Thoth e Hórus a purificarem Ptolomeu, noutra cena vemos Ptolomeus a receber de Haroeris a espada da vitória. Atrás de Ptolomeu está a sua irmã-esposa Cleópatra II. E daqui rumo ao interior do templo passo por três antecâmaras que têm nas paredes várias inscrições curiosas como é o caso do calendário egípcio, o qual contava com 360 dias e mais cinco dias que não contavam porque eram dedicados às festas religiosas. Este calendário era dividido em três estações, a cheia do Nilo, o semear e a colheita. Ainda neste espaço podemos ver inscrições como uma cena da amamentação e outra duma grávida a dar à luz. Este espaço atualmente está diferente da configuração original, uma vez que foi destruído por um sismo no ano de 1992. Assim, na hoje em dia é possível ver a rota que era usada pelos sacerdotes do templo para darem voz aos deuses e responder às orações dos peregrinos.

No coração do templo localiza-se o lugar mais sagrado deste espaço, os dois altares, um dedicado a Haroeris e outro dedicado a Sobek.

Pormenor da parede do templo onde se vê a amamentação e o parto

Saio do templo e sigo para um corredor que contorna o templo, na parede posterior estão esculpidos aquilo que se acreditam ser os instrumentos cirúrgicos usados pelos antigos egípcios. Assim, vemos: pinça, bisturi, tesoura, taça para lavar as mãos, entre outros. Junto a esta cena ainda há uma receita média e o grande arquiteto e padre do Egito, Imothep. Não estava nada à espera de encontrar neste templo instrumentos cirúrgicos tão semelhantes aos usados na atualidade. Na parede em frente a esta cena, a Capela do Ouvidor, era aqui que os peregrinos se confessavam e recebiam as suas penitências, na parede estão gravados dois olhos e dois ouvidos.

Saio do corredor e começo a deambular pelo espaço, no lado esquerdo de quem está de frente para o templo há um tanque que é bem profundo por sinal. Neste tanque em tempos idos existiram crocodilos que eram considerados sagrados. Estes eram criados e adestrados não só para serem adorados, mas também para assustar e controlar os peregrinos, uma vez que nas horas em que eram alimentados estes répteis mostravam a sua natureza selvagem e os sacerdotes dentro do templo aproveitavam, aquele cenário de terror, para falar alto lá dentro. Toda esta cena que era ali criada metia medo aos forasteiros e isto fazia com que os sacerdotes conseguissem controlar os visitantes. Quando morriam, os crocodilos sagrados eram mumificados.

Nas imediações do templo existe um museu dedicado ao crocodilo onde podemos ver as múmias dos crocodilos, estátuas de crocodilos e até o antigo cemitério dos crocodilos, mas antes de me ir abismar com o tamanho das múmias dos crocodilos e até mesmos antes de sair do templo ainda fui espreitar a casa do nascimento que foi construída por Ptolomeu VIII. Esta casa é dedicada ao nascimento divino do deus Hórus.

Crocodilos embalsamados

Posta a vista no museu, que tem logo à entrada umas múmias de crocodilos que deixam os visitantes impressionados, era hora de regressar ao o barco e seguir a viagem rumo a Assuão. O dia tinha sido bem longo, mas valeu a pena mais este sacrifício de ter dormido poucas horas!

A aventura pela terra dos Faraós ainda não termina aqui em breve voltarei para continuar a partilhar esta viagem inesquecível com vocês. Até lá viagem muito com a Peregrinação Turística!!!

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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