Trilho das Cisternas da Terra Chã na Terceira com os Montanheiros

Mais um dia que acordava cinzento e a ameaçar chover, só que hoje e para ser diferente os deuses do tempo não se ficaram pela ameaça e mandaram mesmo a chuva cair sobre a encantadora ilha Terceira. Penso que estavam tentando demover o pessoal que se havia dirigido ao Tentadeiro Florestal, junto ao Pico da Bagacina, para participarem no passeio organizado pelos Montanheiros, dispersar, mas não houve quem se intimidasse com a chuva e a caravana arrancou rumo às Veredas da Terra Chã para o ponto de partida, o Miradouro das Veredas (Alto das Lages). Este miradouro tem uma vista sobranceira e muito encantadora sobre a freguesia, a malha das casas, o verde das pastagens e das matas que pontilham a paisagem e, claro, o mar, que hoje devido às condições atmosféricas escondia as ilhas do Pico e de São Jorge. Neste local há um azulejo informativo que dá conta que este miradouro já recebeu obras de requalificação por duas vezes, a primeira em 2008 e a segunda em 2021. A Terra Chã é uma das mais novas freguesias da Ilha Terceira, só tendo sido elevada a este estatuto no dia 6 de setembro de 1825. A sua padroeira é Nossa Senhora de Belém. Segundo o Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, a Terra Chã é “… a mais bela, rica e amena, freguesia da Ilha Terceira.”.

Após a foto de praxe, a caminhada que iria andar na zona do Pico da Matela e que era dedicada às cisternas arrancou, para quem não sabe a cisterna é um reservatório que serve para recolher e guardar as águas da chuva. Nestas cisternas, que iriamos visitar hoje, a água recolhida é usada para dar de beber ao gado. Nesta zona da ilha, as cisternas são diferentes, são construídas em cantaria pesada e a sua arquitetura é mais austera. Começamos a descer o Caminho do Pico da Urze que é asfaltado, um pouco mais à frente viramos à esquerda e entramos num pasto daqui começamos a subir e a vista começou a ser agraciada por um tímido Monte Brasil, que só deixava ver as suas zonas mais altas. Passamos por alguns pastos e caminhamos junto a um lindo muro de pedra solta, o qual estava resguardado pela sombra das árvores, mais à frente chegamos a outra zona de pastos, mais caminho para subir, mas antes da subida, a primeira paragem para reagrupar e o guia aproveitou para referir que a Terra Chã tem uma boa terra para cultivo, que nos anos 90, quando começaram a plantar árvores de eucaliptos pela ilha, os habitantes disseram que estas árvores só iriam vingar na Terra Chã e assim foi, o eucalipto só mesmo nesta freguesia. O guia referiu, ainda, que sempre assim foi na ilha, cada localidade tem a sua cultura específica e isto deve-se muito graças ao clima, que com os seus microclimas, por zona, são propícios só a certos tipos de culturas. Ao longe, numa pastagem via-se uma arquinha, esta construção, que faz parte da Rota da Água, é um dos componentes que faz parte do sistema que transporta a água. O grupo estava outra vez reunido e a caminhada prosseguia por entre as pastagens com o Monte Brasil ao fundo, que começava a mostrar-se majestoso no seu todo, como se fosse um prolongamento do manto de eucaliptos. Depois entramos num caminho que serpenteava por entre um mato de incenseiros, via-se que este havia sido aberto recentemente, nas árvores viam-se marcas feitas com catanas, que não enganavam, uma vez que ainda estavam bem frescas. Aqui e acolá alguns muros de pedra também iam indicando o caminho.

Miradouro das Veredas

No fim deste mato encontramos um caminho calcetado de forma rudimentar, a fazer lembrar os que havíamos visto no primeiro passeio dos Montanheiros. Este trilho levou-nos a passar por um portão do qual só restavam as colunas e a chegar novamente ao Caminho do Pico da Urze. No entroncamento viramos à esquerda rumo à Fonte Faneca passamos por um primeiro reservatório de água e prosseguimos. Aqui os deuses do tempo, que até então haviam tido alguma piedade dos caminhantes, perderam a paciência e mandaram cair chuva, mas chuva com vontade e eu que até então estava a caminhar sem impermeável por não me sentir incomodada pela chuva, decidi que era hora de tirar o casaco da mochila para o vestir. Nisto a caminhada seguiu à direita e o asfalto deu lugar à lama dos pastos, o que tornou a transposição dos muros de pedra solta mais difícil, ao ponto de num deles a Menina da Ilha Rainha quase ter caído, ainda bem que estava à sua frente para lhe amparar a ida ao SPA de lama e quem sabe a outras de consequências piores, mas não foi este episódio que tirou a boa disposição e alegria à Menina da Ilha Rainha que prosseguiu a caminhada entusiasmada. Num destes pastos, as amigas vacas que ficaram curiosas com a nossa passagem, chegaram-se para apreciar os humanos, mas se alguém tentava invadir o seu espaço elas afastavam-se tímidas, perdendo a sua curiosidade.

Passados os muros e os pastos chegamos a uma das zonas mais bonitas da caminhada, uma área protegida, não por ser de proteção para gestão de habitats ou espécies, quer dizer podia ser área protegida por estas razões, uma vez que tinha caraterísticas para tal, mas não, é protegidas por nela existir uma estação de controlo de eventos sismológicos. Ao chegarmos a esta matela encontramos um pouco da natureza intocada da ilha Terceira, muita Urze Alta, Louro e Cedro do Mato. Aqui parecia que tínhamos viajado no tempo, para uma época em que a ilha ainda se encontrava virgem, sem ter conhecido a mão do ser humano. O dia sombrio dava ainda mais mística e nostalgia à mata encantada, onde a qualquer altura poderia aparecer um elfo ou um gnomo, mas o tubo verde da estação sismológica, que acompanhava o nosso caminho, lembrava-me, constantemente, que o conto de fadas era só a minha imaginação fértil a trabalhar. Passada a matela, era altura de o grupo fazer uma paragem para retemperar as forças e a Menina da Ilha Rainha anunciava que tinha aproveitado a minha saída para ir votar e para andar a inventar comidas. Assim, no nosso cardápio estava uma “Pan Cheeseburger Egg” para acompanhar batatas fritas dos touros e refira-se estava deliciosa!!!

Matela de natureza intocada da ilha Terceira,

Após esta paragem, a caminhada avançou por um caminho de terra batida que nos levou à parte mais bonita e também a mais aborrecida, aborrecida no sentido que tivemos que pular muitos muros de pedra solta e esta situação deu-se porque as lindas cisternas estão edificadas no meio de pastagens. Assim, logo na primeira pastagem uma cisterna pequenina com um bebedouro muito encantadora, dirigimo-nos para a pastagem seguinte, ao canto mais uma cisterna, vimos os buracos no teto por onde a água entra. Fui espreitar e deu para perceber que aquela cisterna tinha um tanque bem alto que deveria reter muitos litros de água. Ao passarmos para o próximo pasto vimos um antigo celeiro. Aqui a caminhada mudou de direção e começamos a subir, passamos por algumas pastagens e ali estava mais uma linda cisterna. Esta estava muito enternecedora, na pequena pia junto à abertura lateral da cisterna havia um ninho com ovos, mas não consegui identificar qual a espécie de aves que dali iria nascer, mas segui contente por ver que a primavera apesar de andar bastante chuvosa, o ciclo do renascer da natureza não foi alterado. Mais à frente, um tanque que dava um lindo primeiro plano para as fotografias e eu claro não ia perder a oportunidade, pelo que puxei da máquina e entretive-me nas fotos. Avancei, o grupo já ia longe, para conseguir alcançá-lo, aproveitei e fiz um pouco de trail run selvagem. Quando cheguei junto a eles, já estavam próximo de um antigo palheiro. Estes palheiros, segundo o guia, serviam para dar apoio à agricultara e para guardar materiais e utensílios. Junto ao palheiro uma particularidade que levantava suspeita e curiosidade, duas pedras furadas. Claro que o guia tratou logo de matar a curiosidade aos presentes, não fossemos nós pensar que estávamos perante duas antigas ancoras e que tínhamos feito uma descoberta arqueológica. A explicação para as pedras era simples e lógica, em tempos idos não havia paradas para amarrar os animais quando estavam doentes e precisavam de ser tratados, pelo que os pastores tinham estas pedras furadas junto aos seus palheiros para poderem amarrar os animais no caso destes precisarem de fazerem algum tratamento. Deixei que todos tirassem as suas fotos e depois tratei de tirar as minhas e segui a caminhada, que por esta altura estava a contornar um tanque para alcançar a próxima pastagem. No cimo desta pastagem encontramos a terceira maior cisterna da ilha Terceira, ficando apenas atrás da cisterna da fortaleza do Monte Brasil e do Reservatório de Água de Santa Bárbara. Esta tinha a particularidade de ter uma fonte num dos lados que fazia a descarga da água diretamente para a pastagem. A chuva teimava em não dar tréguas, mas a alegria pairava no ar, estávamos a ver coisas lindas e a vista sobranceira sobre o Monte Brasil era de cortar a respiração. Subimos mais uma pastagem e passamos por um geodésico que penso que era do Pico da Matela e que tinha a seguinte inscrição: “IGC 1951”.

Cisterna

A partir do geodésico, o caminho foi sempre a descer com uma vista magnífica sobre a costa e o Monte Brasil, mas ainda houve tempo para ver mais uma cisterna que também tinha um bebedouro a ocupar um dos lados. Eu fiz a descida devagar, devagarinho para ir tirando fotos e absorver tanto a paisagem, como todos os sons da natureza, os pássaros, as rãs e as vacas. Chegada à estrada fiz um desvio ao miradouro para contemplar toda a beleza que se me entrava pelos olhos adentro e que me deixava apaixonada!!! Do miradouro até ao sítio onde o carro tinha ficado estacionado foi um ápice e assim se fez mais uma caminhada, que veio regada pela parte cultural e pela parte da natureza, que tanto me agrada. Um bem-haja e boas caminhada!    

Galeria das fotografias legendadas: Em breve


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